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Alfredo Rodrigues

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Soberania sem isolamento: no que o Brasil acertou, onde errou e como deve reagir ao tarifaço

A busca por uma maior diversificação de mercados, que deixou de ser discurso e virou política de fato, pode ser considerada o segundo acerto. O superávit comercial brasileiro somou US$ 42 bilhões no primeiro semestre deste ano, US$ 12 bilhões a mais que no mesmo período de 2025, em plena guerra tarifária global.

Um ano após Donald Trump anunciar uma tarifa de 50% sobre praticamente toda a pauta exportadora brasileira, o Brasil não encontrou paz comercial com Washington, mas, sim, uma nova rodada. Na noite da última quarta-feira, 15 de julho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) confirmou que aplicará novas tarifas ao País, desta vez com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana de 1974, depois que a Suprema Corte dos EUA, em fevereiro, invalidou o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) que sustentava o tarifaço original. Trocou-se o instrumento jurídico, a pressão sobre as exportações brasileiras permanece.

Passado esse ciclo, da carta de julho de 2025 à confirmação da Seção 301 um ano depois, é possível analisar com maior distância o que funcionou na resposta brasileira, o que não obteve êxito e, principalmente, para onde essa política precisa ir agora que o argumento da emergência unilateral perdeu força jurídica, mas o apetite protecionista de Washington não perdeu força política.

Vale relembrar o ponto de partida, porque ele nunca deixou de ser relevante: os Estados Unidos não têm déficit comercial com o Brasil, têm superávit. Em 2024, as exportações brasileiras aos EUA somaram US$ 40,37 bilhões, contra US$ 40,65 bilhões em importações americanas, segundo levantamento do Observatório de Bioeconomia da FGV. O saldo, de cerca de US$ 284 milhões, era favorável aos americanos. Isso desmonta, de saída, o argumento mais repetido por Trump para justificar tarifas recíprocas contra dezenas de países: aqui, a “injustiça comercial” simplesmente não existe nos números. A motivação, como reconheceu a própria Casa Branca em seus decretos, sempre teve um componente político explícito, do julgamento de Jair Bolsonaro às críticas ao Supremo Tribunal Federal.

Esse dado é o ponto de partida de qualquer análise séria sobre o episódio: o Brasil não estava negociando para corrigir uma distorção comercial real, mas para conter uma medida de natureza essencialmente política travestida de instrumento comercial. E isso molda o que conta como acerto ou erro na resposta brasileira.

A leitura correta

O primeiro acerto foi recusar a tentação óbvia: a retaliação tarifária imediata. Analistas ligados à própria Organização Mundial do Comércio (OMC) já haviam sinalizado que reagir na mesma moeda tenderia a ampliar o conflito e a distribuir custos para os dois lados. Modelo elaborado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) projeta que uma retaliação brasileira elevaria a queda do PIB nacional de 0,16% para até 0,41%, enquanto o efeito adicional sobre o PIB americano seria marginal, de 0,03% para 0,08%. A assimetria é clara: o Brasil tinha, e continua tendo, mais a perder numa escalada direta do que os Estados Unidos. Optar pela via diplomática e jurídica, em vez da guerra tarifária espelhada, foi uma leitura correta da correlação de forças.

A busca por uma maior diversificação de mercados, que deixou de ser discurso e virou política de fato, pode ser considerada o segundo acerto. O superávit comercial brasileiro somou US$ 42 bilhões no primeiro semestre deste ano, US$ 12 bilhões a mais que no mesmo período de 2025, em plena guerra tarifária global. É a prova de que o País conseguiu, ao menos parcialmente, compensar a fricção com os EUA abrindo e aprofundando outras frentes. A entrada em vigor provisória do acordo Mercosul-União Europeia, destravado após duas décadas de impasse com forte participação da diplomacia brasileira, é o símbolo mais concreto dessa estratégia, que envolve um bloco de mais de 400 milhões de consumidores, com regras estáveis e previsíveis, exatamente o oposto da lógica de tarifas por decreto que caracteriza a era Trump. A isso, somam-se o início de negociações de livre comércio entre Mercosul e Japão, anunciado à margem do G7 e formalizado na cúpula do bloco em Assunção, no Paraguai, e sinalizações do Canadá sobre um entendimento semelhante.

Recorrer aos foros multilaterais em vez de abandoná-los foi, certamente, a terceira ação correta adotada pelo Governo. O Brasil já solicitou consultas na OMC contra as tarifas americanas, reforçando institucionalmente um argumento que a própria jurisprudência da organização já validou: em 2022, a entidade condenou os Estados Unidos por invocar a exceção de segurança nacional do artigo XXI do antigo Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt, antecessor da OMC) de forma abusiva e auto-declaratória, sem demonstrar ameaça concreta e verificável, precisamente o vício que voltou a marcar o tarifaço de 2025. Manter-se dentro das regras multilaterais, em vez de responder unilateralismo com unilateralismo, preserva o capital político do Brasil como litigante de boa-fé, o que tem peso tanto diante da autoridade comercial mundial quanto perante a opinião pública internacional.

O quarto acerto, mais tático, foi a tentativa de despolitizar tecnicamente a negociação por meio da equipe econômica, mesmo enquanto o discurso presidencial mantinha o tom soberanista. A combinação rendeu dividendos duplos: capital político interno para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que viu sua popularidade reagir ao antagonismo com Trump, e um canal técnico paralelo, liderado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, com apoio de empresários como Joesley Batista, que ajudou a preservar isenções para quase metade da pauta exportadora brasileira quando o tarifaço de 50% efetivamente entrou em vigor.

