Sábios nas janelas
A experiência gera sabedoria, como um farol iluminando o caminho dos impetuosos. Descartar a experiência desses profissionais custa mais caro que mantê-los. No Japão o tempo médio de permanência numa empresa é de 12 anos. Nos Estados Unidos, 4,1 anos.
No Brasil, então, que vem despejando na vida tanta gente sem preparo, vejo no mercado de trabalho uma contradição que parece seguir o ritmo do algoritmo nas telas. O profissional valorizado é o que volta e meia muda de emprego, não o que se entranha na empresa como se sua fosse
A cada idoso que subia ao ônibus, a menina de uns quinze anos levantava do banco junto à janela e oferecia o lugar. Levantou-se várias vezes. Os idosos são cada vez mais, uns vão ao médico, outros visitar os netos, alguns poucos vão trabalhar, e há os que, por não pagarem a passagem, preferem diariamente passear pela cidade ao invés de confinar-se no quarto das lembranças.
Muita gente está no bico do corvo, sempre penso quando me deparo com um idoso de bengala – quando não andador – subindo ao ônibus. E confesso que eu, do grupo dos que vão ao trabalho, festejo que o corvo ainda não me alcançou.
Cada vez mais me deparo com idosos, homens e mulheres no transporte. Estas, em particular, demonstram que saíram do armário de sua vida, tantas as perguntas que fazem aos motoristas sobre o pretendido destino. Agora são turistas na própria cidade que habitaram por décadas.
Alguns homens carregam uma pastinha em que certamente trazem uma conta para pagar ‘no guichê’ do banco. Outros levam um saquinho plástico com a estampa de algum laboratório clínico. Às vezes se utilizam de bengala. Noto sempre o design. Sempre admirei bengalas com cabo de prata, mas destas, pouco há atualmente. Foi-se o tempo em que bengala era utensílio de estilo. Meu avô, como tantos barões do café, servia-se de uma.
Mas não quero falar dos idosos que apanham os ônibus, hoje tantos quanto os jovens que ainda não passaram dos quinze anos. Estima-se que no final da década serão um por um e no futuro três idosos para cada jovem.
Isso mostra que o mundo em breve será ocupado essencialmente por gente longeva e nem sempre gente simplesmente ocupando assentos nos ônibus. Surgiu agora denominação para quem não aceita o termo idoso quando usado pejorativamente. São os NOLT (New Older Living Trend), ativos, produtivos e curiosos. E certamente com muito para ensinar.
As gerações nem sempre se entendem e chega a existir um conflito intergeracional que provoca o etarismo, a aversão aos velhos, entre os quais me incluo. Mas certamente me sinto um NOLT e admiro culturas onde a experiência dos idosos concilia com o furor dos jovens.
Empenhamo-nos muito em criar inúmeras soluções tecnológicas para propiciar dias mais leves. Os jovens pegaram tudo já pronto e muitos demonstram se contentar em dominar as teclas digitais. Há uma queda na procura de cursos técnicos. Pior, há um bug à frente na condução desta sociedade tecnológica.
Não porque começam a faltar calceteiros e mecânicos de bonde, coisas preservadas do passado, mas porque de maneira geral faltarão artesãos, aqueles que fazem arte ao construir as coisas.
Triste nem sempre se aproveitar a sabedoria dos que, num tempo que espero cada vez maior, se encontrarão com o corvo. As empresas em especial deveriam seguir mais um exemplo do Japão. Lá existe o ‘madogiwazoku’, o chamado ‘grupo da janela’.
São antigos colaboradores que, ao atingirem determinada idade, ao invés de serem desligados, são mantidos pelas empresas para ficarem ‘na janela’. Sua presença dá lucro a companhias como Toyota, Sony e Honda. Focados em evitar erros, eles transmitem sua visão e seu conhecimento, e protegem o legado dessas corporações.
A experiência gera sabedoria, como um farol iluminando o caminho dos impetuosos. Descartar a experiência desses profissionais custa mais caro que mantê-los. No Japão o tempo médio de permanência numa empresa é de 12 anos. Nos Estados Unidos, 4,1 anos.
No Brasil, então, que vem despejando na vida tanta gente sem preparo, vejo no mercado de trabalho uma contradição que parece seguir o ritmo do algoritmo nas telas. O profissional valorizado é o que volta e meia muda de emprego, não o que se entranha na empresa como se sua fosse.
Passar o conhecimento como legado é dever civilizatório. Até que, cansado mas com direito a usufruir a vida sem compromissos, sejam NOLT ou idosos combalidos, que se acomodem nas janelas. De uma empresa ou de um ônibus, que, mesmo nestes, essa gente vivida tem o que contar a jovens como aquela menina tão educada e sensível, na contramão do que caminha por aí.