terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Luiz Dias Guimarães

Clique para ver mais

Articulista

Portas dos segredos

“No século em que a astronomia vai desbravando o universo, abrem-se portas a revelarem a dimensão de um mundo que não sabíamos existir. Desde que acreditamos em um deus sabemos das imensas possibilidades , mas a rigor não as vemos no dia a dia. Desde que descobrimos o átomo, começamos a conhecer múltiplos planos da existência”

A vida é o que percebemos dela. E fato é que percebemos muito pouco. Nunca havia pensado no que li há dias: um diálogo imaginário entre dois fetos sobre o que haveria pós-parto. Não é preciso usar IA para supor as dúvidas e os mistérios que talvez assombrem os pequenos antes de virem à luz.

Seu mundo é aconchegante, o útero emana conforto e amor, às vezes sustos, decepções e raiva. Mas em geral, alimentados pelo cordão, pulsam sem saber que algo virá atrás da porta quando aberta ao mundo.

Seria então sua morte, fim do conforto maternal? Ou a passagem a um paraíso que às vezes é o céu, em outras um inferno? Na real, nada sabemos do porvir, e a vida é, sim, um mistério. O Ano Santo que a Igreja Católica festeja a cada vinte e cinco anos, abrindo suas portas secretas em Roma, pode significar existencialmente a descoberta.

No século em que a astronomia vai desbravando o universo, abrem-se portas a revelarem a dimensão de um mundo que não sabíamos existir. Desde que acreditamos em um deus sabemos das imensas possibilidades , mas a rigor não as vemos no dia a dia. Desde que descobrimos o átomo, começamos a conhecer múltiplos planos da existência.

Somos meras poeiras na chuva das galáxias, e quem sabe o que estamos achando pelos telescópios seja o nano universo dentro da célula de um cachorro, ou fragmento de um arroto cósmico.

Como seria viver por séculos a bordo de uma nave espacial, rumo a um planeta habitável a anos-luz de distância da Terra? Esse é, na síntese da publicação Aventuras na História, a proposta de um concurso internacional que reuniu as melhores cabeças, desafiadas a projetar “naves de geração” capazes de abrigar até 1.500 pessoas em uma jornada interestelar de 250 anos.

Seriam embarcações autossustentáveis que garantissem a sobrevivência da tripulação  e também permitissem que se prosperasse como uma sociedade coesa, adaptável e resiliente ao longo de gerações no espaço intergalático. O desafio teve vencedor, chamado Chrysalis, que criou uma nave de 58 quilômetros em forma de charuto. Dentro haveria moradias, parques, bibliotecas, fazendas e florestas tropicais.

Aquela gente que lá viveria a caminho do planeta prometido, se aplicarmos o conceito católico das portas abertas a cada 25 anos, teríamos ao longo dos 250 anos uma dezena de gerações que só saberiam da existência da História fora da embarcação graças aos livros providenciais existentes nas bibliotecas.

Mas qual seria a percepção que teriam eles da vida? Sabe, com tanto avanço, parece que a real dimensão da vida seria a eterna angústia, além das nossas crenças. Tudo parece se resumir mesmo a mera percepção e à convivência com o mistério.

Mas, pensando nos fetos hipotéticos, acomodados no conforto do útero, será que em realidade gostariam de abrir sua porta secreta? E os habitantes da nave, nascidos e familiarizados com o mundo intra-charuto de metal, estariam sonhando em um dia chegar ao planeta?

Um dia as portas se abrem ou não, depende de cada um ao decidir seu caminho. Abrir portas, santas ou não, e debruçar cada vez mais nas possibilidades da vida, ou viver e morrer na sua particular e ilusória dimensão.

 

Compartilhe:
TAGS

Leia também