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Beatrice de Toledo Dupuy

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Sororidade na prática: quando apoiar outras mulheres deixa de ser discurso

Precisamos construir relações profissionais baseadas em respeito, generosidade e responsabilidade. Porque uma mulher que abre espaço para outra não perde espaço. Amplia o espaço disponível. 

Falar sobre sororidade é fácil. Praticá-la é outra história.

Sororidade aparece quando escolhemos abrir espaço, dividir protagonismo, reconhecer uma competência antes que ela seja percebida ou simplesmente não reproduzir comportamentos que, durante muito tempo, aprendemos a naturalizar.

No mundo corporativo, sororidade não é amizade, afinidade ou proteção. É uma atitude de apoio, respeito e responsabilidade. É reconhecer que uma decisão aparentemente pequena pode mudar a trajetória profissional de outra mulher.

Sororidade começa quando deixamos de enxergar outras mulheres como concorrentes permanentes.

Isso não significa eliminar a competição ou acreditar que precisamos pensar da mesma forma. Podemos disputar oportunidades sem desqualificar umas às outras. Podemos discordar sem transformar divergência em julgamento pessoal. Podemos crescer sem precisar diminuir quem está ao nosso lado. 

E como isso se traduz no cotidiano? 

É apresentar uma colega a alguém que pode contribuir para sua carreira. Indicar uma profissional para um projeto ou posição de liderança. Reconhecer a autoria de uma ideia. Convidar uma mulher para uma mesa estratégica. Compartilhar conhecimento, informação e contatos em vez de tratá-los como patrimônio individual. 

É também dar feedback. 

E aqui existe uma diferença importante entre sororidade e complacência. Apoiar não significa dizer que tudo está certo. Muitas vezes, a forma mais genuína de apoio é oferecer uma crítica honesta, respeitosa e construtiva, aquela que prepara uma profissional para o próximo desafio. 

Existe ainda uma dimensão menos visível: defender outras mulheres quando elas não estão na sala. 

Quando uma colega é interrompida em uma reunião, devolver a palavra. Quando uma ideia é apropriada por outra pessoa, reconhecer sua autora. Quando surge um comentário depreciativo, não rir, não o reforçar e, quando necessário, questioná-lo. 

São gestos pequenos. Mas cultura também se constrói assim. 

E existe uma responsabilidade ainda maior para quem já conquistou espaço. 

Quanto maior a senioridade, maior a capacidade de abrir caminhos. Uma diretora pode incluir uma profissional em uma reunião estratégica. Uma gerente pode preparar uma sucessora. Uma executiva pode recomendar alguém para uma posição. Uma líder pode fazer uma pergunta simples: “Quem ainda não está nessa mesa?” 

Essa pergunta deveria fazer parte das nossas rotinas de liderança. 

Porque diversidade não acontece apenas quando uma empresa contrata mulheres. Acontece quando elas têm acesso a projetos relevantes, visibilidade, desenvolvimento, remuneração justa, patrocínio e oportunidades reais de decisão. 

É aí que sororidade encontra estratégia. 

Empresas que querem ampliar a presença feminina na liderança precisam ir além de campanhas, eventos e discursos. Precisam criar ambientes em que profissionais possam crescer, errar, aprender, liderar e ser reconhecidas pelo que entregam. 

E isso não se constrói apenas por meio de políticas formais. Constrói-se também nas relações cotidianas, nas reuniões, nas escolhas, nas indicações e nas oportunidades que oferecemos ou deixamos de oferecer. 

Há outro ponto fundamental: sororidade não é responsabilidade exclusiva das mulheres.

Homens também têm um papel decisivo nessa transformação. Podem reconhecer o protagonismo de uma colega, interromper uma dinâmica de exclusão, questionar vieses e contribuir para que oportunidades sejam distribuídas de forma mais justa. 

No setor de infraestrutura, logística e comércio exterior, esse debate ganha ainda mais relevância. São setores essenciais para a economia brasileira e que ainda enfrentam o desafio de ampliar a presença feminina em diversas posições operacionais e de liderança.

Criar caminhos para que mais mulheres entrem, permaneçam e avancem nessas carreiras não é apenas uma questão de representatividade. É uma questão de talento, competitividade e futuro para o setor. 

Talvez, então, a sororidade comece com uma mudança simples de pergunta. Em vez de “Por que ela chegou lá?” perguntar: “O que podemos fazer para que mais mulheres cheguem lá?” 

Não precisamos concordar o tempo todo. Não precisamos ser amigas. Não precisamos abrir mão da ambição, da competição ou da excelência. 

Precisamos construir relações profissionais baseadas em respeito, generosidade e responsabilidade. Porque uma mulher que abre espaço para outra não perde espaço. Amplia o espaço disponível.
E talvez esse seja o sentido mais concreto da sororidade no trabalho: não caminhar todas pela mesma estrada, mas ajudar a tornar a estrada mais acessível para quem vem depois. 

Sororidade é menos discurso e mais atitude. 

É reconhecer. É indicar. É incluir. É compartilhar. É defender. É abrir espaço. 

Porque, quando uma mulher cresce, ela pode levar outras com ela.

Béatrice de Toledo Dupuy e demais integrantes do Conselho ESG dos fóruns Brasil Export escrevem semanalmente para o BE News.

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