Quanto vale a sua atenção no ambiente digital?
A lógica algorítmica não distingue aprovação de reprovação. Comentários críticos, compartilhamentos indignados ou o simples tempo de permanência diante de um vídeo constituem sinais inequívocos de relevância para o sistema. Consequentemente, conteúdos polêmicos — ainda que rejeitados pela maioria dos usuários — ascendem rapidamente, reforçando a presença digital de seus autores.
No atual ecossistema de comunicação digital, a atenção tornou-se o ativo central. Plataformas digitais operam sobre modelos algorítmicos que transformam qualquer interação — positiva ou negativa — em combustível para ampliar o alcance de conteúdos. Esse mecanismo explica por que determinadas publicações, mesmo quando socialmente reprovadas, alcançam níveis expressivos de visibilidade.
A lógica algorítmica não distingue aprovação de reprovação. Comentários críticos, compartilhamentos indignados ou o simples tempo de permanência diante de um vídeo constituem sinais inequívocos de relevância para o sistema. Consequentemente, conteúdos polêmicos — ainda que rejeitados pela maioria dos usuários — ascendem rapidamente, reforçando a presença digital de seus autores. Trata-se do chamado “efeito reputacional”, capaz de impulsionar o desempenho futuro de um perfil, atrair seguidores, ampliar sua credibilidade interna e potencializar eventual monetização.
Esse fenômeno não se limita ao universo das redes sociais pessoais. Afeta empresas, marcas e instituições — especialmente em setores altamente sensíveis à reputação, como logística, comércio internacional e operações industriais. Via de regra, uma manifestação negativa de grande alcance pode gerar repercussões reais sobre contratos, operações e valor de marca. Paradoxalmente, o engajamento movido pela indignação contribui para ampliar exatamente aquilo que se pretende combater.
Assim, quando alguém interage positivamente com um conteúdo compartilhado em uma rede social, esse indivíduo está impulsionando aquele material – e, consequentemente, seu autor. E quando ele interage negativamente também. O elemento-chave do impulsionamento é o feedback, seja ele qual for.
É uma lógica pouco convencional, mas que traduz exatamente uma das características que tornam o espaço cibernético tão peculiar, tão diferente do meio físico. E se as interações ocorrem cada vez mais nesse ambiente, se nos valemos cada vez mais da internet em nosso cotidiano, é importante que saibamos nos portar e conviver adequadamente nessa grande comunidade paralela. Daí a importância da educação digital e o porquê de se discutir a criação de regras próprias para o ciberespaço.
Criadores de conteúdo exploram esse ciclo algorítmico, produzindo deliberadamente materiais provocativos, apelativos ou até moralmente questionáveis, com o objetivo de atrair atenção. Os impactos éticos são evidentes: expõem terceiros, transformam a intimidade em ativo de visibilidade e podem ampliar riscos jurídicos e reputacionais.
Há, porém, um dado fundamental, mas pouco compreendido: o silêncio é o antídoto mais eficaz contra a amplificação do conteúdo indesejado. Quando uma publicação recebe baixa interação, o algoritmo a interpreta como irrelevante. O perfil perde força — fenômeno denominado shadow flattening, que não configura punição, mas resultado estatístico natural do modelo de distribuição de alcance.
O método não é novo e, embora pouco adotado pela população, a chamada “estratégia do silenciamento” já foi incorporada, inclusive, por políticas públicas. Tome-se como exemplo o caso do atentado à mesquita de Christchurch, em 2019, ocasião em que o governo da Nova Zelândia adotou a diretriz de não mencionar o nome do autor da barbárie, justamente para evitar sua transformação em símbolo, negando-lhe a notoriedade que ele buscava. A então primeira-ministra Jacinda Ardern sintetizou a lógica: “quando eu citá-lo, ele não terá nome … aqui na Nova Zelândia não lhe daremos isso.” O objetivo era impedir a criação da chamada “celebridade criminosa”.
No ambiente corporativo, esse entendimento precisa ser incorporado à governança digital e às práticas de gestão de crises. Em muitas situações, reagir impulsivamente a conteúdos negativos pode produzir o efeito inverso ao desejado. A avaliação estratégica — incluindo critérios de risco, impacto regulatório e repercussão pública — é essencial para definir quando intervir e quando priorizar a conduta de não amplificação.
A educação digital, portanto, torna-se indispensável. Assim como aprendemos a ocupar espaços físicos com responsabilidade, precisamos compreender as dinâmicas que regem o espaço cibernético. Para profissionais, gestores e empresas, isso significa implementar políticas internas, treinar equipes e adotar práticas que reduzam vulnerabilidades.
Se a intenção é demonstrar reprovação ou estancar a propagação de determinado conteúdo, o caminho mais eficiente continua sendo o mais simples: não interagir. Denunciar quando couber, mas não comentar, não compartilhar, não salvar e não gerar qualquer sinal algorítmico que possa impulsioná-lo. No cenário atual, em que a atenção se converte em valor, negar atenção é negar combustível.
Roberta Lopes da Cruz Antonio escreve quinzenalmente para o BE News. Seus textos são publicados às quartas-feiras.