Quando o mandato vira espetáculo
A degradação do debate público e o uso da provocação como estratégia política
Dia desses, as redes sociais exibiram cenas inquietantes: vereadores da cidade de São Paulo, identificados com a extrema direita, circulavam pelas dependências da Universidade de São Paulo com um objetivo que parecia evidente, provocar estudantes.
Entre provocações, intimidações e ameaças verbais, buscavam uma reação, de preferência exaltada, que pudesse ser capturada pelas câmeras de celulares empunhados por assessores estrategicamente posicionados. O roteiro era claro: produzir imagens que, posteriormente editadas e despejadas nas redes sociais, servissem para reforçar uma narrativa previamente construída, a de que estudantes seriam agressivos, intolerantes ou violentos.
O mesmo padrão se repetiu durante manifestação realizada no centro histórico de São Paulo, quando estudantes protestavam pacificamente diante da Secretaria da Educação. Mais uma vez, a lógica da provocação pareceu prevalecer sobre qualquer disposição genuína para o diálogo.
Semanas depois, os mesmos parlamentares ocuparam a tribuna da Câmara Municipal para atacar professores em greve, que reivindicavam melhores salários e condições dignas de trabalho. Criticar movimentos grevistas faz parte do jogo democrático. Divergências são legítimas e devem ser expressas livremente. O problema surge quando o dissenso abandona o campo civilizado e descamba para a agressão verbal. Aos gritos, professores foram chamados de “vagabundos”. O episódio provocou reação imediata da oposição, elevou a tensão no plenário e levou à suspensão da sessão diante do risco concreto de confronto físico.
É preciso lembrar o óbvio: vereadores não possuem ingerência sobre a gestão universitária, especialmente quando se trata de uma instituição estadual como a USP. Ainda que houvesse alguma pretensão fiscalizatória em nome do interesse público, ela deveria ser exercida pelos meios institucionais adequados, jamais pela intimidação performática.
O que se vê, ao que tudo indica, é a instrumentalização do mandato como ferramenta de produção de conteúdo para redes sociais. Não conteúdo voltado à fiscalização qualificada, à formulação de políticas públicas ou ao debate de soluções, mas material desenhado para viralizar pelo choque, pela hostilidade e pela exploração do conflito.
Trata-se de uma prática preocupante. A espetacularização da agressividade política produz um efeito de contágio social, normalizando a intolerância e incentivando comportamentos cada vez mais radicalizados no espaço público.
Paradoxalmente, muitos parlamentares costumam exaltar, em discursos solenes, a importância da educação para o desenvolvimento nacional. Na prática, entretanto, poucos se mobilizam de forma concreta para fortalecer o ensino público, valorizar seus profissionais ou enfrentar as carências estruturais das redes educacionais.
Se o sistema educacional brasileiro resiste, isso se deve, em grande medida, ao esforço diário de professores que, apesar da precariedade, seguem formando cidadãos e preparando profissionais. São eles que constroem, silenciosamente, o alicerce de qualquer projeto sério de país.
Por isso, é inadmissível que agentes públicos utilizem a tribuna para desqualificar justamente a categoria responsável pela formação de todas as demais.
Causa perplexidade, igualmente, a tímida reação institucional diante de episódios dessa natureza. Apartar uma quase agressão física é necessário; insuficiente, porém, quando a própria degradação do ambiente político exige resposta mais firme.

João Fortunato escreve para o BE News semanalmente.