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João Fortunato

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Porta-voz não se improvisa

Um dos erros mais comuns nas empresas é confundir hierarquia com aptidão comunicacional. Nem todo presidente, diretor ou gestor estão preparados para falar em nome da organização, especialmente sob pressão.

Em um ambiente marcado por hiperexposição midiática, redes sociais em tempo real e crises que se formam e se espalham em questão de minutos, a figura do porta-voz ganhou centralidade estratégica nas organizações. Já não se trata apenas de alguém designado para atender a imprensa ou conceder entrevistas pontuais, mas de um representante direto da identidade, dos valores e da credibilidade institucional. A escolha equivocada de um porta-voz pode ampliar crises, gerar ruídos, provocar contradições públicas e comprometer a reputação construída ao longo de anos. Por outro lado, a escolha criteriosa, aliada a preparo e apoio adequados, transforma esse profissional em um ativo decisivo para a proteção e o fortalecimento da imagem corporativa.

Um dos erros mais comuns nas empresas é confundir hierarquia com aptidão comunicacional. Nem todo presidente, diretor ou gestor estão preparados para falar em nome da organização, especialmente sob pressão. A função de porta-voz exige mais do que autoridade formal: requer clareza de raciocínio, equilíbrio emocional, capacidade de síntese, compreensão do funcionamento da mídia e, sobretudo, alinhamento profundo com a estratégia e os valores institucionais. Falar bem em reuniões internas não significa, necessariamente, saber se posicionar diante de um jornalista, de uma câmera ou de uma audiência hostil nas redes sociais.

O ponto de partida para a escolha do porta-voz deve ser a credibilidade. Internamente, ele precisa ser respeitado e reconhecido como alguém sério, ético e confiável. Externamente, deve transmitir segurança, coerência e legitimidade. A credibilidade não se constrói no momento da entrevista, mas ao longo do tempo, por meio de atitudes consistentes e da coerência entre discurso e prática. Porta-vozes sem lastro interno ou histórico profissional sólido tendem a ser fragilizados rapidamente, seja por jornalistas atentos, seja por fontes internas dispostas a desmenti-los.

Outro fator decisivo é o alinhamento absoluto com a cultura e os objetivos da organização. O porta-voz não pode ser alguém que apenas repete discursos prontos ou cumpre uma tarefa protocolar. Ele precisa compreender o negócio, acreditar na instituição que representa e estar convencido da legitimidade das posições que defende. Qualquer ambiguidade, ceticismo ou desalinhamento tende a emergir em situações de pressão, quando perguntas são duras, o tempo é curto e não há espaço para improvisações. Nessas circunstâncias, a falta de convicção se traduz em respostas evasivas, contraditórias ou inseguras.

A capacidade de traduzir temas complexos em linguagem clara e acessível é outra característica essencial. A lógica do jornalismo é marcada por objetividade, síntese e rapidez. Quem fala em nome de uma organização precisa compreender que entrevistas não são palestras nem relatórios técnicos. Respostas longas, cheias de jargões ou excessivamente defensivas dificultam a compreensão, abrem margem para cortes desfavoráveis e aumentam o risco de distorção da mensagem. Um bom porta-voz sabe priorizar informações, construir mensagens-chave e responder de forma direta, sem perder precisão nem responsabilidade.

O equilíbrio emocional talvez seja um dos atributos mais subestimados e, ao mesmo tempo, mais decisivos. Em situações de crise, o porta-voz pode ser confrontado com acusações graves, perguntas provocativas ou informações incompletas. Reações impulsivas, agressivas ou irônicas costumam agravar o problema e gerar repercussões negativas que extrapolam o conteúdo original da entrevista. O profissional preparado mantém a calma, evita confrontos pessoais e compreende que o foco deve estar na proteção da instituição, e não na defesa do ego.

