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João Fortunato

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Quando o CEO é a crise

A exposição pública de um CEO sempre ultrapassa os limites da figura individual. Em empresas modernas, sobretudo nas grandes corporações, o principal executivo acaba se transformando na personificação da própria marca. Seus discursos, posicionamentos, comportamentos e atitudes públicas passam a ser interpretados pelo mercado como reflexos diretos da cultura e dos valores da organização. Por essa razão, quando um CEO se envolve em alguma ocorrência negativa, seja ela jurídica, ética, financeira, moral ou comportamental, a empresa mergulha imediatamente numa grave crise de imagem e reputação. E quanto maior a exposição do executivo, maior tende a ser o impacto institucional.

Nessas situações, um dos erros mais comuns das empresas é agir emocionalmente. O pânico costuma produzir reações precipitadas: notas mal redigidas, negativas agressivas, confrontos com a imprensa, tentativas de silenciamento ou, no extremo oposto, um silêncio absoluto que amplia ainda mais a percepção pública de culpa. Em crises reputacionais envolvendo CEOs, a comunicação não pode ser impulsiva. Ela precisa ser estratégica, coordenada, técnica e profundamente humana.

O primeiro passo é compreender que, na sociedade hiper conectada de hoje, a crise já nasce pública. Não existe mais a possibilidade de “ganhar tempo escondendo informações” como ocorria décadas atrás. Redes sociais, mídia digital, vazamentos internos, influenciadores, inteligência artificial e imprensa tradicional produzem um ecossistema de informação permanente. Quando a empresa demora para se posicionar, terceiros ocupam o espaço narrativo e passam a construir a versão dominante dos fatos. Em comunicação de crise, quem demora para falar normalmente perde o controle da narrativa.

Por isso, a primeira providência deve ser a instalação imediata de um comitê de crise. Esse grupo precisa reunir representantes da presidência, jurídico, compliance, recursos humanos, comunicação corporativa, relações públicas e, dependendo do caso, especialistas externos em reputação e gerenciamento de crise. O objetivo inicial não é defender o CEO, mas compreender integralmente o problema. Antes de qualquer manifestação pública, a empresa precisa saber exatamente o que aconteceu, quais os riscos existentes, quais informações podem surgir e qual o potencial destrutivo da ocorrência.

Outro ponto essencial é separar a figura do CEO da instituição. Muitas empresas fracassam porque confundem proteção institucional com proteção pessoal do executivo. A prioridade da organização deve ser preservar sua credibilidade perante empregados, clientes, acionistas, fornecedores, autoridades e opinião pública. Isso não significa abandonar o CEO precipitadamente, mas compreender que reputações individuais podem ser reconstruídas mais facilmente do que reputações corporativas destruídas.

A comunicação inicial precisa ser objetiva, transparente e responsável. O comunicado deve reconhecer a gravidade da situação, informar que os fatos estão sendo apurados e reafirmar os valores institucionais da empresa. O pior caminho é negar de forma absoluta algo que ainda não foi completamente esclarecido. Em tempos de vazamentos e investigação digital, negativas precipitadas podem se transformar rapidamente em provas de mentira institucional. E a mentira, em comunicação de crise, quase sempre produz danos maiores do que o fato original.

Também é fundamental definir rapidamente quem será o porta-voz da empresa. Dependendo da gravidade do caso, o próprio CEO não deve aparecer publicamente no primeiro momento. Isso ocorre porque ele pode estar emocionalmente abalado, juridicamente vulnerável ou excessivamente associado ao problema. Em muitas situações, o melhor caminho é que outro executivo, preparado tecnicamente, assuma temporariamente a comunicação institucional. O porta-voz precisa transmitir serenidade, domínio das informações, empatia e capacidade de liderança.

A relação com o público interno merece atenção especial. Funcionários inseguros, mal-informados ou revoltados se transformam rapidamente em fontes de vazamentos para a imprensa e redes sociais. O colaborador precisa receber informações claras antes mesmo do mercado externo. Empresas que ignoram seus empregados durante crises geralmente ampliam a desorganização narrativa e perdem credibilidade internamente. Transparência interna reduz rumores, ansiedade e sensação de abandono.

A imprensa também deve ser tratada com profissionalismo. Um erro frequente é enxergar jornalistas como inimigos. Em momentos de crise, a imprensa apenas cumpre seu papel de investigar, questionar e informar. A empresa deve manter canais permanentes de atendimento, responder com agilidade e evitar confrontos emocionais. Hostilidade contra jornalistas costuma produzir cobertura ainda mais agressiva e aprofundar o desgaste reputacional.

Outro aspecto decisivo é o monitoramento permanente das redes sociais. Hoje, uma crise não se desenvolve apenas nos jornais e telejornais. Ela explode em vídeos curtos, memes, hashtags, influenciadores e grupos digitais. Muitas vezes, a percepção pública é moldada mais pela emoção das redes do que pelos fatos concretos. Isso exige acompanhamento em tempo real, análise de sentimento e respostas rápidas para impedir a expansão de desinformação.

Em crises envolvendo CEOs, a dimensão ética ganha enorme importância. A sociedade contemporânea tolera erros operacionais, mas reage de forma extremamente dura a comportamentos percebidos como arrogantes, abusivos ou desumanos. Por isso, pedidos públicos de desculpas, quando sinceros e bem construídos, podem ajudar a reduzir danos. Contudo, desculpas vazias, ensaiadas ou excessivamente jurídicas tendem a gerar efeito contrário. A opinião pública percebe facilmente quando existe apenas uma encenação corporativa.

Dependendo da gravidade da ocorrência, medidas concretas precisam acompanhar a comunicação. Abrir investigação independente, afastar temporariamente o executivo, contratar auditorias externas ou reforçar mecanismos de compliance demonstram que a empresa não está apenas “fazendo discurso”. Em gestão de crise, ações concretas possuem muito mais força do que palavras.

Outro fator relevante é compreender que reputação não se reconstrói imediatamente. Muitas empresas acreditam que uma coletiva de imprensa ou uma campanha institucional resolvem o problema rapidamente. Não resolvem. A recuperação reputacional é lenta, exige coerência e depende de comportamento consistente ao longo do tempo. A opinião pública observa se a empresa realmente aprendeu com a crise ou apenas tentou sobreviver ao escândalo momentâneo.

Por fim, crises envolvendo CEOs revelam muito mais do que erros individuais. Elas expõem cultura organizacional, processos internos, capacidade de liderança e maturidade institucional. Empresas verdadeiramente preparadas entendem que comunicação de crise não começa quando o escândalo explode. Ela começa antes, na construção diária de credibilidade, transparência, governança e relacionamento com seus públicos estratégicos. No mundo atual, reputação é patrimônio corporativo. E patrimônio reputacional pode levar décadas para ser construído, mas apenas algumas horas para ser destruído.

João Fortunato escreve para o BE News semanalmente.

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