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Luiz Dias Guimarães

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“Ouça os sinos”

“Ouça os sinos! Ainda que não os veja. Ainda que a frivolidade dos dias o acoberte. Ainda que não saiba do poder daquelas notas que invadem o ser na frequência sonora que para muitos cura. Hoje, alguns cientistas resgatam experimentos de séculos atrás a demonstrar que a frequência sonora age como energia na mente e no corpo. Lembram que somos água, e a cada ressoar repercutem curas”

Blém, blém! Ouça os sinos! Eles falam! E há quem diga que até curam! Das dores e das doenças, há controvérsia. Mas ao menos do espírito sim, e isso já é o bastante para respeitarmos o badalar, ainda que hoje tão distante.

Diariamente ouço ao meio-dia e às 15 horas o sino do Santuário do Valongo, que desde 1640 badala. Ao meio-dia faz sentido. Às 15 horas nem tanto, só se for para despertar o frade de sua sesta, às vezes a mim também.

Não há muita precisão de seu toque. Varia em alguns minutos, depende do rigor do capelão, ou das travessuras de um menino que, suponho, exerça a função. Rigor só no relógio de Praga ou no Big Ben.

Um sino é mágico, é místico, alerta para perigos, aplaca a alma e pode curar, dizem alguns cientistas. Não é à toa que o primeiro surgiu na China há 2 mil anos antes de Cristo e tinha a função de alertar. Até que foi introduzido na Europa, no século V, quando virou comunicação com o divino no Cristianismo. Ouvir o sino é conversar com a alma, experimente.

Em muitos momentos da História alertou sobre guerras, avisou sobre mortes, alvoroçou comunidades em festa. São múltiplas as serventias, além de avisar sobre a hora. Os sinos devem ser lembrados. Pela importância dos sons que emitem, ou pela ausência deles como um clarim que ressoa na alvorada ou no silêncio da despedida.

Ouça os sinos ainda que tenha que buscá-los onde sempre estiveram e não ouviu. Afinal, os sinos falam! Sim, falam, ao menos com o divino. Mas acredito que falem também com o corpo, ainda que não curem das mazelas físicas mas aplacam a aflição.

Começo a acreditar no poder de um carrilhão e às vezes gostaria de viver num campanário como o da Catedral da Sé, em São Paulo, onde, desde 1958, 61 sinos podem ser acionados por imenso órgão com 61 teclas correspondentes às teclas musicais.

Os sinos falam quando tocam. Em São João del Rei, repleta deles, existe até uma escola de sineiros. São maestros regentes que dominam a linguagem dos sinos. Para cada situação há um código, como nossa voz, ora esganiçada com furor para avisar de um perigo, ora entristecida para comunicar uma morte, outra eufórica para festejar, ou simplesmente para chamar para a missa.

Ouça os sinos! Ainda que não os veja. Ainda que a frivolidade dos dias o acoberte. Ainda que não saiba do poder daquelas notas que invadem o ser na frequência sonora que para muitos cura. Hoje, alguns cientistas resgatam experimentos de séculos atrás a demonstrar que a frequência sonora age como energia na mente e no corpo. Lembram que somos água, e a cada ressoar repercutem curas.

Há quem defina inclusive as frequências certas para determinados efeitos: remover a dor, libertar do medo e da culpa, reparar o DNA, restabelecer o amor. 963 hertz, por exemplo, conecta com a luz e o espírito. Cada frequência produz um efeito, dizem. Os sinos tibetanos soavam a 640 Hz promovendo relaxamento.

Entenda, cada sino tem uma frequência. Feito artesanalmente, é composto de três camadas, fundidas em bronze com moldes em argila, pelos de cabra e estrume. A camada do meio, pela espessura, determina a frequência sonora.

Não sei o quanto transcende o poder dos sinos. Mas quando penso nos rumos da humanidade e ouço o badalar, lembro do que escreveu John Donne: Nunca pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por você.

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