Sobre patos, ovos e liderança
Ontem ou hoje, o problema não está em querer resultados — está em ignorar o caminho até eles. Quem exige que metas sejam atingidas a qualquer custo, não enxerga a trilha de destruição que cria entre si e os resultados que almeja. Ao longo dessa via, estão sua equipe e, muitas vezes, suas famílias. Desconhece que o que era meta vira o risco, não apenas operacional — é cultural e organizacional.
Talvez você tenha convivido, como eu, com “chefes” que usavam a frase do subtítulo ou qualquer outra semelhante, cuja verdadeira ordem por trás fosse: “Quero resultados a qualquer custo, não importa o quanto custe”. É uma forma de pressionar por resultados, reconheço. Legítima? Atualizada? Veremos.
Sei o quanto é importante atingir e superar metas, tanto quanto sei que gestor (assim mesmo, com “g” minúsculo) que usa essa forma ineficaz de agir, está completamente equivocado.
A aparente ironia da sentença traduz o comportamento de gestores que não compreendem os limites do processo, a capacidade das equipes ou as condições técnicas que sustentam o desempenho.
Neste ponto alguém na plateia levanta a mão e diz: “É, mas antigamente funcionava!”
Discordo. Nunca funcionou. Quem faz essa afirmação confunde o antigo medo de perder emprego, posição ou prestígio que os profissionais de gerações anteriores tinham, ou de parecerem fracos para a posição que ocupavam, com o respeito que um Líder de verdade inspira e por isso nos faz agir. Podemos discordar de vários pontos do comportamento das atuais gerações, mas é pouquíssimo provável que elas se submetam a esse tipo de comportamento hostil nos dias de hoje.
Ontem ou hoje, o problema não está em querer resultados — está em ignorar o caminho até eles.
Quem exige que metas sejam atingidas a qualquer custo, não enxerga a trilha de destruição que cria entre si e os resultados que almeja. Ao longo dessa via, estão sua equipe e, muitas vezes, suas famílias. Desconhece que o que era meta vira o risco, não apenas operacional — é cultural e organizacional.
Nos setores portuário, de Infraestrutura, Mineração e Energia, onde atuamos, todos conhecemos histórias em que a meta se sobrepôs ao método. Pesquisas da Harvard Business School mostram que, quando a pressão é dissociada de propósito e de contexto, há queda significativa na qualidade das decisões e aumento do risco operacional.
No sentido contrário, estudos da McKinsey & Company reforçam: empresas que equilibram ambição com realismo operacional têm 35% mais chances de manter desempenho sustentável a longo prazo.
O MIT Sloan Management Review aponta que ambientes de alta pressão, quando não acompanhados de propósito e suporte, geram queda de até 50% no engajamento e aumentam a rotatividade de talentos.
Para não dizer que se trata apenas da minha convicção pessoal, trago, resumidamente, o que afirma três das maiores instituições do mundo dos negócios: perseguir metas sem coerência é caminhar sobre gelo fino. Quando a cultura do “entregar de qualquer forma” se instala, surgem efeitos colaterais bem conhecidos, como o improviso, a exaustão das equipes e a perda de valor institucional.
É aqui que entra o papel essencial da Alta Administração. Cabe a ela orientar, prover recursos e assegurar que a cultura organizacional permaneça íntegra, mesmo diante de pressões externas ou de metas desafiadoras.
Vamos nos valer de mais uma pesquisa de uma Instituição de renome, a Stanford Graduate School of Business: o exemplo da liderança sênior é o fator de maior impacto na consolidação de culturas éticas e de alta performance.
Mais do que definir metas, é preciso deixar claras as consequências para quem atua fora das normas corporativas — e demonstrar, na prática, que coerência e resultado não são opostos, mas complementares. E, acima de tudo, é preciso dar o exemplo. A conduta real e efetiva da Alta Administração (não o que ela escreve) é o espelho pelo qual toda a organização se norteia. Quando a liderança demonstra equilíbrio entre cobrança e orientação, cria-se um ambiente onde o desempenho floresce naturalmente.
O exercício da liderança deve incluir a compreensão do contexto e o respeito à técnica, em outras palavras, entender o processo. Em qualquer ramo de negócios, a diferença entre comandar e liderar está na capacidade de escutar, interpretar e orientar.
Pedindo o último apoio de uma grande Instituição, a London Business School, que confirma que líderes que valorizam o conhecimento técnico e mantêm diálogo constante com suas equipes aumentam em até 40% a eficiência operacional de suas áreas.
O verdadeiro líder não exige ovos de qualquer forma — ele cuida do ambiente, da temperatura e da alimentação que permitem que eles existam.
No final do dia, aprendemos que não se trata de cobrar ovos de qualquer jeito, mas de garantir que todo o sistema esteja saudável, estável e capaz de produzi-los com regularidade. Resultados sustentáveis não são fruto de pressão, e sim de coerência.
Empresas maduras não pressionam — elas alinham, sustentam e inspiram.