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Luiz Dias Guimarães

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Segredos do tempo

“O tempo é para servir sem a perenidade daqueles que dele participam. Há décadas presencio os acréscimos que se faz na Sagrada Família, na mesma Barcelona, onde a fé, como os projetos, está acima das conveniências. Ocupar o tempo, sem ilusão, requer planejamento de como enfrentar a inclemência dos ponteiros”

A mim o tempo não pertence, tampouco a ninguém. Ilude-se quem pensa ser seu senhor. Mas somos quem dele faz uso e respeita ou não seus segredos. Há como se lidar com o tempo, que pode se perder ou perpetuar na obra a transcender o tênue momento.

Reflito sobre o timing e a perenidade do tempo. Quando passa, nos damos conta da cronologia perdida e do que não ficou para além da nossa fugaz passagem.

Às vezes nos iludimos, ou simplesmente não percebemos que na ampulheta silenciosamente escorrem os sonhos e as metas feito areia. Assim é com a particular existência. Outras vezes é com a vida coletiva. E há sim quem não tenha olhos para estender seus sonhos à dimensão da História, e acaba se iludindo, ou iludindo os outros, com fragmentos de sonhos coletivos que se esvaem. Deixa apenas vestígios do que deveria ter sido feito um dia quando determinou o caminho.

Mundo afora surpreendo-me com exemplos de se viver o tempo sem iludir ou ebriamente se encantar com uma obra sem posteridade. Bons e maus exemplos existem em todo o planeta. Notáveis são os frutos que desafiam o rigor dos anos, como fontes de admirável imortalidade.

Vem-me à mente a Basílica de São Pedro, no Vaticano, onde repousam os restos mortais do primeiro papa, e que levou exatos 120 anos para ser concluída, transpondo o tempo de vários papas, até nos encantar eternamente.

O tempo é para servir sem a perenidade daqueles que dele participam. Há décadas presencio os acréscimos que se faz na Sagrada Família, na mesma Barcelona, onde a fé, como os projetos, está acima das conveniências. Ocupar o tempo, sem ilusão, requer planejamento de como enfrentar a inclemência dos ponteiros.

As grandes obras têm a solidez das decisões que suplantam os limites da individualidade. Mas às vezes perdemos o timing na formulação do que queremos. Ou não nos preparamos e nos esforçamos para conquistar. Como o amor, que se há de regar sempre feito flor. Quando se olha para trás, vê-se perdido o cronômetro, como se tivéssemos parado o relógio para festejar momentos sem nos preocupar com o porvir.

O sentido da existência está no propósito que lhe atribuímos. Fazer é fazer bem feito. Viver é viver bem vivido, com a qualidade dos nossos sonhos. Porém às vezes gastamos mais tempo em propagar a versão da frágil obra que fazemos, sendo mais importante encantar do que enfrentar o rigor do que haverá de ficar.

O tempo, esse que corre enquanto consome nossas vidas, requer rigor no sonhar, planejar, e antever o futuro inexorável que, feito um rio, jorra incessantemente o dever de fazer além do tempo de cada um.

Há ainda outro segredo: o da hora certa, o que em muito depende dos nossos esforços e nossa percepção do horizonte além-mar. Necessário compreender que tudo é um porto. Ele é um caminho, leva esperança e traz riqueza, leva comida, mata a fome. Ironicamente, porém, um caminho também é um destino, pois nele há de se chegar no timing certo, em condições sem sofrimento.

Às vezes ficamos pelo caminho da História. Mas sempre existe a chance de finalmente virarmos a ampulheta. Afinal, aprendemos que de grão em grão, e dominando os segredos, podemos lidar com o tempo, aquele do qual ninguém sozinho é seu senhor.

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