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Charles M. Sennott.

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Relembrando o 11 de Setembro como uma notícia local

À medida que o noticiário local se torna cada vez mais escasso nos Estados Unidos — com o surgimento sucessivo de “desertos de notícias” —, todos nós devemos nos preocupar. Esse declínio do jornalismo local é um fenômeno global que vem corroendo as democracias ao redor do mundo e minando a própria noção de verdade.

Vinte e cinco anos atrás, na manhã de 11 de setembro de 2001, eu estava descarregando um caminhão de mudança em Londres. Havia acabado de concluir uma missão de cinco anos como chefe da sucursal do The Boston Globe no Oriente Médio, em meio à violência da Intifada e, particularmente, aos atentados a bomba em ônibus que atingiam alvos cada vez mais próximos de nós. Eu havia chegado a Londres para assumir um novo cargo: chefe da sucursal do Globe na Europa.

Naquela manhã fatídica, ainda não tínhamos tido tempo de instalar a televisão, contratar um pacote de TV a cabo ou configurar a internet; no entanto, enquanto desempacotava as coisas, mantinha ligado ao fundo o meu fiel rádio de ondas curtas da Sony. Eu ouvia a BBC e passava pouco das 13h46 (horário de Greenwich) quando a programação regular da Radio 4 foi interrompida por uma notícia urgente. O primeiro avião acabara de atingir a Torre Norte do World Trade Center. Dezessete minutos depois, o segundo avião sequestrado colidiu contra o prédio. Naquele momento, o mundo mudou. Os Estados Unidos estavam sob ataque e logo entrariam em guerra.

Oito anos antes, eu trabalhava como repórter de rua no New York Daily News e cobria o primeiro ataque ao World Trade Center — uma tentativa fracassada de derrubar as torres com um caminhão-bomba, mas que serviu como um esboço rudimentar para o 11 de Setembro. Foi graças ao meu trabalho de reportagem no Daily News que consegui a vaga para cobrir o Oriente Médio pelo Boston Globe.

Assim que a notícia do 11 de Setembro surgiu, comecei a usar meu celular para contatar fontes em todo o Oriente Médio, confirmando o que se tornava cada vez mais evidente: a visão monstruosa e apocalíptica apresentada na declaração de guerra santa de Osama bin Laden contra os Estados Unidos, feita em 1998, estava inegavelmente em curso. Comecei a escrever tudo o que sabia, acumulado ao longo de oito anos de reportagem que antecederam aquele momento; a história local do atentado a bomba de 1993 havia se transformado na história global do ataque aos Estados Unidos. Percebi que, dos quatro aviões sequestrados, dois haviam partido da minha cidade natal, Boston. Portanto, para o The Boston Globe, o 11 de Setembro também era, claramente, uma história local. Eu conhecia vários dos passageiros daqueles voos.

Em 19 de setembro, desembarquei no Tajiquistão e, em questão de um dia, já estava a caminho do Afeganistão, onde o Talibã ainda estava no poder e a Al-Qaeda operava abertamente. Entramos no país a bordo de um velho avião de carga pertencente à Aliança do Norte, a facção de combatentes alinhada aos EUA na derrubada do Talibã. Cobri essa história pelo Globe durante os cinco anos seguintes.

Um quarto de século após o 11 de Setembro, reflito sobre a cobertura de notícias internacionais feita pelos veículos de imprensa americanos naquela época e hoje. Pode-se afirmar que o compromisso assumido pelo Boston Globe com a nossa cobertura parece extraordinário nos dias de hoje; também é seguro dizer que não há muitos jornais do porte do Globe oferecendo aos leitores esse tipo de cobertura aprofundada sobre o mundo. O Globe ainda realiza algumas das melhores reportagens investigativas dos EUA, mas já não mantém uma editoria internacional.

Em 1993, no New York Daily News, concentrávamos nossa cobertura policial nos suspeitos e nas mesquitas militantes de Nova Jersey e do Brooklyn, onde eles haviam surgido. No entanto, o editor da seção local, Bill Boyle, enviou-me para cobrir as origens dos suspeitos do atentado — uma série de reportagens que me levou ao Egito, ao Sudão, à Cisjordânia e ao Paquistão para investigar as raízes da hostilidade no movimento islamista incipiente que mais tarde ficaria conhecido como Al-Qaeda. Hoje, o Daily News pertence a uma empresa de capital de risco que espremeu até o último centavo do jornal, deixando-o por um fio: com muito menos repórteres e recursos insuficientes até mesmo para cobrir os distritos periféricos da cidade — que dirá produzir reportagens aprofundadas sobre o Oriente Médio. A série de reportagens do Daily News de 1993 intitulava-se “Seeds of Terror” (Sementes do Terror) — uma abordagem que se revelou premonitória.

Esse tipo de reportagem aprofundada é cada vez mais raro hoje em dia. Ainda existem grandes organizações de notícias americanas que realizam e financiam reportagens ambiciosas in loco, como o New York Times, o Washington Post, a AP, a CNN e a NPR. Há também veículos internacionais, como a BBC, o Guardian e muitos outros, cujos jornalistas corajosos viajam para países em guerra, como a Ucrânia e o Irã.

No entanto, a ideia de um veículo de notícias de âmbito mais local cobrindo uma história global é praticamente inexistente. Por que isso acontece? Nunca informações confiáveis ​​foram tão valiosas para os leitores. Precisamos de olhos e ouvidos no local dos acontecimentos; contudo, temos cada vez menos repórteres na linha de frente cobrindo as grandes histórias e encontrando ângulos locais que interessem ao seu público de origem.

Por que isso importa? Acredito que atrair leitores e espectadores para a história por meio de abordagens que dialoguem diretamente com suas preocupações pode nos tornar não apenas mais bem informados, mas também mais conectados ao mundo.

É por isso que escrevo este artigo como parte do Dia Mundial do Jornalismo (World News Day), celebrado oficialmente em 28 de setembro. Mais de mil redações de mais de 100 países marcarão a data em conjunto, e a GroundTruth tem orgulho de estar entre elas. A escolha da data não é por acaso: 28 de setembro é também o Dia Internacional do Acesso Universal à Informação, instituído pela Unesco. Como ressaltam os organizadores, não se trata de uma coincidência; eles acreditam que o nosso direito de saber só se concretiza se houver alguém empenhado em tornar a informação acessível, verificada e verdadeira.

Essa missão só prospera em um cenário robusto de jornalismo local. À medida que o noticiário local se torna cada vez mais escasso nos Estados Unidos — com o surgimento sucessivo de “desertos de notícias” —, todos nós devemos nos preocupar. Esse declínio do jornalismo local é um fenômeno global que vem corroendo as democracias ao redor do mundo e minando a própria noção de verdade.

Temos muito trabalho pela frente para encontrar uma maneira de restaurar a ideia de verdade, e esse trabalho começa bem perto de nós. Começa pela revitalização do jornalismo local.

Charles M. Sennott. Correspondente premiado, autor de best-sellers e editor. Fundador do The GroundTruth Project e, atualmente, dedicado às suas próprias reportagens e à produção de conteúdo de referência por meio de sua newsletter da GroundTruth no Substack.

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