terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Hudson Carvalho

Clique para ver mais

Articulista

POR FAVOR, VOLTE A LER!

“A solução? Não podemos delegá-la apenas aos outros, como as Escolas e os Governos. É um assunto de todos nós, cuja ação deve começar cedo e dentro de nossas próprias casas. Como? Responderei não com as minhas palavras, mas com as de Bill Gates: “Meus filhos terão computadores, mas antes terão livros.”. Se fosse dita os dias atuais talvez ele incluísse os smartphones na frase”

O brasileiro não gosta de ler, é o que dizem. Vamos conferir?

A última Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (realizada pelo Instituto Pró-Livro, instituição mantida pela Abrelivros – Câmara Brasileira do Livro e pelo SNEL – Sindicato Nacional dos Editores de Livros), diz que em 2024, pela primeira vez, o número de não-leitores, superou o de leitores. 53% dos entrevistados não leram ao menos parte de um livro, nos três meses anteriores à pesquisa.

Em 2019 a média de livros lidos por uma pessoa era de 4,95. Em 2024, caiu para 3,96. Quase um ponto percentual. Significa que um pouco mais de 2 milhões de pessoas, deixaram de tocar em um livro. Em assustadores números redondos, somos mais de 113 milhões de não-leitores.

Como se compram menos livros, seja em sua versão impressa, ou na eletrônica, o número de edições também caiu desde 2019. Eram cerca de 62 mil naquele ano, contra 45 mil entre 2023-2024.

Se não estamos lendo livros, talvez jornais e revistas? Não exatamente, ao menos nas versões impressas. Jornais tiveram queda de 40% em suas tiragens nos últimos anos e as revistas, impressionantes 87% de redução. Mesmo a base digital ainda é pequena, com menos de 1% da população assinando algum dos produtos disponíveis.

Uma pena. A título de comparação, nos Estados Unidos, a média de livros lidos por habitante é de 17, por ano. Neste país são editados cerca de 275 mil livros novos todos os anos.

Como os livros, além de cultura, também são um negócio, a quantidade de seus pontos de vendas, reflete o seu tamanho. A cidade de Xangai, na China, possui cerca de 3.800 livrarias. A vizinha Buenos Aires, 734. A nossa São Paulo, maior cidade do País, apenas 335.

São números tristes e impressionantes, mas o que querem dizer? Para manter o foco dessa Coluna, que são as carreiras, a vida das organizações e o mundo do trabalho, vou reduzir a análise apenas a esse universo.

A OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, em sua Pesquisa PISA 2022, revela que cerca de 50% dos jovens brasileiros na faixa de 15 anos não compreendem plenamente o que leem. O Banco Mundial, completa afirmando que as deficiências de leitura e escrita, impactam negativamente a produtividade do trabalhador nacional em até 20%.

É fácil de compreender que, sem essas habilidades, ferramentas tão importantes na atualidade como o aprendizado contínuo e a inovação, ficam mais difíceis de serem implantadas. Mesmo as atividades básicas necessárias para a compreensão de qualquer processo de trabalho, como a interpretação de instruções escritas e relatórios fica prejudicada. Difícil imaginar que novas e complexas tecnologias sejam aplicadas apenas assistindo a vídeos no YouTube.

Esse quadro nos permite afirmar que há um consequente aumento nos piores tipos de custo que uma empresa pode enfrentar: o retrabalho e o desperdício. São cerca de 200 bilhões a menos no PIB anual do Brasil, se calcularmos sobre os números de 2025. A própria comunicação do dia a dia fica prejudicada, se quem escreve e quem lê e-mails e mensagens de texto, tem dificuldades em escrevê-las ou lê-las.

Você deve estar imaginando por que tantos números e expressões superlativas num Artigo tão pequeno. Porque quero assustá-lo com os efeitos que a falta de leitura nos traz. Em última análise todos nós pagamos por eles, através de preços finais maiores resultantes da baixa produtividade e do desperdício ou redução do tamanho da economia (leia-se menos empregos e baixa remuneração dos existentes).

E a solução? Não podemos delegá-la apenas aos outros, como as Escolas e os Governos.

É um assunto de todos nós, cuja ação deve começar cedo e dentro de nossas próprias casas. Como? Responderei não com as minhas palavras, mas com as de Bill Gates: “Meus filhos terão computadores, mas antes terão livros.”. Se fosse dita os dias atuais talvez ele incluísse os smartphones na frase.

Por falar em smartphones, um dado adicional: o brasileiro passa, em média 9 horas e 13 minutos “online” por dia, atrás apenas da África do Sul. Desse total, cerca de 3 horas e 37 minutos, navegando nas Redes Sociais. Não farei juízo de valor sobre essa informação. Deixarei a interpretação dos efeitos, para o seu julgamento.

Um último pensamento, dirigido a quem pensa que a “I.A.”, a Inteligência Artificial vai nos tirar desse “curso de Titanic” que estamos vivendo: O que move o mundo são as perguntas, não as respostas.

Saber perguntar aos aplicativos de I.A, com correção e clareza, define a qualidade das respostas. Vocabulário reduzido, baixa capacidade de expressar um pensamento por escrito, erros gramaticais e de pontuação vão tornar as respostas mais limitadas do que poderiam ser. Não por falta de capacidade da “Inteligência” em processar. Seremos nós “perguntando pouco”, ou errado.

Término lembrando de uma frase de Cazuza, em 1987, a qual, embora tenha sido concebida em outro contexto, nos serve de alerta: “Os livros na estante já não tem tanta importância”.

Vamos mudar o país, mudando essa situação?

Hudson Carvalho é Consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, Diretor Regional da WISDOM – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista e Diretor Executivo da ELABORE-ONLINE – Pessoas e Resultados.

Compartilhe:
TAGS

Leia também