Porto de Itajaí: uma boa notícia e um alerta
A Superintendência do Porto de Itajaí (SC) removeu mais de 1,5 milhão de metros cúbicos de sedimentos do canal aquaviário do Complexo Itajaí-Navegantes em aproximadamente uma semana. O volume equivale a praticamente metade do que normalmente é dragado ao longo de um ano inteiro no canal, e foi necessário porque as chuvas intensas associadas ao El Niño elevaram a vazão do Rio Itajaí-Açu e depositaram no estuário um volume de sedimentos que comprometeu as profundidades operacionais. A operação demonstra capacidade de resposta real: mobilizar uma draga de sucção Hopper e retirar 1,5 milhão de metros cúbicos em sete dias é resultado logístico e operacional que merece reconhecimento. E é, ao mesmo tempo, o retrato mais concreto disponível de por que o modelo atual de gestão do canal, baseado em dragagem de manutenção contínua pelo operador público, sem concessionário privado com obrigação contratual de manter a profundidade, cria vulnerabilidades que eventos climáticos extremos tornam inaceitáveis.
O mecanismo que produziu a emergência desta semana é o mesmo que o BE News documentou ao cobrir os riscos do El Niño para hidrovias amazônicas e portos do Sul do Brasil: eventos climáticos que antes eram excepcionais estão se tornando frequentes, e infraestrutura dimensionada para o clima histórico entra em colapso operacional quando o clima real supera as premissas do planejamento. O Canal de Itajaí-Navegantes é especialmente vulnerável a esse fenômeno porque o Rio Itajaí-Açu drena uma bacia hidrográfica extensa no Vale do Itajaí — a mesma que produziu as enchentes históricas de 2008 e as que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 — e qualquer episódio de precipitação intensa no alto da bacia resulta, dias depois, em aumento de sedimentação na foz. Esse padrão é conhecido, mensurável e crescentemente previsível com os modelos climáticos disponíveis. O que não havia era o mecanismo contratual que obrigasse alguém a agir preventivamente.
A draga de sucção Hopper que removeu os 1,5 milhão de metros cúbicos saiu do canal nesta semana para manutenção após danos registrados durante a operação, o que indica que a intensidade da dragagem emergencial pressionou o equipamento além de sua faixa normal de operação. Isso tem custo: manutenção de emergência em equipamento pesado, mobilização de equipes em ritmo acelerado e interrupção da disponibilidade da draga para outros serviços. A dragagem de manutenção para lama fluida continua, o que significa que o trabalho desta semana não encerrou o problema, apenas controlou a fase mais aguda. As previsões meteorológicas que indicam possibilidade de continuidade das chuvas intensas no Vale do Itajaí sugerem que novas campanhas emergenciais podem ser necessárias nas próximas semanas.
A operação desta semana em Itajaí é o argumento empírico mais forte disponível para que o processo de concessão do canal avance sem mais demora. Um concessionário privado com contrato de 25 anos e obrigação contratual de manter as profundidades especificadas teria, por definição, incentivo para manter uma dragagem preventiva em nível que reduzisse a dimensão das campanhas emergenciais, porque o custo de uma dragagem emergencial de 1,5 milhão de metros cúbicos em uma semana é incomparavelmente maior do que o custo de manutenção contínua que evitaria o acúmulo.
O superintendente Artur Antunes Pereira disse que o porto vai “encaminhar os dados para avaliação da Marinha e seguir adotando todas as medidas necessárias”. É a resposta operacional correta para o curto prazo. A resposta estrutural, que resolve o problema de forma permanente em vez de gerenciá-lo campanha após campanha, é a concessão do canal a um operador com obrigação contratual de manter profundidade, com capital para investir em capacidade de dragagem própria e com incentivo financeiro para agir preventivamente. O Complexo Itajaí-Navegantes é o segundo maior de contêineres do litoral sul do País. Gerir seu canal em modo de resposta emergencial foi necessário, mas não pode ser a resposta protocolar.