terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

Shore power, um passo decisivo

Todo navio atracado num porto continua queimando combustível. Seus geradores a diesel permanecem em funcionamento para alimentar sistemas de refrigeração de carga, iluminação, equipamentos de bordo e ar-condicionado da tripulação, às vezes por horas, às vezes por dias. Em portos de grande movimento, como Santos (SP), Pecém (CE) ou Paranaguá (PR), vários navios atracados simultaneamente significam vários geradores operando em plena área urbana ou costeira, emitindo dióxido de carbono, óxidos de nitrogênio e material particulado diretamente sobre as comunidades portuárias. O shore power, sistema que fornece energia elétrica da rede em terra para substituir esses geradores, enquanto o navio está atracado, é a solução que portos europeus, asiáticos e norte-americanos adotam há mais de uma década. O Brasil começa a implantá-la agora, em Pecém, e chega tarde. Mas chega.

O investimento de R$ 13,2 milhões é modesto para o impacto que representa. A expectativa de reduzir mais de 700 toneladas de CO₂ por ano apenas em Pecém é uma contribuição real à descarbonização do setor portuário, segmento que, somado ao transporte marítimo que o abastece, responde por parcela significativa das emissões de gases de efeito estufa nas regiões metropolitanas com vocação portuária. Mas a informação que mais importa não é a quantidade de CO₂ evitada por ano; é o que essa redução representa como demonstração de viabilidade técnica e econômica da tecnologia shore power em solo brasileiro. Um projeto-piloto bem executado, com operação a partir de setembro, cria o precedente de que outros terminais precisam para justificar o mesmo investimento, e de que o Governo Federal necessita para tornar o shore power uma exigência regulatória progressiva nos portos concedidos.

O BE News considera que o shore power é, junto com a eletrificação de pátios e guindastes, como a implantada no novo terminal da APM em Suape (PE), e o abastecimento de navios com biocombustíveis como o etanol, cujo primeiro teste ocorrerá em Santos no dia 10, uma das três frentes da transição energética portuária em que o Brasil precisa avançar simultaneamente. As três têm em comum uma característica que as torna politicamente difíceis de priorizar: os benefícios são difusos — menores emissões, melhor qualidade do ar nas cidades portuárias, adequação a padrões internacionais —, enquanto os custos são concentrados e imediatos. É exatamente por isso que elas precisam de uma política pública ativa: incentivos fiscais para a implantação, mandatos de adoção progressiva nos contratos de concessão e de arrendamento portuário e, ainda, financiamento via BNDES e Fundo de Marinha Mercante (FMM) para terminais que não têm escala suficiente para absorver o investimento sem apoio público.

O Porto de Pecém já é referência em iniciativas de transição energética no Nordeste, com o projeto do data center abastecido por energia renovável anunciado recentemente e, agora, com o primeiro shore power do País. Essa combinação de inovações num mesmo complexo marítimo não é coincidência, mas o resultado de uma gestão portuária que decidiu tratar a agenda ambiental como vantagem competitiva, e não como custo regulatório. Outros portos brasileiros, especialmente os que recebem navios de cruzeiro e graneleiros em áreas próximas a centros urbanos, como Santos, Paranaguá e Salvador (BA), deveriam seguir esse exemplo com urgência, tanto pelos benefícios ambientais quanto pela sinalização que enviam a armadoras internacionais cada vez mais sujeitas a exigências de descarbonização de suas cadeias logísticas.

O primeiro shore power do Brasil custou R$ 13,2 milhões. É uma fração ínfima do que o País gasta por ano em dragagem, pavimentação e manutenção de rodovias que transportam cargas que deveriam estar nos trilhos ou nos rios. E vai reduzir mais de 700 toneladas de CO₂ por ano num único porto. Imaginem o que dez sistemas como esse, espalhados pelos principais complexos marítimos do País, poderiam fazer, ambiental, comercial e institucionalmente, pela posição do Brasil na nova economia do transporte marítimo. A conta é simples. Mas, infelizmente, a decisão de fazê-la, ainda não.

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