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Alfredo Rodrigues

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Os portos brasileiros e a crise climática: uma questão de resiliência

A economia global se move através dos oceanos, e os portos são seus pulsantes corações logísticos. No Brasil, país de vasta costa e intenso comércio marítimo, a resiliência dos portos é vital para o desenvolvimento econômico e social. No entanto, o aumento na frequência de grandes ressacas, a intensificação de fortes tempestades e a ocorrência de eventos climáticos extremos, antes raros, têm se tornado uma ameaça concreta. Nesse cenário, o alerta vem da própria comunidade portuária internacional, organizada em entidades como a Associação Mundial de Infraestrutura de Transporte Aquaviário, a Pianc: a adaptação a essa nova realidade não é uma opção, mas uma necessidade urgente para que os portos continuem operando com eficiência.

Em diversos estudos, grupos de pesquisadores da Pianc destacaram que a vulnerabilidade climática dos portos pode gerar riscos operacionais e financeiros massivos. O Brasil já vivencia essa realidade. No Porto de Santos (SP), por exemplo, a ocorrência de fortes ressacas, cada vez mais frequentes, vem causando interrupções significativas nas operações. Em maio de 2023, por exemplo, um episódio desses elevou o nível do mar em mais de 2 metros acima do normal, provocou a invasão da água em terminais portuários e prejudicou as condições de navegação, forçando a interrupção da movimentação de navios. A paralisação não foi apenas uma inconveniência; ela representou um custo financeiro direto e um atraso na cadeia logística, afetando exportações e importações.

No Porto de Paranaguá, no Paraná, a ameaça vem principalmente da intensidade das chuvas. Em um dos episódios mais críticos de 2022, chuvas torrenciais causaram o alagamento de vias de acesso, dificultando o transporte de mercadorias. Além disso, o volume de água das chuvas levou toneladas de sedimentos para os canais de navegação. Esse aumento no assoreamento exigiu um esforço de dragagem emergencial para garantir a profundidade mínima para a passagem de grandes navios, elevando consideravelmente os custos operacionais do porto e colocando em risco a sua capacidade de manter o fluxo de comércio.

A solução para tais cenários passa por um planejamento estratégico de longo prazo. Não se trata de uma simples reforma, mas de uma transformação profunda, que deve incluir a elevação de estruturas, o reforço de defesas costeiras e a criação de sistemas de drenagem mais eficientes. Em vez de reagir a cada crise, os portos devem se antecipar, incorporando as projeções climáticas no projeto de novas instalações e na modernização das existentes. A falta de ação agora resultará em perdas econômicas e danos à reputação no futuro.

A adaptação é a chave para transformar uma ameaça em uma vantagem competitiva. Portos que investem em resiliência serão os que melhor protegerão seus ativos, garantirão a continuidade de suas operações e atrairão mais negócios. A infraestrutura portuária é um patrimônio nacional, e sua sustentabilidade diante das mudanças climáticas deve ser uma prioridade para gestores públicos e privados. É hora de o Brasil olhar para a crise climática não apenas como um problema ambiental, mas como um desafio econômico e logístico que exige ação imediata. A inércia não é uma opção.


Alfredo Rodrigues é engenheiro portuário e pesquisador da Universidade de Lisboa

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