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Adilson Luiz Gonçalves

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Ressaca de ressacas

As ressacas têm sido um problema recorrente em Santos (SP) e região.

Ao menos desde 2005, seus efeitos têm sido mais sensíveis, prejudicando a infraestrutura e a mobilidade urbana e o patrimônio privado, sem falar em sua influência no processo erosivo na orla da Ponta da Praia.

Em julho de 2025, a história se repetiu e, mais uma vez, se mantém uma ressaca das ressacas, dores de cabeça recorrentes.

A Defesa Civil dispõe de mecanismos de alerta, sendo um deles disponibilizado pelo Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH), da Universidade Santa Cecília. Com essas informações relativamente antecipadas, é possível à CET-Santos adotar medidas paliativas de trânsito, e aos moradores da orla se precaverem.

Há vários anos, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Unicamp vêm estudando e propondo soluções para o problema, que também afeta o canal de acesso ao Porto de Santos. Já se fala em implantação de uma guia corrente na entrada do canal ao menos desde 2010.

Em 2016, a USP estudou quatro alternativas de implantação de estruturas artificiais de proteção costeira (molhes) entre a Ponta da Praia e o Canal 4, considerando dois distanciamentos em relação à faixa de areia, ora segmentados, ora contínuos. No entanto, esse estudo foi parcial, considerando apenas o efeito de cada um sobre o perfil praial. Além da necessidade e outros estudos não menos importantes, a execução de qualquer dessas obras dependeria de licenciamentos ambientais complexos e elevados custos de implantação.

Quando perguntados sobre qual seria a solução mais rápida para o enfrentamento das ressacas, a sugestão foi de recomposição do perfil anterior à urbanização da orla, ou a implantação de dunas sobre os jardins da praia, nas regiões mais susceptíveis. Ou seja, solução remotíssima, senão inaceitável.

Aliás, nem quem respondeu levou essa opção a sério, reiterando que o ideal seria a solução de obra artificial de proteção costeira.

Na época, cheguei a questionar os pesquisadores da USP se não seria mais efetivo, em vez de fazer a obra de proteção costeira próxima à orla, fazê-la na entrada da baía, considerando o ângulo de incidência das ondas. 

A ideia seria dissipar efeitos climáticos extremos já na entrada da baía, implantando um molhe (linha amarela tracejada) a partir do local indicado na figura a seguir.

Obviamente, sua correta localização e efetividade dependeriam do ângulo de incidência mais frequente de ondas, além de estudos hidrodinâmicos, geotécnicos e ambientais, sem falar na logística de execução e da escolha do método construtivo mais adequado, que pode variar do enrocamento, com ou sem capeamento com tetrápodes ou outros elementos de concreto, até estruturas de concreto armado, moldadas “in loco” ou pré-moldadas, nesse caso lançadas de forma similar à que será utilizada para assentar os módulos do túnel que ligará Santos a Guarujá. 

A imagem foi extraída do Google Earth, incluindo parte da poligonal do Porto Organizado de Santos (cor vermelha), o que mostra que, em tese, não haveria interferência no acesso ao porto, nas áreas de fundeio ou no Polígono de Disposição Oceânica (PDO).

Não recebi um “não” rotundo, nem um “vamos modelar, para testar”.

Foi compreensível, pois modelos matemáticos são complexos e modelos reduzidos são caros. Assim, a ideia ficou adormecida para mim, embora aparentemente natimorta para quem sugeri.

Bem, o objetivo das obras artificiais de proteção costeira é dissipar a energia das ondas. Um exemplo natural é o dos arrecifes existentes em praias nordestinas. No entanto, sua implementação exige estudos complexos, para evitar que a solução de um problema gere ou agrave outros. Não faltam exemplos.

Não houve evolução dos estudos da USP, por falta de recursos financeiros por parte da então Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp, nome anterior da Autoridade Portuária de Santos), que os financiou parcialmente. A Prefeitura de Santos também não dispunha de recursos para um projeto e obra de tal monta.

Em 2017, a Unicamp procurou a Prefeitura de Santos propondo um projeto-piloto de proteção costeira artificial na Ponta da Praia, utilizando “geobags”, espécie de sacos de material sintético, preenchidos com areia da própria orla de Santos.

O projeto-piloto foi implantado em 2018 e, desde então, vem sendo monitorado por pesquisadores da Unicamp.

Afora o problema da erosão praial, a infraestrutura da Av. Rei Pelé, na Ponta da Praia, apesar de recentemente alteada, continua particularmente sensível aos efeitos climáticos extremos, resultando em danos frequentes à murada e à calçada, além de interdição ao tráfego de veículos.

A Autoridade Portuária de Santos, por conta de um termo de ajuste de conduta (TAC) firmado com o Ministério Público Federal, assumiu o compromisso de ampliar e manter o projeto-piloto da Ponta da Praia. Os estudos pertinentes estão em curso.

Além disso, já está em fase de preparação a concessão do canal de acesso ao Porto de Santos, sendo que um dos compromissos da futura concessionária é estudar a implantação de um guia-corrente em sua embocadura e o possível aprofundamento até -18m.

O que essas ações e estudos têm em comum é a preocupação em conciliar os efeitos almejados com baixo impacto paisagístico, com as estruturas resultantes ficando, tanto quanto possível, imersas.

Essas soluções protegerão totalmente as áreas afetadas pela incidência cada vez mais frequente e intensa de ressacas?

A proposta de um molhe na entrada da Baía de Santos, sem ter tanto a preocupação da estrutura ficar acima do nível do mar, poderia resolver o problema das ressacas a uma distância maior da orla e da infraestrutura urbana?

Só um estudo aprofundado poderá informar sua efetividade, ou se não passa de um delírio de um engenheiro em fim de carreira.

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