Por que nosso setor não inova?
Não basta perguntar se cada elo está sendo eficiente. Precisamos entender onde está a restrição que limita o fluxo naquele momento e se as decisões dos demais elos estão ajudando a eliminá-la, ou apenas transferindo o problema para o próximo.
Talvez, então, a discussão sobre inovação no nosso setor precise começar menos pela pergunta “qual é a próxima tecnologia?” e mais por outra: “Qual é a próxima restrição que, juntos, precisamos eliminar?”
Esses dias recebi uma pergunta que ficou na minha cabeça: “Por que o nosso setor não inova?”
E fiquei matutando… (matutando tanto que estou aqui, no domingo, escrevendo este texto… rs).
Será que não inova? E… antes disso… o que é inovação?
Quando olho para logística, portos, transporte e comércio exterior, vejo muita inovação acontecendo. Temos terminais cada vez mais modernos, equipamentos melhores, automação, inteligência artificial, sistemas de gestão, visibilidade, dados, novas soluções de infraestrutura… Não me parece justo dizer que somos um setor que não inova.
Então talvez a pergunta seja outra: estamos inovando onde realmente importa?
Porque tecnologia nova não significa, necessariamente, aumento de produtividade. Automatizar uma atividade não significa melhorar o fluxo. E otimizar um elo não significa, necessariamente, tornar a cadeia mais eficiente.
E talvez esteja aí uma das questões mais interessantes, intrigantes AND empolgantes (na minha opinião, né?!) da nossa logística.
Conversando com os diferentes participantes desse ecossistema, é curioso perceber como cada um tem uma explicação absolutamente razoável para os problemas que enfrentamos.
A transportadora diz que o embarcador quer o caminhão disponível exatamente na hora que precisa. “Parece pastelaria… pediu, quer o caminhão lá, quentinho.”
O embarcador diz que precisa de janela, porque precisa planejar sua produção, seus estoques e sua operação.
O terminal explica, em tom de brincadeira, pois não aguenta mais essa pergunta, que não é uma “loja de construção” que não tem janela… Existe capacidade, programação, pátio, equipamento, fila, restrições operacionais.
A rodovia para. O caminhão atrasa. Quando chega, muitas vezes o motorista ainda precisa aguardar. O terminal tenta reorganizar sua operação. O armador, diante de uma guerra, de uma nova rota ou de alguma questão geopolítica, precisa rever capacidade, transit time e preço.
E assim começa e recomeça, todos os dias, um eterno jogo eterno de batata quente.
A responsabilidade vai passando de um elo para o outro e, curiosamente, quase todo mundo tem razão quando analisamos cada situação isoladamente.
Mas… quem está olhando para a carga?
Essa, para mim, é uma das grandes provocações que precisamos fazer quando falamos de inovação.
Temos uma cadeia formada por dezenas de intervenientes, cada um com seus próprios objetivos, indicadores, responsabilidades e restrições. O terminal precisa maximizar a utilização dos seus ativos e a produtividade das operações. A transportadora precisa garantir disponibilidade e aumentar a utilização da frota. O embarcador busca previsibilidade, disponibilidade de produto e nível de serviço. O armador precisa equilibrar capacidade, rotas, ocupação dos navios e rentabilidade.
Mas a cadeia não para aí. O despachante precisa garantir conformidade e fazer o processo aduaneiro avançar. Os órgãos anuentes precisam assegurar que todas as exigências regulatórias, sanitárias e de segurança sejam cumpridas. A Receita precisa fiscalizar e, ao mesmo tempo, permitir fluidez ao comércio exterior. A praticagem tem como prioridade a segurança da navegação
E poderíamos continuar…
Todos têm objetivos legítimos. Todos possuem restrições reais. Todos estão, de alguma maneira, fazendo o que precisam fazer.
Mas quem tem como indicador o desempenho da cadeia inteira?
Talvez esse seja um dos pontos centrais da discussão.
Porque, quando cada interveniente otimiza exclusivamente o seu pedaço, corremos o risco de construir uma cadeia em que todos estão cumprindo seus KPIs… enquanto a carga continua parada.
E esse é um paradoxo interessante: podemos ter bons ou até ótimos resultados locais e, ainda assim, um resultado sistêmico ruim.
É exatamente aqui que a Teoria das Restrições se torna tão atual para a logística. Não basta perguntar se cada elo está sendo eficiente. Precisamos entender onde está a restrição que limita o fluxo naquele momento e se as decisões dos demais elos estão ajudando a eliminá-la, ou apenas transferindo o problema para o próximo.
No fim, eficiência local não é sinônimo de produtividade sistêmica.
O problema começa quando o ótimo de cada elo não produz o ótimo do sistema.
Essa discussão não é nova. A Teoria das Restrições já nos ensina há décadas que o desempenho de um sistema é determinado pelas suas restrições e que melhorar partes que não são a restrição pode gerar pouco ou nenhum ganho para o resultado global.
Na logística, isso é extremamente concreto.
Podemos aumentar em 20% a produtividade de um terminal. Excelente. Mas qual é o impacto para o fluxo se o acesso ao porto continua congestionado?
Podemos automatizar completamente o agendamento do caminhão. Mas quanto ganhamos se ele continua esperando horas para carregar?
Podemos ter uma transportadora com altíssima eficiência de frota. Mas o que acontece com essa produtividade quando o motorista passa parte relevante da jornada em filas?
Podemos implementar inteligência artificial em dezenas de processos. Mas qual é o ganho sistêmico se uma informação fundamental continua presa em um e-mail, uma planilha ou um sistema que não conversa com os demais?
