Se …
Kipling não chamou apenas o Desastre de impostor, mas também o Triunfo.(…) Há maturidade nessa simetria. O fracasso pode distorcer nossa percepção pela insegurança; o sucesso, pelo excesso de confiança. Um nos faz duvidar do que sabemos. O outro nos convence – erroneamente – de que sabemos mais do que realmente sabemos.
Rudyard Kipling (1865-1936). Jornalista, romancista e poeta, primeiro escritor de língua inglesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Kipling foi um homem marcado pelas ideias do seu tempo. Em 1910, publicou If (Se, em inglês), um poema sobre caráter, equilíbrio e maturidade que atravessou gerações. Mais de um século depois, ainda vale a pena conversar com Kipling. Vejamos:
Se consegues manter a cabeça quando todos ao teu redor,
Perdem a deles e põem em ti a culpa;
Se consegues confiar em ti quando todos duvidam,
Mas também reconhecer a razão de suas dúvidas,
Se consegues esperar sem te cansares da espera,
Ou, sendo alvo de mentiras, não responder com mentiras,
Ou, sendo odiado, não te entregares ao ódio,
Sem parecer bom demais, nem falar como sábio demais;
Autoconfiança e maturidade não foram feitas apenas para fazer-nos acreditar que estamos certos. Por pura intuição, somente. Importante que a tenhamos, sim, mas que a pratiquemos com responsabilidade, o que significa confiar em nossos julgamentos sem perder a capacidade de considerar a dúvida dos outros.
Para quem exerce liderança, essa distinção importa, muito. Decidir exige convicção, e reconhecer que convicção e verdade não são a mesma coisa. Como já escrevemos nesse espaço, o poder amplia nossa capacidade de fazer prevalecer uma decisão; mas não a torna – necessariamente – melhor.
Se consegues sonhar — sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se consegues pensar — sem fazer do pensamento teu único fim;
Se consegues encontrar o Triunfo e o Desastre,
E tratar esses dois impostores exatamente da mesma maneira;
Se consegues ouvir a verdade que disseste,
Distorcida por canalhas para servir de armadilha aos tolos,
Ou ver destruído aquilo a que dedicaste tua vida,
E, curvando-te, reconstruí-lo com ferramentas já gastas;
Kipling não chamou apenas o Desastre de impostor, mas também o Triunfo. Ele nos provoca a desconfiar dos dois. No mundo corporativo, investigamos o fracasso e celebramos o sucesso. Sem pensar detidamente sobre cada um deles, nem como e por que aconteceram.
Há maturidade nessa simetria. O fracasso pode distorcer nossa percepção pela insegurança; o sucesso, pelo excesso de confiança. Um nos faz duvidar do que sabemos. O outro nos convence – erroneamente – de que sabemos mais do que realmente sabemos.
Para um executivo, talvez o Triunfo seja o impostor mais sedutor. Resultados trazem reconhecimento, autoridade e poder. E tornam mais difícil separar competência, circunstância e contribuição daqueles que participaram da conquista.
Se consegues reunir tudo o que conquistaste,
E arriscar de uma vez, num único lance,
E perder, e recomeçar novamente do princípio,
Sem jamais dizer uma palavra sobre tua perda;
Se consegues obrigar coração, nervos e músculos,
A continuarem servindo muito depois de suas forças terem acabado,
E assim resistir quando nada mais resta dentro de ti,
Além da vontade que lhes ordena: “Resistam!”
Executivos perdem posições. Até as empresas erram. As melhores estratégias fracassam.
Kipling não oferece conforto, mas algo mais exigente: recomeçar.
Há uma diferença importante entre resistir e negar a realidade. Persistência não é insistir indefinidamente na mesma resposta. Há momentos em que maturidade significa sustentar uma decisão. Em outros, a mesma maturidade se revela através do reconhecimento de que fracassamos. Recomeçar é grande uma forma de coragem.
Se consegues falar às multidões e conservar tua integridade,
Ou caminhar com reis — sem perder o contato com as pessoas comuns;
Se nem inimigos nem amigos queridos conseguem te ferir,
Se todos importam para ti, mas nenhum em excesso;
Se consegues preencher o minuto implacável,
Com sessenta segundos inteiros de caminho percorrido,
Tua será a Terra e tudo o que nela existe,
E — mais do que isso — serás um Homem, meu filho!
“Caminhar com reis — sem perder o contato com as pessoas comuns” descreve bem o grande desafio da liderança. Quanto mais alto o cargo, maior o risco de receber uma realidade filtrada por quem já sabe o que o líder quer ouvir. Poder cria distância.
Preservar o contato com a realidade, portanto, não depende apenas de informação. Depende da disposição de continuar ouvindo pessoas que não ocupam a mesma sala, não possuem o mesmo poder e não têm razões para confirmar nossas certezas. Como? Indo até elas.
Mas nem é preciso traduzir If para o mundo corporativo.
Kipling não escreveu sobre cargos, mas sobre caráter. Sobre o que permanece quando o triunfo passa, o desastre chega. Quando nossas certezas são confrontadas e ninguém está olhando.
Por isso o poema não envelheceu. Mudaram as organizações, as tecnologias, as relações de trabalho e a própria ideia de liderança. As perguntas essenciais, que movem as pessoas, são as mesmas.
O que fazemos com o poder? Como reagimos à dúvida? O que o sucesso faz conosco? Quem somos depois da derrota? O que preservamos quando ninguém precisa nos reconhecer por isso?
Kipling não responde. Silenciosamente , deixa cada um de nós diante do próprio espelho.
E do seu próprio “SE…”.
Hudson Carvalho é diretor-executivo da BE Academy, consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas e especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento executivo. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feiras.