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Hudson Carvalho

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Os telômeros do poder

O que a biologia tem a ver com as organizações que pretendem durar para sempre?

“A época de consertar o telhado é quando ainda há sol brilhando.”
John F. Kennedy.

Em 2009, Elizabeth Blackburn – embora bióloga por formação – recebeu o Prêmio Nobel de Medicina por demonstrar que os telômeros — estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos — funcionam como mecanismos de proteção contra o desgaste cumulativo das células. A cada divisão, parte do material genético se perde. Na prática, cada vez que a célula se divide, o telômero fica mais curto, a célula perde capacidade de se dividir. Envelhece, e nós, junto com ela.

Esse não é o único fator a contribuir com o envelhecimento. Há muito mais envolvido, porém, os demais fatores são influenciados por nossa capacidade de trabalhar antecipadamente sobre eles, antes que nos influenciem negativamente. A alimentação, o estilo de vida etc. Por isso usei a frase de Kennedy para endereçar o raciocínio que quero desenvolver com você.

Há uma sofisticação estratégica nessa frase que vai além do óbvio, que trata de prevenção, de responsabilidade antecipada. Com nosso próprio organismo, mas também com o “organismo” que mantém vivas as empresas. Nesse campo, estamos falando de lideranças que entendem que sistemas se deterioram mesmo quando aparentemente funcionam bem.

Consertar o telhado sob tempestade é caro, improvisado e arriscado. Sob céu azul, é decisão do gestor que sabe o que faz.

Quando a proteção oferecida pelo telômero se encurta além de um limite crítico, a célula não entra em colapso imediato. Ela continua funcionando. Mais ou menos, como todo sistema complexo que opera em ciclos sucessivos, sofre desgaste incremental. Organizações não são diferentes. Países também não.

Empresas consomem reputação, disciplina de capital, qualidade decisória e coesão cultural a cada ciclo de expansão, fusão, crise ou transição de liderança. Quando não existem mecanismos de regeneração institucional, o crescimento passa a acelerar o desgaste.

EBITDA positivo é ótimo indicador, mas não mede integridade estrutural. A própria expansão do negócio – por si só – não é sinônimo de vitalidade.

Nas organizações, o equivalente institucional dos telômeros são os mecanismos que protegem a capacidade futura de decidir bem: previsibilidade regulatória, segurança jurídica, estabilidade macroeconômica, profissionalização e continuidade.

Sem esses elementos, cada ciclo político ou econômico consome parte do capital institucional acumulado. 

O mercado não reage a discursos, mas sim à consistência entre discurso e ações. O custo de capital é sensível à estabilidade das regras do jogo. Projetos de infraestrutura, mineração, energia, portos e aeroportos operam com horizontes de 20, 30 ou 40 anos. Nenhum investidor sério aloca recursos de longo ciclo em ambientes onde fundamentos oscilam a cada mandato. Redução de horizonte significa envelhecimento institucional.

Da mesma forma, países maduros devem preservar seus eixos estratégicos independentemente da alternância democrática de poder que possa haver. Mudam prioridades operacionais, não os fundamentos estruturais. Infraestrutura deve ser agenda de Estado.

O Brasil construiu ativos relevantes. Expandiu capacidade produtiva, consolidou cadeias estratégicas, ampliou protagonismo em setores essenciais à nova economia global. Positivo, mas a evolução da estrutura institucional e a sociedade precisam acompanhar o crescimento dos ativos físicos.

A profissionalização do aparato estatal, a autonomia técnica de agências reguladoras e a coerência normativa são condições mínimas para que o País ofereça previsibilidade. Sem isso, o horizonte encurta e o capital busca ambientes mais estáveis.

O Brasil possui vantagens objetivas na transição energética, na segurança alimentar e na oferta de minerais críticos. Mas potencial, apenas, não consolida o “destino”, se ele existir. O que converte potencial em liderança de mercado é disciplina institucional.

A analogia é direta com organismos que sobrevivem porque protegem suas extremidades.

O País pode continuar operando, produzindo e crescendo, mas se permitir o encurtamento progressivo de seus mecanismos institucionais de proteção, comprometerá sua capacidade de sustentar ciclos longos de prosperidade e relevância internacional.

A decisão que se impõe à liderança dos setores econômicos nacionais e dos sucessivos governos é um trabalho que transcende gerações.

Queremos administrar o presente ou estruturar o futuro?

Telômeros não aparecem nas manchetes. Mas determinam a longevidade do organismo.

Governança, previsibilidade e continuidade estratégica também não produzem aplausos imediatos. Porém decidirão se o Brasil será protagonista nas próximas décadas ou mero espectador de uma nova reorganização global.

O sol ainda está brilhando.

A pergunta inadiável é: Vamos esperar a tempestade…ou vamos fortalecer o telhado enquanto há tempo?

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