É aqui que, na minha visão, a discussão sobre inovação fica realmente interessante.
Talvez nosso maior desafio não seja inovar dentro dos elos. Seja inovar entre eles.
Porque dentro de uma empresa conseguimos definir orçamento, prioridade, indicadores, responsáveis e retorno do investimento. Entre empresas, a equação é muito mais complexa.
Quem investe? Quem captura o ganho? Quem compartilha o dado? Quem muda primeiro? Quem assume o risco?
E, principalmente: qual indicador estamos tentando melhorar?
Se cada participante continuar olhando apenas para sua própria eficiência, podemos criar uma cadeia cheia de empresas individualmente eficientes e, ainda assim, manter um setor pouco produtivo.
Por isso acredito que precisamos resgatar uma ideia muito simples: apesar dos diferentes interesses, existe um objetivo que deveria ser comum a todos nós: facilitar o caminho da carga.
Parece básico. Mas muda bastante a perspectiva.
Quando a carga para, deveríamos perguntar menos “de quem é a culpa?” e mais “qual é a restrição do sistema neste momento?”
Está na infraestrutura? Na informação? No processo? Na legislação? Na capacidade? No planejamento? Na falta de integração entre os agentes?
E, depois de identificá-la, vem uma pergunta ainda mais importante: como eliminamos essa restrição juntos?
É aí que inovação deixa de ser sinônimo de tecnologia e passa a ser instrumento de produtividade.
Às vezes, a solução será inteligência artificial. Em outras, será integração de sistemas, compartilhamento de dados, revisão de uma janela operacional, mudança de processo, investimento em infraestrutura ou simplesmente eliminação de uma atividade que ninguém mais sabe explicar por que existe.
Inovação deveria ser medida menos pelo quanto implementamos e mais pelo quanto conseguimos aumentar o fluxo do sistema.
Porque cada hora de caminhão parado, cada dia adicional de estoque, cada informação digitada novamente, cada espera desnecessária e cada incerteza que incorporamos à cadeia têm um custo.
E esse custo não desaparece. Ele muda de lugar.
Vai para o frete. Para o estoque. Para a demurrage. Para o capital de giro. Para o preço do produto. E, no fim, aparece em um indicador que deveria importar para todos nós: a competitividade do Brasil.
Por isso, hoje, eu responderia à pergunta que iniciou essa reflexão de uma forma um pouco diferente.
Nosso setor inova, sim. E bastante.
Mas talvez ainda estejamos inovando demais nas partes e de menos no sistema.
Se quisermos dar um salto real de produtividade, precisamos sair desse jogo eterno de batata quente e olhar para a cadeia como aquilo que ela realmente é: um único fluxo, atravessando diferentes empresas, infraestruturas e interesses.
E essa discussão vai muito além da logística.
Um caminhão parado não é apenas um problema da transportadora. Um navio esperando não é apenas um problema do armador ou do porto. Uma carga parada não representa apenas algumas horas ou dias a mais no lead time.
Tudo isso significa ativo improdutivo, capital parado, estoque adicional, desperdício de recursos e aumento do custo Brasil.
E talvez seja essa a provocação mais importante.
Quanto de produtividade o Brasil ainda perde porque continuamos olhando para a eficiência de cada elo, em vez da eficiência da cadeia?
Em um país com dimensões continentais, grande vocação exportadora e enormes desafios de infraestrutura, logística não é apenas uma função operacional. Logística é competitividade.
Quanto melhor nossas cadeias fluírem, mais produtivas serão nossas empresas. Quanto mais produtivas nossas empresas forem, mais competitivos serão nossos produtos. E quanto mais competitivos forem nossos produtos, maior será a capacidade do Brasil de crescer, exportar, atrair investimentos e competir globalmente.
Talvez, então, a discussão sobre inovação no nosso setor precise começar menos pela pergunta “qual é a próxima tecnologia?” e mais por outra: “Qual é a próxima restrição que, juntos, precisamos eliminar?”
E, embora eu possa parecer (e sou, confesso) um pouco sonhadora, ou tudo isso soar utópico demais, talvez não seja.
Afinal, estamos falando de empresas diferentes, interesses diferentes, regulações, responsabilidades, sistemas legados, investimentos… Como esperar que todos esses agentes consigam olhar para o todo e não apenas para o seu pedaço?
Difícil? Sem dúvida.
Impossível? Não sei…
Porque existem setores tão complexos, regulados e cheios de intervenientes quanto o nosso que conseguiram avançar justamente naquilo que talvez ainda seja um dos nossos maiores desafios: fazer o sistema funcionar melhor, mesmo quando cada participante continua tendo seus próprios interesses.
O setor financeiro é um exemplo que me intriga bastante.
Bancos competem. Fintechs competem. Existem reguladores, infraestruturas, sistemas diferentes, questões de segurança, interesses econômicos gigantescos… e, ainda assim, hoje conseguimos transferir dinheiro de uma instituição para outra em segundos.
Ninguém precisou deixar de competir para que o dinheiro pudesse fluir.
Então… o que eles fizeram diferente? Como eles inovam tanto? E o que nós podemos aprender com isso?
Eu também não sei, ainda… (risos…). Fica a provocação para uma conversa, um café, um próximo artigo…
Por enquanto, uma coisa me parece clara: a carga “não sabe”, e “não deveria precisar saber”, onde termina a responsabilidade de um e começa a do outro.
Ela só precisa seguir seu caminho.
E fazer essa carga fluir melhor não é apenas uma questão de inovação e eficiência logística.
É uma agenda de produtividade e competitividade para o Brasil.
Anna Valle. Fundadora e COO da empresa de tecnologia e inteligência Flowls.