Quando sustentabilidade passa a fazer parte da operação
No caso da água, o caminho é objetivo: consumir com responsabilidade, tratar corretamente e reutilizar sempre que possível. Não existe uma única solução para todos os usos, mas existe a possibilidade de avaliar continuamente onde podemos fazer melhor.
Em uma operação portuária, a água está presente em atividades que fazem parte da rotina. Sanitários, limpeza, veículos, estruturas administrativas. São usos que parecem pequenos quando observados separadamente, mas representam um volume significativo ao longo do tempo.
Por essa razão, a gestão da água precisa estar presente nas decisões da operação. No Porto Itapoá, temos investido em tratamento, reúso e tecnologia para reduzir o consumo de água potável e aproveitar melhor os recursos disponíveis.
Desde a inauguração da III fase de expansão, em janeiro de 2024, temos reutilizado cerca de 1 milhão de litros de água por ano. O resultado vem da Estação de Reuso de Água, que utiliza tecnologia de membranas e tem capacidade para tratar até 10 mil litros por dia.
A água tratada é destinada a atividades como abastecimento de sanitários, lavagem de veículos e gestão de resíduos. Sempre que uma atividade não exige água potável, avaliamos a possibilidade de utilizar água tratada. Parece simples, mas exige estrutura, controle e acompanhamento.
Esse cuidado ganha importância conforme a operação cresce. Uma expansão aumenta a capacidade do terminal, mas também amplia o uso de recursos. Precisamos considerar os dois movimentos ao mesmo tempo: crescer e encontrar formas mais eficientes de operar.
O tema do Dia Marítimo Mundial ajuda a colocar essa discussão em perspectiva. Em 2026 e 2027, a Organização Marítima Internacional (IMO) escolheu “From Policy to Practice: Powering Maritime Excellence”, destacando a necessidade de transformar compromissos em ações concretas.
Essa ideia faz sentido para a sustentabilidade portuária. Metas e políticas são importantes, mas precisam chegar à operação. No caso da água, isso significa medir o consumo, tratar os efluentes, reduzir desperdícios e ampliar o reúso quando houver viabilidade técnica.
O Porto Itapoá mantém um sistema de tratamento de efluentes desde o início das operações. Em 2022, essa estrutura recebeu uma atualização com tecnologia de membranas biorreativas. Hoje, são tratados, em média, 20 mil litros de efluentes por dia, provenientes dos sanitários, refeitório e cozinha do prédio administrativo. A capacidade instalada supera 70 mil litros diários.
A água resultante do tratamento já apresenta qualidade adequada para reúso. Estamos avaliando novas aplicações, como a limpeza de áreas e equipamentos, o que pode ampliar o aproveitamento desse recurso.
Segundo o Relatório de Sustentabilidade 2024 do Porto Itapoá, o consumo de água naquele ano foi de 11,8 megalitros. O volume reutilizado correspondeu a 1% do total consumido, com crescimento de 237% em relação ao ano anterior.
Esse resultado também mostra um desafio. À medida que uma operação aumenta de escala, as soluções ambientais precisam evoluir. Não basta instalar um sistema e considerar o assunto encerrado. É necessário acompanhar resultados, identificar oportunidades e investir quando houver espaço para melhorar.
Sustentabilidade, na prática, está ligada a esse processo. Uma nova estrutura precisa considerar seu consumo de recursos. Um processo pode ser revisado para evitar desperdícios. Uma tecnologia pode permitir que um recurso seja utilizado novamente. São decisões diferentes que, juntas, podem reduzir o impacto da operação.
No Porto Itapoá, esse cuidado também está relacionado ao lugar onde estamos. A operação está inserida na Baía da Babitonga, um ambiente de grande importância ambiental e econômica para Santa Catarina. Essa relação exige responsabilidade permanente e atenção aos efeitos da atividade portuária.
Os 2 milhões de litros de água reutilizados são um exemplo concreto dessa abordagem. O número representa um resultado que pode ser medido e ampliado. Mostra também que investimentos em infraestrutura ambiental podem fazer parte da rotina de um terminal de grande escala.
O setor portuário tem uma função essencial para a economia. Por seus terminais passam cargas que abastecem indústrias, conectam mercados e movimentam o comércio exterior. Essa responsabilidade precisa ser acompanhada de uma gestão cuidadosa dos recursos naturais.
No caso da água, o caminho é objetivo: consumir com responsabilidade, tratar corretamente e reutilizar sempre que possível. Não existe uma única solução para todos os usos, mas existe a possibilidade de avaliar continuamente onde podemos fazer melhor.
Essa visão também orienta o futuro do Porto Itapoá. Queremos ampliar nossa capacidade e eficiência, mantendo o cuidado com os recursos e com o ambiente em que estamos inseridos. Os resultados alcançados até aqui mostram que esse trabalho pode gerar ganhos concretos.
Os 2 milhões de litros reutilizados são uma marca importante e uma referência para os próximos passos. A gestão da água continua a cada nova decisão de investimento, melhoria de processo e oportunidade de reaproveitamento.
Para mim, esse é um caminho para construir uma atividade portuária mais responsável: transformar boas práticas em parte da operação e fazer com que tecnologia, eficiência e cuidado ambiental avancem juntos.
Ricardo Arten. CEO do Porto Itapoá.