Seremos – de novo -o país do futuro?
Tenho uma preocupação bem concreta e atual no meu radar, ligada a novas oportunidades que a economia mundial vem gerando e para as quais não vejo um movimento claro para que – diferente das situações do passado – passemos a aproveitar o potencial natural que temos e, então, agregar valor verdadeiro aos produtos e serviços que possam vir a ser gerados.
“O futuro depende daquilo que fazemos no presente”
Mahatma Gandhi
O ser humano adora uma boa história. Por isso, somos apaixonados por livros e, mais ainda, por filmes. Nas duas mídias, sou especialmente fã de mistérios. Desde que aprendi a ler, passei a gostar de Agatha Christie, a rainha do crime, seus dois detetives, Hercule Poirot e Miss Marple, e do mais que famoso Sherlock Holmes, criado por Sir Arthur Conan Doyle, para ficar no mínimo.
No mundo dos streamings, para quem prefere assistir, há vários bons exemplos como os “CSI ‘s” – Crime Scene Investigation, com todos os seus spin-off’s, Law & Order, Criminal Minds e por aí vai.
São os mistérios da vida real, entretanto, que mais me intrigam. Quer ver?
O Brasil é considerado o maior produtor de soja, em grãos, no mundo, certo? Sim, produz algo entre 160 milhões e 170 milhões de toneladas anualmente. Mas, só processa cerca de 48 milhões de toneladas. Quem é o campeão mundial de processamento de soja? A China, com cerca de 115 milhões de toneladas.
Cada tonelada de soja in natura foi vendida, em 2024, pelo preço médio de US$ 434. A mesma tonelada, após processada, teria um valor agregado de mais US$ 53, valor que jogamos fora por falta de capacidade de processamento. Onde está o mistério, então? Simples: Por que não agregamos valor e criamos empregos, processando a nossa própria soja?
Com o café, e outros produtos do “agro” brasileiro, acontece a mesma coisa. O mistério só cresce.
Alguém poderá dizer: “Falta uma política industrial mais bem definida!”. Outros: “Faltam incentivos”.
Poderíamos imaginar inúmeras razões em que a causa fosse atribuída a alguém, porém, seria apenas parte da verdade.
Durante alguns anos em minha carreira, fui responsável por identificar locais para a construção de novas fábricas, no setor de autopeças. Considerávamos vários fatores, como disponibilidade de área, infraestrutura existente, política local de incentivos etc., mas o fator número um era (ganha um prêmio quem acertar) a disponibilidade de mão de obra. Em quantidade e qualidade. Perceba que não se tratava apenas (como não se trata hoje) de ter gente disponível para o trabalho, mas também de que o local possuísse profissionais tecnicamente preparados para o trabalho, ou em condição de o serem rapidamente. Tem que existir localmente. De verdade. Não é possível “importar esse insumo”.
A quem duvidar, recordo do caso recente em que um grande grupo industrial teve 475 de seus trabalhadores, a maioria cidadãos sul-coreanos, detidos pelas autoridades de imigração dos Estados Unidos no Estado da Georgia. Perceba que não era uma empresa de garagem. Trata-se de um projeto de US$ 4,3 bilhões.
Talvez você esteja pensando que estou com Síndrome de Rubinho Barrichello, afinal essa nossa falta de capacidade de agregar valor já se arrasta há décadas e, só agora, eu a trago para discussão.
Não é bem assim. Tenho uma preocupação bem concreta e atual no meu radar, ligada a novas oportunidades que a economia mundial vem gerando e para as quais não vejo um movimento claro para que – diferente das situações do passado – passemos a aproveitar o potencial natural que temos e, então, agregar valor verdadeiro aos produtos e serviços que possam vir a ser gerados.
Portos, infraestrutura, mineração e energia já estão passando por intensas mudanças e esse movimento só crescerá.
Pergunto como está o desenvolvimento de nossa mão de obra para compreender e utilizar na prática a Inteligência Artificial e a IoT (Internet of the Things – a Internet das Coisas)?
Estamos nos preparando para desenvolver produtos, serviços e seus respectivos processos de trabalho que considerem rastreabilidade ambiental, necessidade de cada vez menos carbono na cadeia logística e nos meios de produção? Estamos prontos para monitorar emissões em tempo real?
Um país como o nosso, que já deu provas mais do que suficientes de sua capacidade, ao desenvolver o agro mais competitivo do planeta, está buscando formas de trabalhar também os frutos que virão da exploração dos 17 elementos químicos que convencionamos chamar “Terras Raras”? A China, sozinha, já é responsável por cerca de 90% do refino e processamento mundial.
O país que possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo está desenvolvendo tecnologia para usar o hidrogênio verde, a energia eólica offshore?
Queremos ser um “hub verde” e de tecnologia nessa nova ordem econômica mundial ou nos contentaremos em continuarmos a ser o “celeiro do mundo”?
Já passou da hora de honrarmos a promessa de sermos o país do futuro.
Sabemos que os efeitos de um bom ciclo de ações voltadas para a educação, apesar de necessário, levam tempo para produzir efeitos. Vamos então trabalhar juntos para produzir esses efeitos através da qualificação profissional.
Está lançado – mais uma vez – o desafio.
Hudson Carvalho é Consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, Diretor Regional da WISDOM – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista e Diretor Executivo da ELABORE-ONLINE – Pessoas e Resultados.
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Hudson Carvalho escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feiras