Qual é mais cruel …
O Estado e o mercado podem ser igualmente cruéis, transformando seres humanos em peças manipuláveis e descartáveis.
… o Estado ou o mercado?
Há quem critique o papel do Estado e quem odeie o mercado, entendido como iniciativa privada ou capitalismo.
Historicamente, ambos têm usado meios semelhantes para buscar seus objetivos. Isso também vale para a disputa entre regimes de esquerda e direita, democráticos ou autoritários. Há extremos dos dois lados.
O objetivo de seus atores é, em tese, resolver problemas e, prioritariamente, perpetuar-se na liderança. Mas os métodos utilizados nem sempre consideram os seres humanos sujeitos às suas crenças e decisões.
Já houve regimes políticos que usaram métodos desumanos para combater a fome ou impor suas ideologias. O “Holodomor”, na Ucrânia, e os expurgos e “gulags” dos tempos de Stálin; o “Holocausto Judeu” e o massacre de outras pessoas consideradas de “raças inferiores”, pelo nazismo de Hitler; o “Genocídio Armênio”, perpetrado pelo Império Otomano; o “Holocausto do Congo”, nos tempos do Rei Leopoldo II, da Bélgica; O “Holocausto da Namíbia”, levado a cabo pelo então Império Alemão; o “Genocídio em Ruanda”; os extermínios liderados por Pol Pot, no Camboja; as perseguições e a “Grande Fome”, nos tempos de Mao Tsé-Tung, na China.
Voltando no tempo, houve o assassinato de primogênitos de hebreus, por ordem do faraó Seti I, repetido por Herodes, tempos depois; e o flagelo na invasão mongol, comandada por Gengis Khan. São exemplos dessas “soluções” radicais, comuns em ditaduras.
Todos vitimaram milhões de seres humanos!
As novas gerações deveriam conhecer a história e não narrativas oportunistas, para evitarem a repetição desses crimes contra a humanidade. Infelizmente, já ouvi estudantes de universidades públicas e até seus professores defenderem o extermínio de quem não comungue suas ideologias com uma “boa bala” num “paredón”.
Problemas complexos demandam soluções complexas, pois a falta de ponderação racional sobre todas as variáveis e fatores influentes tende a gerar mais problemas do que soluções.
Quanto menos inteligentes e mais ambiciosos são os líderes públicos e privados, maior o risco de decisões radicais e temerárias, com amplas e nefastas consequências, algumas universais.
A educação de boa qualidade não inclui doutrinação fanatizante, pois isso tolhe a capacidade de discernimento do ser humano, atualmente denominada “imunização cognitiva”.
A imposição de leituras “autorizadas” normalmente implica proibição e até destruição de outras fontes. Idiotização, modismos locais ou importados e alienação da população, no melhor estilo “pão e circo”, também são características de ditaduras de direita e esquerda, e de algumas empresas e religiões. É assim que criam seus “rebanhos” ou fiéis consumidores apenas do que é oferecido, sem opções.
Outros recursos utilizados são o patrulhamento ideológico e imposição de regras para ascensão pessoal.
Estado e mercado também usam recursos similares.
Revoluções são incentivadas para que os litigantes comprem armas e os conflitos contínuos gerem dependência econômica externa. Corrupção de líderes também faz parte desse modus operandi.
Há investidores que, em nome do lucro, desestabilizam a economia de países, provocam graves problemas sociais e, ao mesmo tempo, financiam ativistas radicais e movimentos populares, camuflando seus reais intentos.
Estados e corporações econômicas dividem o mundo segundo seus interesses, não se importando com as consequências de seus atos, pregando uma globalização que, em verdade, é uma desculpa para desconsiderarem a soberania de nações. As disputas geopolíticas e as guerras atuais são exemplos da fragilidade da paz no mundo.
Então, quem é mais cruel: o Estado ou o mercado?
Um quer submissão e obediência, enquanto outro quer consumidores compulsivos, recursos naturais sem restrições e dependência tecnológica sempiterna.
Às vezes, eles se unem por interesse mútuo, lembrando que, embora conflitos surjam por diversas razões aparentes, historicamente a economia sempre é um dos principais motivos de conflagrações.
Diferenças entre seres humanos existem em vários níveis. A igualdade é uma utopia, e quem tenta impô-la já a nega por princípio, pois se coloca no contexto orwelliano dos “mais iguais do que os outros”.
Quando isso atinge o nível de países, corporações econômicas, ideologias e religiões radicais, um almejando desestabilizar o outro para obter supremacia ou ampliar sua esfera de domínio, os riscos de conflitos em escalada assimétrica são exponenciais.
Nesse sentido, o Estado e o mercado podem ser igualmente cruéis, transformando seres humanos em peças manipuláveis e descartáveis.
Porém, racionalmente e humanisticamente conduzidos, os resultados tendem a gerar benefícios difusos.
Adilson Luiz Gonçalves escreve semanalmente para o Jornal BE News, com seus artigos publicados tradicionalmente na edição de sábado e domingo e, eventualmente, na de quarta-feira.