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Patrícia Lia Brentano

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Pessoas: a infraestrutura invisível dos portos

A capacitação das pessoas precisa ser tratada como parte da infraestrutura da nossa logística.

Estive recentemente em um restaurante mexicano chamado Los Tacos. Salão cheio, equipe aparentemente qualificada, tecnologia e processos bem definidos. Como cliente, a impressão era de uma operação eficiente. Como profissional de logística, porém, comecei a observar o fluxo: onde os pedidos se acumulavam, onde havia espera, em que momento uma informação deixava de circular e quais pequenos gargalos poderiam ser eliminados. Não precisei conhecer o sistema ou a gestão do restaurante para perceber que havia espaço para melhorar.

Foi quando pensei nos portos.

Estamos vivendo um momento em que praticamente toda discussão sobre produtividade passa pela tecnologia. Automação, inteligência artificial, equipamentos autônomos, operação remota, eletrificação e digitalização já fazem parte da realidade de grandes terminais pelo mundo. E é evidente que o Brasil não pode ficar distante dessa transformação.

O problema começa quando confundimos tecnologia com solução.

O Brasil é uma economia emergente, com legislação trabalhista própria, infraestrutura desigual, diferentes níveis de qualificação profissional e uma realidade operacional bastante particular. Uma solução extremamente eficiente em um terminal na China, em Cingapura ou na Holanda pode não produzir o mesmo resultado aqui sem adaptações. Antes de importar a tecnologia, precisamos entender o contexto em que ela será aplicada.

Um exemplo são os equipamentos operados remotamente. Em alguns dos maiores portos do mundo, essa tecnologia representa ganhos importantes de segurança e automação. No Brasil, entretanto, as regras de segurança, a necessidade de segregação de áreas, as relações de trabalho e o próprio desenho dos terminais podem exigir outras soluções. O mesmo vale para a eletrificação: um equipamento elétrico pode trazer enormes benefícios ambientais, mas isso não significa, necessariamente, que fará mais movimentos por hora. Sustentabilidade e produtividade são objetivos importantes, mas não são sinônimos.

Talvez, por isso, antes de discutirmos qual será a próxima tecnologia a chegar aos nossos terminais, devêssemos olhar para dois pilares que estão muito mais ao nosso alcance: pessoas e processos.

Começo pelas pessoas.

Há cerca de duas décadas, quando os terminais brasileiros começaram a implantar sistemas operacionais cada vez mais sofisticados, uma parcela importante do potencial dessas ferramentas não conseguia ser plenamente aproveitada. Havia investimento, tecnologia e sistemas capazes de fazer muito mais, mas faltava, em muitos casos, a capacitação necessária para que os profissionais extraíssem deles todo o potencial.

Um dos exemplos mais evidentes era o inglês. Sistemas, manuais e treinamentos chegavam frequentemente nesse idioma, e muitos operadores não tinham domínio suficiente para utilizá-los plenamente. A tecnologia estava dentro do terminal, mas uma barreira de conhecimento limitava o resultado do investimento.

Hoje, a inteligência artificial talvez esteja reduzindo significativamente essa barreira. Podemos traduzir uma instrução em segundos, interpretar documentos e acessar informações em diferentes idiomas com uma facilidade que não existia há vinte anos.

Mas será que resolvemos o problema da capacitação?

Tenho minhas dúvidas.

Porque talvez estejamos diante de uma questão ainda mais básica: a capacidade de compreender aquilo que está sendo apresentado.

Não basta conseguir traduzir uma informação, se não conseguimos interpretá-la. Não basta ter acesso a dados se não sabemos relacioná-los. Não basta um sistema apontar uma anomalia, se o profissional não tiver conhecimento para entender sua relevância e decidir o que fazer a partir dela.

Essa discussão começa muito antes da formação profissional. Precisamos de uma educação básica capaz de desenvolver leitura, interpretação, raciocínio lógico e capacidade de análise. Um profissional que chega ao mercado sem conseguir compreender adequadamente um texto terá dificuldades não apenas para operar uma tecnologia sofisticada, mas para tomar decisões em qualquer ambiente complexo.

É por isso que a capacitação das pessoas precisa ser tratada como parte da infraestrutura da nossa logística. Não podemos pensar apenas em formar operadores capazes de executar procedimentos. Precisamos formar profissionais capazes de compreender a operação, interpretar dados, utilizar tecnologia, questionar informações, resolver problemas e entender como suas decisões afetam toda a cadeia logística.

O profissional do porto do futuro não será necessariamente aquele que sabe operar a máquina mais moderna. Será aquele que consegue compreender o sistema no qual essa máquina está inserida.

E isso exige uma mudança de perspectiva. Capacitar não pode significar apenas ensinar alguém a utilizar uma ferramenta. Significa desenvolver a capacidade de aprender continuamente, porque a tecnologia continuará mudando, os sistemas serão substituídos e as funções também serão transformadas.

A inteligência artificial pode, inclusive, tornar esse processo ainda mais importante. Se as máquinas passam a executar tarefas cada vez mais complexas, o diferencial humano deixa de estar apenas na execução e passa a estar na capacidade de interpretar, decidir, questionar e criar.

Talvez esse seja um dos grandes desafios dos portos brasileiros: não apenas trazer para dentro dos terminais a tecnologia que já existe no mundo, mas preparar as pessoas para que essa tecnologia produza, de fato, o resultado que esperamos dela.

Porque investir em tecnologia, sem investir em pessoas, é correr o risco de ter equipamentos de primeiro mundo operados por profissionais que não conseguem extrair deles todo o seu potencial.

E, no final, a pergunta talvez não seja quanto de tecnologia conseguiremos colocar dentro dos nossos portos, mas quanto de capacidade conseguiremos desenvolver nas pessoas que fazem esses portos funcionar.

Na próxima parte, falaremos sobre processos.

Patrícia Lia Brentano escreve quinzenalmente para o BE News.

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