Também é fundamental que o porta-voz saiba ouvir. A escuta ativa demonstra respeito ao jornalista, ajuda a compreender o real foco da pauta e reduz o risco de respostas desconectadas da pergunta. A relação entre porta-voz e imprensa não é de amizade nem de hostilidade, mas de profissionalismo. Tratar o jornalista como inimigo, adversário ideológico ou obstáculo a ser enfrentado costuma resultar em matérias mais duras e em um relacionamento deteriorado, que se cobra com juros em momentos delicados.

Saber quem não deve ser escolhido como porta-voz é tão importante quanto definir o perfil ideal. Profissionais impulsivos, vaidosos, indiscretos ou que gostam mais de holofotes do que da instituição representam riscos evidentes. Isso vale para aqueles que confundem opinião pessoal com posição corporativa, desrespeitam orientações técnicas e jurídicas ou acreditam que entrevistas são espaços para militância individual. A exposição pública exige disciplina, responsabilidade e consciência de que cada palavra dita em nome da organização tem consequências.

Outro equívoco recorrente é tratar o porta-voz como figura única e permanente. Organizações mais maduras adotam estruturas flexíveis, com porta-vozes institucionais, técnicos e circunstanciais, de acordo com o tema e o contexto. Essa estratégia reduz o desgaste de um único profissional, aumenta a precisão das informações e demonstra organização e transparência. Não é razoável exigir que uma mesma pessoa domine todos os assuntos ou esteja disponível para qualquer situação.

Independentemente de quem seja escolhido, nenhum porta-voz deveria falar publicamente sem treinamento adequado. O media training não é maquiagem, nem manual de respostas decoradas. Trata-se de um processo estruturado de preparação que ajuda o profissional a entender a lógica da mídia, organizar mensagens, responder perguntas difíceis, evitar armadilhas recorrentes, controlar linguagem verbal e não verbal e atuar com segurança, especialmente em situações ao vivo. Treinar porta-vozes é investir em prevenção de crises e em proteção reputacional.

A responsabilidade da organização não termina na escolha e no treinamento. O porta-voz precisa ser apoiado de forma consistente. Isso começa pelo acesso a informações claras, atualizadas e confiáveis. Colocar alguém diante da imprensa sem briefing adequado é expô-lo ao erro e comprometer a credibilidade institucional. Além disso, o alinhamento com as áreas jurídica e de compliance é indispensável para evitar declarações que assumam responsabilidades indevidas, violem sigilos ou prejudiquem processos em andamento. Comunicação e jurídico não são áreas concorrentes, mas complementares.

Em momentos de crise, a proteção institucional ao porta-voz é decisiva. Desautorizá-lo publicamente, abandoná-lo após entrevistas difíceis ou transferir responsabilidades individuais para preservar a imagem corporativa são práticas que fragilizam não apenas o profissional, mas a própria organização. Um porta-voz exposto transmite insegurança, e insegurança é rapidamente percebida pela opinião pública.

A comunicação externa também precisa estar alinhada à comunicação interna. Funcionários mal-informados se tornam fontes informais de ruído, boatos e vazamentos. Quando o discurso externo não corresponde à realidade interna, a credibilidade se esvai rapidamente. O porta-voz deve estar integrado aos fluxos de informação da organização, garantindo coerência entre o que se diz e o que se pratica.

Improvisar porta-vozes em momentos críticos é um dos erros mais graves da gestão de comunicação. Crises não são ambientes para amadorismo. Empresas responsáveis mapeiam previamente seus porta-vozes, treinam, simulam cenários adversos e revisam protocolos com regularidade. O desempenho do porta-voz deve ser avaliado continuamente, com reciclagens periódicas, feedbacks e atualização constante, acompanhando as mudanças no ambiente midiático e social.

Escolher um porta-voz eficaz não é uma decisão baseada em vaidade, conveniência política ou hierarquia. É uma escolha estratégica, que exige método, critérios claros e compromisso institucional. Em tempos de exposição permanente e crises recorrentes, o porta-voz não é apenas quem fala. É quem sustenta a credibilidade da organização quando todos os holofotes estão acesos.

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