Equívocos

Nem tudo funcionou. O primeiro problema foi a lentidão em construir canais de diálogo de alto nível nos primeiros meses do conflito. Entre o anúncio da tarifa recíproca de 10%, em abril de 2025, e a carta de 50% em julho, o governo brasileiro relativamente pouco fez para antecipar o golpe ou abrir uma linha direta com a Casa Branca. O diálogo efetivo só avançou de fato depois do encontro fortuito entre Lula e Trump na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro. Um ano depois, o mesmo padrão se repetiu: a diplomacia reclamou publicamente da falta de clareza sobre as exigências específicas dos EUA na investigação da Seção 301, sinal de que os canais de comunicação técnica ainda não estão suficientemente amadurecidos para antecipar, e não apenas reagir a, movimentos de Washington.

O segundo equívoco foi não explorar com maior agressividade, nos foros certos, a fragilidade jurídica doméstica das medidas americanas. Vários especialistas apontaram que as leis que autorizam a Casa Branca a impor tarifas — o Trade Expansion Act de 1962, o Trade Act de 1974 e a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (Ieepa, na sigla em inglês) de 1977 — preveem hipóteses excepcionais e condicionadas, não um cheque em branco presidencial. A Corte de Comércio Internacional dos EUA já havia declarado ilegal o tarifaço original no caso V.O.S. Selections, Inc. v. United States, em maio de 2025, por ausência de “ameaça extraordinária e incomum” que justificasse a declaração de emergência. Esse entendimento foi reforçado pelo precedente Loper Bright/Raimondo, que exige respaldo legislativo inequívoco para atos executivos de amplo impacto econômico. Essa fragilidade jurídica, que acabou confirmada pela própria Suprema Corte americana em fevereiro deste ano, poderia ter sido usada de forma mais assertiva pelo Brasil, inclusive publicamente, como munição diplomática, em vez de tratada quase como nota de rodapé técnica.

O terceiro ponto é a ambiguidade entre a narrativa soberanista, que rendeu capital eleitoral a Lula, e a necessidade de sinalizar previsibilidade a investidores e parceiros comerciais. A mesma retórica que funciona bem internamente pode dificultar a leitura externa sobre quem, de fato, comanda a mesa de negociação e que margem de concessão técnica existe. Este foi um problema de coordenação que ficou evidente quando um documento do Departamento de Estado dos EUA sobre terras raras chegou a tratar o Brasil como “país X” e depois como “Equador”, episódio interpretado pelo Itamaraty como sintoma de desengajamento americano, mas que também expõe o quanto o diálogo bilateral ainda carece de estrutura permanente.

Por fim, houve uma dependência excessiva de setores facilmente identificáveis, como o agronegócio, responsável por cerca de 30% das exportações brasileiras aos EUA (US$ 12,1 bilhões em 2024, com destaque para café em grão e carne bovina), sem uma estratégia setorial de contingência amplamente divulgada antes da crise. Análise da FGV projeta que uma tarifa efetiva de 50% poderia derrubar as exportações de alimentos ao mercado americano em até 75%, com quedas homogêneas nas cinco grandes regiões do país. Esperar o tarifaço para desenhar linhas de crédito emergenciais, como fez o Plano Brasil Soberano, é politicamente compreensível, mas estrategicamente tardio.

Próximos passos

A resposta mais eficiente ao tarifaço não é necessariamente reagir na mesma moeda. O Brasil tem, em tese, base legal, tanto na legislação de reciprocidade nacional quanto em mecanismos internacionais, para aplicar tarifas retaliatórias contra produtos americanos. Mas essa rota tende a elevar custos para empresas e cadeias produtivas e prejudicar investimentos dos dois lados, com ganho estratégico duvidoso. O impacto proporcional sobre a economia brasileira seria maior do que sobre a americana. Especialistas ligados à OMC e o próprio setor privado brasileiro já alertaram o Governo nesse sentido.

O caminho mais promissor é a continuidade e a aceleração da estratégia que já vem sendo adotada: diversificação de mercados, novos acordos comerciais e menor exposição a decisões unilaterais de qualquer potência isolada. Isso significa consolidar o acordo Mercosul-União Europeia além da vigência provisória, garantindo ratificação plena e blindando o bloco sul-americano contra novos choques bilaterais. Outras medidas são agilizar as negociações com o Japão e explorar formalmente a sinalização canadense de interesse em um acordo com o Mercosul.

O Brasil também deve manter e aprofundar a via multilateral na OMC, não como gesto simbólico, mas como estratégia de longo prazo. O histórico recente mostra que a jurisprudência da organização tende a favorecer o Brasil quando o argumento de segurança nacional é usado de forma abusiva, como voltou a ocorrer no ciclo de 2025-2026.

E são ações necessárias e, principalmente essenciais: profissionalizar o canal técnico permanente com Washington, dissociando-o das oscilações da relação pessoal entre presidentes, para reduzir a dependência de eventos fortuitos, como o encontro na ONU que destravou o diálogo em 2025, e evitar episódios de desalinhamento como o do documento sobre terras raras; e antecipar, e não apenas responder a, futuras rodadas de pressão, com planos setoriais de contingência prontos antes de qualquer novo aviso.

A ironia estrutural do episódio é que a pressão tarifária de Washington sobre boa parte do mundo acabou sendo contraproducente para os próprios interesses americanos de longo prazo, ao acelerar exatamente o movimento que o Brasil mais precisava fazer: diversificar seus parceiros comerciais. Em um cenário de incerteza permanente, países que preservam previsibilidade, defendem regras multilaterais e ampliam parcerias tendem a ganhar espaço nas cadeias globais de valor, mesmo, ou principalmente, quando a maior economia do mundo decide fechar suas portas.

Alfredo Rodrigues. Engenheiro portuário, pesquisador e consultor portuário.

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