Português intensivo
Como visto, tudo leva a crer que alguns de nossos políticos e seus financiadores ou clientes sofrem com o nosso idioma. (…) Quem sabe seja uma boa ideia submetê-los a um curso intensivo para que aprendam ou reaprendam o significado exato de certas palavras, principalmente cidadania, democracia, honestidade, probidade, decência, decoro, humanismo, dialética, honra e ética.
Dizem que nosso idioma é um dos mais complicados do mundo.
De fato, é impressionante o que se consegue fazer com 26 letras, hífens, aspas, acentos, pontuações, etc. São milhares de palavras, inflexões e expressões! Às vezes, uma mesma palavra ou expressão ou a posição de uma vírgula ou, ainda, a entonação utilizada podem significar coisas diametralmente opostas.
Língua bela, mas ambígua!
Vivo “apanhando” dela, não nego. Mas me esforço para tentar entendê-la e ser entendido.
Infelizmente, alguns políticos parecem ter dificuldade muito maior do que a minha.
A compreensão errônea do significado de algumas palavras e expressões, a semelhança entre outras e casos de homofonia parecem estar no cerne de grande parte dos problemas que grassam nos meios políticos brasileiros. A diferença é que, nas aulas de redação das escolas, qualquer desses erros implicaria redução das notas, e não em encher os bolsos dos autores com outro tipo delas!
Vejamos alguns exemplos:
Os filósofos inspirados e os verdadeiros estadistas afirmam que, para lidar com a política, é preciso amá-la. Mas alguns políticos confundem essa conjugação do verbo amar com o substantivo feminino: a mala!
Os verdadeiros religiosos, que amam ao próximo como a si mesmos, afirmam que a fé protege, completa e enobrece o ser humano. Mas alguns políticos, “especialistas” no tema, demonstram entender que o abuso da boa-fé do povo elege e enriquece os de má-fé, ou seja, a si próprios. A política, para eles, é uma mera extensão e suporte de práticas corporativas cheias de “boas intenções”, daquelas que enchem o inferno.
Os grandes líderes espirituais proclamam que os maiores valores estão guardados em nosso íntimo. Mas alguns políticos confundem ego com rego. Talvez por isso guardem o que mais dão valor nas roupas íntimas.
São Francisco de Assis, quando afirmou “É dando que se recebe!”, falava em dar o que é próprio e não em dispor do que não é seu e não, no caso da política: o mandato ou o cargo público, para se apropriar do que é dos outros ou do que deveria ser de todos!
Outros mal-entendidos recorrentes são:
“Lavar as mãos” nem sempre é um ato de asseio.
“Molhar a mão”, então, é sinônimo de sujeira da grossa!
Entre o “é lícito” e o ilícito há uma cabal diferença!
Democracia significa “governo do povo” e não do demo!
Como visto, tudo leva a crer que alguns de nossos políticos e seus financiadores ou clientes sofrem com o nosso idioma. Talvez, por isso, prefiram interlocutores externos ou dialetos próprios. Outros até falam e escrevem muito bem, tendo o dom da oratória ou cultos, mas não dizem nada.
Quem sabe seja uma boa ideia submetê-los a um curso intensivo para que aprendam ou reaprendam o significado exato de certas palavras, principalmente cidadania, democracia, honestidade, probidade, decência, decoro, humanismo, dialética, honra e ética.
Quem sabe saiam dele conscientes de que o País precisa de uma nova escola de homens públicos, e não de mesma escória, ávida para se compor com a existente, sucedê-la e até sobrepujá-la.
Com alguma sorte, talvez descubram que a real democracia e o futuro do Brasil necessitam de políticos que sejam bons filhos da Pátria, e não grandes filhos da … Ops!
Adilson Luiz Gonçalves escreve semanalmente para o Jornal BE News, com seus artigos publicados tradicionalmente na edição de sábado e domingo e, eventualmente, na de quarta-feira.