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Ricardo Arten

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Por que um porto brasileiro decidiu estar em Xangai

Decidimos estar em Xangai porque acreditamos que, para participar das transformações do comércio internacional, é preciso estar próximo de onde elas começam.

Quando falamos sobre a competitividade de um porto, é natural pensar primeiro em infraestrutura. Profundidade do canal, capacidade de movimentação, equipamentos, acessos terrestres, tecnologia e eficiência operacional são fatores fundamentais. E continuarão sendo. Mas o comércio internacional mudou, e a competitividade também depende de algo que acontece muito além dos limites físicos de um terminal.

Depende da capacidade de entender os mercados, acompanhar mudanças e estar próximo de onde as decisões são tomadas.

Foi a partir dessa visão que o Porto Itapoá decidiu abrir seu primeiro escritório internacional em Xangai, na China. Pode parecer uma distância considerável. Mas a relação comercial entre Brasil e China e o papel desse mercado nas nossas operações mostram que a decisão faz sentido.

No primeiro semestre de 2026, 49,4% das importações movimentadas pelo Porto Itapoá tiveram a China como origem. Nas exportações, 17,9% das cargas tiveram o país asiático como destino.

Não estamos falando, portanto, de um mercado distante da nossa realidade. A China já está presente nas operações do Porto Itapoá e nas cadeias de empresas brasileiras que importam produtos, equipamentos e componentes ou exportam sua produção para o mercado asiático.

Nas exportações destinadas à China, essa relação também revela características importantes da economia brasileira. Mais de 90% das cargas embarcadas pelo Porto Itapoá com destino ao país no primeiro semestre deste ano estavam ligadas às cadeias agroindustriais e florestais. Papel e celulose e carnes refrigeradas e congeladas representaram a maior parte desses volumes, acompanhados por algodão e madeira.

Esses números ajudam a explicar por que decidimos estar em Xangai. Mas não contam toda a história.

Um porto está no meio de uma cadeia muito mais ampla. A carga que movimentamos é resultado de decisões tomadas por indústrias, produtores, importadores, exportadores, tradings, armadores e operadores logísticos. Muitas dessas decisões acontecem muito antes de um contêiner chegar ao cais.

Uma fábrica pode ampliar sua produção. Uma empresa pode encontrar um novo fornecedor. Um grupo pode avaliar a abertura de uma operação no Brasil. Um armador pode alterar um serviço marítimo. Uma mudança no comportamento do consumidor pode criar uma nova demanda. Tudo isso pode se transformar em uma nova rota, um novo fluxo de carga ou uma necessidade diferente de infraestrutura.

Quando estamos apenas no destino, muitas vezes tomamos conhecimento desses movimentos depois que eles já começaram a produzir efeitos. Estar na origem nos dá a oportunidade de acompanhar mais de perto o que está acontecendo.

Esse é um dos principais motivos que nos levaram a Xangai.

Xangai é um dos principais centros econômicos e logísticos da China e abriga o maior porto de contêineres do mundo. A região concentra indústrias, empresas de comércio exterior, armadores e operadores logísticos ligados às cadeias globais de produção e distribuição.

Nosso objetivo não é simplesmente ter uma placa com o nome do Porto Itapoá em outro país. Queremos estar presentes, conversar, ouvir e compreender melhor o mercado. Fortalecer relacionamentos com empresas que já utilizam o nosso Terminal, criar conexões com novos clientes e parceiros e acompanhar oportunidades que possam gerar novos fluxos de comércio.

A presença física faz diferença nesse processo. No comércio internacional, relações continuam sendo construídas entre pessoas. Uma reunião, uma conversa e o acompanhamento constante de um parceiro podem trazer informações e abrir portas que dificilmente surgem apenas por meio de uma relação à distância.

Isso não significa prever tudo o que acontecerá no mercado. O comércio global é complexo e sujeito a mudanças. Mas estar próximo permite compreender melhor determinados movimentos e identificar oportunidades que talvez não fossem percebidas da mesma forma a milhares de quilômetros de distância.

Para um porto, essa capacidade de acompanhar o mercado também é uma forma de inteligência.

Continuaremos investindo em infraestrutura, tecnologia e eficiência operacional. Esse é o nosso dever como terminal portuário e uma condição indispensável para atender ao crescimento do comércio exterior brasileiro. Mas acreditamos que o porto do futuro também precisa olhar para fora de seus portões.

Não basta esperar que a carga chegue. É preciso entender onde ela está sendo produzida, quais mercados estão demandando novos produtos, onde estão surgindo investimentos e como as cadeias de suprimentos estão se reorganizando.

O escritório em Xangai nasce com essa missão. Será uma estrutura comercial e de relacionamento, mas, acima de tudo, uma ponte entre mercados: entre empresas asiáticas e brasileiras, entre oportunidades identificadas na origem e empresas capazes de atendê-las no Brasil, entre quem produz, quem compra, quem transporta e quem movimenta essas cargas.

A iniciativa conta com o apoio do Governo de Santa Catarina, por meio da InvestSC, e dialoga com a forte vocação internacional do nosso estado. Santa Catarina tem uma economia diversificada e conectada ao comércio exterior, e os portos têm papel fundamental nessa conexão.

Em 2026, o Porto Itapoá completa 15 anos de operação. A abertura do nosso primeiro escritório internacional representa uma nova etapa dessa trajetória. Ao longo desses anos, crescemos investindo para ampliar nossa capacidade e acompanhando a evolução das demandas dos clientes. Agora, damos um passo além dos limites físicos do Terminal.

Decidimos estar em Xangai porque acreditamos que, para participar das transformações do comércio internacional, é preciso estar próximo de onde elas começam.

A distância entre Santa Catarina e a China continuará sendo de milhares de quilômetros. Mas, comercialmente, ela pode ser menor quando existem presença e relacionamento.

É isso que fomos buscar em Xangai.

Ricardo Arten. CEO do Porto Itapoá.

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