SAIA DO PERSONAGEM.
“A Empresa precisa agir, se quiser fazer valer regras claras de Governança, estabelecendo uma política de tolerância zero para jogos políticos e criando canais de fácil acesso e seguros, para a comunicação desses fatos. Através desses canais deve deixar transparente quais são os comportamentos adequados ou não”
Gostaria que houvesse um bom termo em português, que expressasse o que quero dizer: Seja você mesmo.
Achei algo próximo, o Escapismo. Mas essa palavra, designa a pessoa que “foge” da vida real e se refugia num mundo imaginário ou numa identidade fictícia. Não é o que quero dizer. Falo de alguém que vive sua própria identidade, em seu próprio mundo, mas, sendo diferente de quem realmente é.
Acabei achando uma expressão em inglês, LARPing, derivado de Live Action Role Play, traduzido livremente por “Interpretação de Personagem ao Vivo”.
Literalmente é usada para designar quem participa de um tipo de “jogo” em que as pessoas interpretam personagens na vida real, com roupas, adereços e ações físicas, como se estivessem dentro de uma história. É parecido com um teatro improvisado, mas sem público: os próprios jogadores vivem a narrativa.
No sentido figurado, entretanto, o termo tem sido usado para definir alguém que vive “interpretando um papel” o tempo todo, mesmo fora de um jogo, na vida real. Já há, uma versão aportuguesada para essa expressão, o “verbo” “LARPar”, usada dessa forma: “A influencer está LARPando de revolucionária” (uso esse exemplo de propósito. As Redes Sociais são o cenário perfeito para larpar.).
Perceba que usar “LARP” para descrever comportamentos reais é uma metáfora cultural, não um diagnóstico clínico. Também não significa que a pessoa tem um transtorno. Usualmente o faz para expressar estilo, insegurança, humor ou tentativa de pertencimento.
Se na vida pessoal, larpar parece estranho, na vida corporativa, é desastroso.
Vamos entender, na prática, quem são os larpadores da vida empresarial?
O gerente que finge ser estrategista visionário, mas só repete jargões. O profissional que interpreta o “líder inspirador”, mas evita assumir responsabilidades reais. A pessoa que adota pose de alta performance sem entregar resultados concretos. O colaborador que vive como se fosse um “workaholic”, lotado de sinais externos de produtividade, mas pouco produz de verdade.
É interessante tentar entender as razões que permitem que esse comportamento aconteça no interior das empresas. Minha experiência aponta, pelo menos, as seguintes causas:
- Cultura organizacional baseada em relações pessoais e não em meritocracia, que terminam por estimular que seus Colaboradores passem a atuar, em especial, se percebem que isso gera promoções e visibilidade.
- Insegurança do profissional, que pode ocorrer quando alguém sente que não está à altura do grupo, criando um personagem, para desenvolver em si próprio uma melhor condição de autoconfiança.
- Pressão social e comparação constante, que leva as pessoas a imitar personas (principalmente Colegas de trabalho, próximos) os quais entendem fazer sucesso.
- Falta de liderança autêntica. Sem referências reais, os profissionais copiam estereótipos.
Todas elas graves e que por si só, demonstram, também graves, problemas de gestão.
Faltam equilíbrio, clareza e sobram palavras. A qualidade das decisões é baixa, visto que os líderes agem para manter o papel, não para resolver problemas. O nível de confiança entre as pessoas é baixo (Estou falando com uma pessoa ou com um personagem?).
Os envolvidos agem num contexto de alta probabilidade de ocorrência de problemas emocionais e burnout, afinal manter um personagem e todas as narrativas que o acompanham é um processo exaustivo.
Pode haver efeito positivo? Sim, se a “persona” escolhida como exemplo, for uma projeção saudável e o “ator” tiver consciência suficiente para abandonar esse processo imediatamente após ter obtido as competências que entende precisar. É só o que vejo.
Sejamos honestos. Não pode ser considerado normal que pessoas (e as empresas onde trabalham) vivam por longos períodos simulando (e aceitando) comportamentos ao invés de trabalhar com transparência e fatos.
A Empresa precisa agir, se quiser fazer valer regras claras de Governança, estabelecendo uma política de tolerância zero para jogos políticos e criando canais de fácil acesso e seguros, para a comunicação desses fatos. Através desses canais deve deixar transparente quais são os comportamentos adequados ou não. Lembro que a estrutura formal de comunicação não pode deixar vácuos. Fantasias e boatos não podem ser levados em consideração, em detrimento a fatos e dados.
Aos Líderes cabe atuar com protagonismo, como mediadores de conflitos reais, oferecendo feedback contínuo e deixando claro o quais são as entregas a serem feitas por cada um e os padrões aceitáveis para cada uma delas.
Volto ao início, seja você mesmo, encontre seus caminhos sem ceder às condições externas.
Hudson Carvalho é Consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, Diretor Regional da WISDOM – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista e Diretor Executivo da ELABORE-ONLINE – Pessoas e Resultados.
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Hudson Carvalho escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feiras