Revolução logística: ferrovias, portos e hidrovias para transformar o custo Brasil
Por Anderson Abreu
Executivo sênior com atuação nos setores de logística, mineração, infraestrutura e indústria
Uma composição de 120 vagões cruza o interior de Minas Gerais em direção ao Porto de Tubarão, no Espírito Santo. Cada vagão substitui, em média, três caminhões, o que reduz o consumo de combustível e as emissões. Essa cena, cada vez mais presente nos principais corredores, evidencia o potencial da intermodalidade (integração entre modais) para diminuir custos e ampliar a competitividade. O passo seguinte é avançar à multimodalidade, quando um único operador responde por toda a cadeia de transporte, elevando a eficiência e a segurança jurídica.
Em 2024, concessões de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias somaram mais de R$ 200 bilhões, segundo o Ministério dos Transportes. A ministra Simone Tebet reforça a necessidade de diversificar a matriz. Ainda assim, o modal rodoviário, responsável por 62%, encarece operações, enquanto ferrovias e hidrovias ganham espaço pela eficiência e pelo menor impacto ambiental.
Com esse ciclo de investimentos e uma agenda ESG consistente, o Brasil começa a converter gargalos históricos em corredores de desenvolvimento. Não se trata apenas de escoar a produção agrícola e mineral: a mesma composição que parte carregada de grãos retorna com fertilizantes importados, configurando a “logística perfeita” e fortalecendo o Arco Norte como nova fronteira logística nacional.
O gargalo que nos impede de competir
O peso da logística segue como entrave central à competitividade. Países da OCDE gastam entre 6% e 7% do PIB; os Estados Unidos, cerca de 8%; o Brasil, 13%, segundo a Infra S.A. A dependência rodoviária explica boa parte desse diferencial.
Três obstáculos estruturais alimentam o Custo Logístico Total:
- Rodovias: caminhões consomem até seis vezes mais diesel por mil TKU que ferrovias e emitem cerca de 85% mais CO₂.
- Acessos portuários: ligações ferroviárias e viárias insuficientes elevam custos e reduzem confiabilidade.
- Dragagem: a falta de aprofundamento limita a atracação de grandes navios e encarece o frete.
Mesmo assim, as ferrovias, com 21% da matriz, viabilizam 25% do valor da balança comercial, segundo a ANTF. “É um ativo estratégico: o frete ferroviário brasileiro, próximo a US$ 1,90 por TKU, indica competitividade global”, afirma a entidade.
Obras Estratégicas para o Futuro da Logística
O Plano Nacional de Ferrovias (2025) prevê R$ 138,6 bilhões em investimentos, distribuídos em 15 ativos e cerca de 19 mil km, organizados em quatro eixos regionais: Sudeste (R$ 46,9 bi), Nordeste (R$ 33,1 bi), Norte (R$ 30 bi) e Oeste (R$ 28,6 bi).
Projetos estruturantes incluem:
- Ferrovia Norte-Sul: 2.184 km em operação (total previsto 4.155 km), espinha dorsal nacional.
- Transnordestina: ~1.200 km ligando Piauí e Pernambuco ao Porto do Pecém, decisiva para o semiárido.
- FICO (Ferrovia de Integração Centro-Oeste): 1.641 km projetados, conectando Mato Grosso à Norte-Sul; trecho Mara Rosa–Lucas do Rio Verde em construção via investimento cruzado.
- FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste): 537 km em implantação entre Ilhéus e Caetité (BA), com potencial para rota bioceânica até a Ásia.
- Corredor Minas–Bahia (ligado à FCA): em fase de definição contratual no âmbito do PNF, que pode envolver renovação ou leilão de trechos, com investimentos obrigatórios e metas de revitalização.
Sustentabilidade e governança
Ferrovias e hidrovias são pilares da agenda ESG. O modal ferroviário emite 18 gCO₂/TKU, bem abaixo dos 112 gCO₂/TKU do rodoviário; e a malha hidroviária, com mais de 20 mil km, contribui diretamente para a descarbonização.
A derrocagem do Pedral do Lourenço, na hidrovia Tocantins, mostra que técnicas avançadas podem coexistir com sustentabilidade quando há planejamento e coordenação.
No financiamento, debêntures incentivadas (Lei 12.431/2011), fundos setoriais e green bonds mobilizam capital de longo prazo; aportes públicos de 20% a 30% reforçam a segurança jurídica e atraem o investidor privado.
Consolidar um fórum federativo permanente entre União, estados e setor privado é decisivo para alinhar projetos ao Plano Nacional de Logística 2050, garantir integração e evitar desperdícios — sobretudo na inclusão econômica do Norte e Nordeste.
Conclusão
Transformar a logística brasileira é um compromisso coletivo. Com coordenação, previsibilidade regulatória e visão de longo prazo, é possível reduzir custos, ampliar a eficiência e converter gargalos históricos em corredores de desenvolvimento com fluxos de ida e de volta. A revolução logística deixou de ser um desejo; tornou-se necessidade para que o Brasil realize seu potencial econômico e social.