Projetos-piloto: o primeiro passo para criar a indústria de offshore wind no Brasil
Um projeto-piloto de eólica offshore não deve ser entendido simplesmente como um parque comercial menor. Seu principal produto não é a eletricidade. É o conhecimento.
O Brasil já sabe que tem vento. Sabe também que possui uma extensa costa, experiência de décadas em operações offshore, uma indústria naval relevante e portos que podem assumir papel estratégico na transição energética. O desafio agora é outro: transformar esse potencial em uma indústria de eólica offshore efetivamente brasileira.
E essa indústria dificilmente começará com um parque de 1 GW.
Antes da escala comercial, precisamos aprender a construir, instalar, operar e manter a primeira turbina em águas brasileiras. É justamente aí que os projetos-piloto ganham importância.
Um projeto-piloto de eólica offshore não deve ser entendido simplesmente como um parque comercial menor. Seu principal produto não é a eletricidade. É o conhecimento.
Ao colocar uma turbina no mar, uma cadeia inteira precisa funcionar pela primeira vez. Estudos ambientais precisam sair do papel e ser confrontados com dados reais. Estruturas precisam ser fabricadas. Componentes transportados. Áreas portuárias preparadas. Operações de montagem e integração executadas. Embarcações mobilizadas. Sistemas elétricos conectados. Procedimentos de segurança, inspeção e manutenção testados.
É nesse processo que descobrimos quais capacidades já existem no país e, principalmente, quais ainda precisam ser desenvolvidas. Por isso, sua importância não deve ser medida apenas pela quantidade de energia produzida.
Do potencial à capacidade industrial
O debate brasileiro sobre eólica offshore avançou rapidamente nos últimos anos. Falamos em dezenas de gigawatts de projetos, grandes investimentos e uma nova fronteira para a geração de energia.
Mas existe uma enorme distância entre identificar potencial e possuir capacidade para executá-lo.
Um parque comercial exige uma cadeia industrial preparada para produzir repetidamente fundações, estruturas, cabos e componentes; portos capazes de receber, armazenar e integrar equipamentos de grande porte; embarcações e operações marítimas especializadas; profissionais qualificados; fornecedores certificados; além de processos ambientais e regulatórios capazes de acompanhar essa nova atividade.
Nenhuma dessas capacidades surge automaticamente com a publicação de uma regulamentação ou com a realização de um leilão.
Elas são construídas fazendo.
Por isso, os projetos-piloto podem funcionar como uma ponte entre a regulamentação e a escala comercial.
O piloto como infraestrutura de aprendizado
Talvez a melhor maneira de compreender seu papel seja pensar no piloto como uma infraestrutura nacional de aprendizado.
Cada etapa produz informações que reduzem o risco do projeto seguinte.
Quanto tempo realmente leva determinada operação portuária? Qual infraestrutura precisa ser adaptada? Que componentes podem ser fabricados localmente? Quais tolerâncias de fabricação são críticas? Que embarcações existentes podem ser utilizadas? Quais operações exigirão novos ativos? Como as condições meteoceanográficas brasileiras afetam instalação e manutenção?
O mesmo vale para o meio ambiente.
Projetos reais permitem transformar modelos e hipóteses em dados de campo sobre aves, mamíferos marinhos, pesca, ruído submarino, condições oceanográficas e interação com outras atividades econômicas.
E há ainda um componente frequentemente subestimado: pessoas.
Engenheiros, técnicos, trabalhadores portuários, tripulações, universidades, órgãos ambientais, classificadoras e fornecedores precisam aprender a trabalhar juntos em uma indústria que ainda está começando no País.
Esse conhecimento permanece mesmo depois que o projeto termina.
Aprender antes de multiplicar
A experiência internacional mostra o valor desse processo.
O Japão é um exemplo particularmente interessante. Diferentes projetos demonstrativos permitiram testar tecnologias, modelos de instalação, fundações fixas e flutuantes, operações portuárias e diferentes condições ambientais. Nem todas as soluções testadas seguiram para a escala comercial — e isso também é aprendizado.
Projetos-piloto existem justamente para descobrir, em escala controlada, o que funciona, o que precisa ser modificado e o que não deve ser repetido quando os investimentos passarem de dezenas de milhões para bilhões.
O Brasil começa agora a construir sua própria trajetória.
Iniciativas de demonstração em diferentes regiões do país, utilizando conceitos tecnológicos distintos, podem criar algo ainda mais valioso se forem vistas como parte de um processo coletivo de aprendizado.
Em vez de perguntar apenas quantos megawatts cada piloto irá produzir, deveríamos perguntar: quanto conhecimento cada projeto deixará para a indústria brasileira?
Dados precisam virar legado
Isso exige uma decisão importante.
Sempre que possível, projetos demonstrativos devem produzir conhecimento que possa ultrapassar os limites do próprio empreendimento.
Dados ambientais, meteoceanográficos, operacionais e tecnológicos podem apoiar universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e futuras iniciativas. Procedimentos desenvolvidos durante licenciamento, fabricação, instalação e operação podem ajudar a reduzir incertezas nos projetos seguintes.
Naturalmente, informações comerciais e propriedade intelectual precisam ser protegidas. Mas existe uma grande diferença entre proteger tecnologia proprietária e transformar todo aprendizado de um projeto-piloto em informação privada.
Quando há recursos públicos, apoio institucional ou participação acadêmica, essa discussão se torna ainda mais relevante.
Um bom projeto demonstrativo não deveria deixar apenas uma turbina no mar. Deveria deixar uma cadeia mais preparada para instalar a próxima.
A primeira turbina
O Brasil possui uma oportunidade rara.
Podemos esperar que grandes projetos comerciais criem a cadeia de que precisarão — assumindo os custos e riscos de aprender durante a própria execução — ou podemos construir gradualmente essa capacidade antes da escala de gigawatts.
Projetos-piloto permitem qualificar fornecedores, preparar portos, desenvolver profissionais, testar tecnologias, produzir dados ambientais e aproximar indústria, academia e governo.
Por isso, sua importância não deve ser medida apenas pela quantidade de energia produzida.
A primeira turbina offshore brasileira pode gerar poucos megawatts quando comparada aos grandes parques que imaginamos para o futuro.
Mas os megawatts talvez sejam justamente a parte menos importante do que ela produzirá.
O primeiro gigawatt brasileiro de eólica offshore não começará com mil megawatts. Começará com a primeira turbina que nos ensinar a construir as próximas.
Rodolfo Gonçalves escreve quinzenalmente no BE News, com seus artigos sendo publicados às quartas-feiras.