Porto de Santos: recordes apesar dos gargalos
O Porto de Santos (SP) movimentou 538,2 mil TEU em agosto deste ano, o maior volume mensal de contêineres de sua história. Nesses primeiros oito meses de 2026, foram 4 milhões de TEU, também recorde para o período, com crescimento de 3,9% sobre 2025. Os granéis líquidos acumularam 13,4 milhões de toneladas até agosto, outro recorde histórico para o período. E a movimentação geral de cargas chegou a 125,9 milhões de toneladas nos oito primeiros meses, alta de 3,1% sobre o mesmo período do ano anterior. Santos responde por 28% de toda a corrente comercial brasileira. E nesse mês, demonstrou que consegue crescer mesmo operando num ambiente de infraestrutura que tem restrições conhecidas e urgentes. O recorde é real. O custo de produzi-lo sobre uma base física insuficiente também.
O número que traduz essa tensão não está nos 538 mil TEU. Está no fato de que navios de maior porte acessam o canal de 15 metros de profundidade com carga reduzida, aguardando maré favorável para entrar com segurança. Cada navio que percorre o canal com 80% da carga máxima, para respeitar o calado disponível, é um navio que poderia transportar 20% a mais se o canal tivesse os 16 metros que a dragagem contratada entregará a partir de 2027, ou os 17 metros que a concessão do canal, com audiência pública realizada em setembro, tornará obrigatórios por contrato. O recorde de agosto foi produzido apesar dessas restrições, não por causa de sua ausência. Quanto Santos poderia movimentar sem elas é um número que o setor desconhece e que o porto ainda não pode demonstrar.
Os granéis sólidos com 64 milhões de toneladas nos primeiros oito meses, liderados pela soja em grãos com 49,5% de participação, são o dado que conecta o recorde de Santos ao argumento do Plano Safra e da logística de exportação agrícola. Soja que sai por Santos precisa de canal com calado suficiente, de berços disponíveis, de acesso ferroviário e rodoviário que não congestionem e de terminais com capacidade de armazenagem que absorva os picos de safra sem acumular filas. O recorde de agosto demonstra que a demanda existe e cresce. O que a infraestrutura atual entrega é o máximo que consegue com as restrições que tem, não o máximo que o comércio exterior brasileiro precisaria.
Os recordes de Santos têm dois usos possíveis. O primeiro, e errado, é tomá-los como evidência de que o sistema funciona bem o suficiente e que as obras e concessões podem aguardar. O segundo, e correto, é tomá-los como medida do que o Porto consegue fazer apesar dos gargalos, e como argumento para acelerar as decisões que removerão esses gargalos antes que o crescimento do comércio exterior os torne ainda mais custosos. O Tecon Santos 10, megaterminal de contêineres a ser implantado no cais santista e ainda sem data de leilão confirmada, adicionará 3,5 milhões de TEU à capacidade anual de Santos, mais do que o complexo inteiro movimentou nos primeiros oito meses de 2026. A concessão do canal, com audiência pública realizada, avançará o aprofundamento para 17 metros com obrigação contratual. A dragagem em curso chegará a 16 metros em 2027. Cada um desses projetos está em andamento. Nenhum está concluído. E o comércio exterior brasileiro não para de crescer.