Porto de Itajaí. A solução “já tá aí?”
“Todo homem luta com mais bravura pelos seus interesses do que pelos seus direitos”.
Napoleão Bonaparte.
353 + 160.
Que números são esses? São os que representam relativamente bem o grupo mais afetado do que qualquer outro e por isso deveriam estar também mais motivados a “lutar com mais bravura por seus interesses”, os postos de trabalho.
Explico: são as quantidades que representam aproximadamente o número de trabalhadores envolvidos nesse episódio tão importante do mundo portuário no momento: a continuidade das operações de movimentação de contêineres no Porto de Itajaí (SC).
O Ogmo Itajaí registra em seu site 353 TPAs – Trabalhadores Portuários Avulsos – ativos. São 160 os empregados que já haviam aderido ao Plano de Demissão Voluntária do antigo arrendatário dos Berços 1 e 2 desse Porto, no início do contrato temporário assumido com a Superintendência do Porto de Itajaí.
Quase 500 postos de trabalho. Se o fator multiplicador entre empregos diretos e indiretos gerados no setor portuário for de seis – como se acredita – estamos falando de cerca de 3.500 empregos. Quase 14.000 pessoas envolvidas, se considerarmos o tamanho da Família média brasileira. Significativo, em um município que possuía em 2022, 264.054 habitantes, segundo o IBGE.
Números, números, números, para dizer, na prática, que 5,3% da população local corre o risco de ficar com renda reduzida, até que a situação retorne à normalidade. Some a esse quadro a queda no movimento do comércio de cidade, os impostos que estão deixando de ser recolhidos, e teremos a dimensão do enorme impacto desse quadro na relação Porto-Cidade.
A situação é crítica para ambos. Uso as palavras do ministro dos Portos e Aeroportos, Márcio França, para definir a urgência das soluções: “A gente não pode esperar mais tempo, o tempo da ‘não presença’ de navios lá em Itajaí. A cidade se confunde com o porto e o presidente pediu para que nós então avocássemos o processo de chamamento da empresa que vai operar durante esse tempo provisório até que chegue a empresa definitiva”
Ainda estamos longe do final do túnel, mas já é possível ver alguma luz. O Governo Federal lançará em alguns dias um edital para que uma nova empresa retome de forma provisória as operações do Porto de Itajaí até a conclusão do processo de escolha do operador que irá operar esses dois berços por cerca de três décadas, conforme informou o ministro França, em comunicado divulgado em 20/07/2023. Transitório, terá duração de até dois anos e será lançado em conjunto com a Antaq – Agência Nacional de Transportes Aquaviários.
Se esse processo transcorrer sem percalços, a operação voltará à relativa normalidade apenas em agosto.
É um bom começo, enquanto se aguarda pelo lançamento do edital que vai levar a solução definitiva.
O meu senso de urgência, porém, não permite que eu fique sem imaginar o que pode ser feito em prol dos trabalhadores e suas famílias nesse período.
Por que não organizar os TPAs em grupos que deem suporte a atividades de organização e manutenção das instalações do terminal com o apoio do Ogmo Itajaí, como se fosse um grande programa de 5S, de forma que seja gerada atividade laboral e renda? Em momentos como esse é importante manter o bolso, mas também a cabeça cheios de algo positivo, além do dinheiro.
Uma revisão completa dos treinamentos obrigatórios, as famosas NRs – Normas Regulamentadoras, para os que eventualmente estiverem fora da validade sejam efetuados, através de parcerias entre a Superintendência do Porto e as entidades privadas que os proveem na região. O mesmo pode ser feito com a documentação relativa à Saúde Ocupacional. Todos preparados e prontos para a retomada.
A revisão de procedimentos de trabalho, operacionais e administrativos, nesse caso pela própria Superintendência, pode também ser feita para aproveitar esse intervalo de tempo, envolver profissionais e otimizar a forma de trabalhar no reinício das atividades.
Treinamentos comportamentais de curta duração que conscientizem para a necessidade sempre presente de operar com produtividade crescente. Menos custos e mais qualidade, por que não? Ótima oportunidade de melhorar o perfil dos trabalhadores para as futuras recontratações que acompanharão a retomada das operações.
Que tal uma convocação às empresas locais que cuidam da manutenção equipamentos portuários e das edificações para que antecipem reparos e melhorias. Renda, trabalho gerado e tudo “tinindo” para a retomada do trabalho.
Por fim, uma medida audaciosa, fora da caixa, que envolva as famílias dos TPAs: qualificá-los para a obtenção de renda alternativa, com atividades que colaborem com a renda familiar. Além do aspecto econômico em si, cada parente envolvido sentir-se-á motivado por ser parte das soluções. Por falar em familiares, trazê-los – em grupos organizados de visitas – para conhecer as instalações do terminal, como operam, pode criar uma sensação positiva de pertencimento. Que tal manter próximo, envolver e manter informado esse stakeholder tão importante?
É possível que parte dessas alternativas esteja em andamento ou que existam outras melhores. Só não é possível deixar de preocupar-se com o cenário.
Hudson Carvalho é Consultor em Gestão de Pessoas e Estratégia Empresarial, Diretor Executivo da Elabore Online – Resultados Através das Pessoas e Diretor da WISDOM – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) – Baixada Santista e ABCD