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Beatrice de Toledo Dupuy

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Riscos globais: o curto prazo em crise e o longo prazo sob ameaça ambiental

No contexto do comércio exterior, dos portos e da logística brasileira, a leitura desses riscos ganha ainda mais relevância. Trata-se de um setor altamente exposto a choques geopolíticos, eventos climáticos extremos, interrupções de cadeias globais e mudanças regulatórias.

O Fórum Econômico Mundial divulgou, neste início de ano, seu tradicional ranking de riscos de curto e longo prazo, um relatório que reúne a percepção de centenas de especialistas de governos, do setor privado, da academia, da ciência e da sociedade civil sobre as principais ameaças globais. Mais do que uma lista de preocupações, o estudo oferece uma leitura estratégica sobre como o mundo enxerga seus desafios imediatos e estruturais — e sobre os custos crescentes de adiar decisões que já se mostram inevitáveis.

No curto prazo (dois anos), os riscos percebidos como mais severos estão fortemente associados a fatores geopolíticos, sociais e tecnológicos. Confrontos geoeconômicos, disputas comerciais, tensões entre países e a fragmentação das cadeias globais de valor compõem um ambiente de instabilidade que afeta diretamente o comércio internacional, os investimentos e a previsibilidade dos mercados. A esse cenário somam-se a desinformação e a polarização social, que fragilizam instituições, corroem a confiança pública e dificultam a construção de consensos em sociedades cada vez mais divididas.

Ainda nesse horizonte de dois anos, surgem riscos como conflitos armados entre Estados, insegurança cibernética, desigualdade social, erosão de direitos civis e fluxos migratórios involuntários. Trata-se de um mundo reagindo a crises simultâneas, marcado por elevada volatilidade política, tensões sociais persistentes e avanços tecnológicos mais rápidos do que a capacidade de regulação. Para empresas e setores estratégicos — como infraestrutura, logística, portos e comércio exterior — esses riscos se traduzem em interrupções operacionais, aumento de custos, incertezas regulatórias, maior exposição reputacional e desafios crescentes de compliance.

Quando o olhar se desloca para o longo prazo (dez anos), o ranking revela uma mudança profunda de perspectiva. As ameaças mais severas deixam de ser predominantemente políticas ou tecnológicas e passam a ser ambientais. Eventos climáticos extremos lideram a lista, seguidos pela perda acelerada de biodiversidade, pelo colapso de ecossistemas e por mudanças críticas nos sistemas naturais do planeta. A escassez de recursos naturais completa esse quadro, evidenciando a interdependência entre clima, economia, segurança alimentar, disponibilidade de água e estabilidade social.

Essa transição expõe um paradoxo relevante. Embora os riscos ambientais já estejam presentes no cotidiano de empresas e governos, eles ainda competem com crises imediatas por atenção, investimentos e prioridade política. No entanto, seus efeitos são cumulativos, sistêmicos e de longo alcance. Infraestruturas expostas a eventos climáticos extremos, cadeias logísticas vulneráveis, impactos sobre a produção agrícola, aumento de custos com seguros e disputas por recursos tendem a se intensificar caso decisões estruturais continuem sendo postergadas.

Alguns riscos atravessam tanto o curto quanto o longo prazo. A desinformação permanece como um fator corrosivo contínuo, potencializado pelo avanço tecnológico e pelo uso inadequado de plataformas digitais e de inteligência artificial. A desigualdade segue como um risco persistente, ampliando tensões sociais e vulnerabilidades econômicas. A insegurança cibernética, por sua vez, consolida-se como uma ameaça transversal, afetando desde serviços essenciais até operações críticas de empresas, portos, cadeias logísticas e sistemas governamentais.

No contexto do comércio exterior, dos portos e da logística brasileira, a leitura desses riscos ganha ainda mais relevância. Trata-se de um setor altamente exposto a choques geopolíticos, eventos climáticos extremos, interrupções de cadeias globais e mudanças regulatórias. Portos, corredores logísticos e infraestruturas críticas concentram riscos físicos, operacionais e reputacionais que impactam diretamente a competitividade do país, os custos logísticos e a previsibilidade das exportações e importações.

Nesse cenário, sustentabilidade, governança e gestão de riscos deixam de ser temas acessórios e passam a integrar o centro da estratégia do setor. Investimentos em resiliência climática, digitalização, segurança cibernética, diversidade na tomada de decisão e planejamento de longo prazo tornam-se fatores-chave para garantir eficiência operacional, atração de capital e inserção competitiva do Brasil no comércio global. O relatório do Fórum Econômico Mundial reforça uma mensagem inequívoca: os portos e a logística que conseguirem antecipar riscos, adaptar-se às transformações e alinhar desempenho econômico à responsabilidade socioambiental estarão mais preparados para enfrentar a volatilidade global e sustentar o crescimento do comércio exterior brasileiro.

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