Supere-se! Sempre é possível dar mais um passo. Sua saúde mental agradece
“Levanta sacode a poeira, dá a volta por cima.”
Trecho de Volta Por Cima, de Paulo Vanzolini.
Sei que você já teve semanas difíceis. Espero que esta não seja uma delas, como foi a minha. Três funerais, de pessoas próximas, uma internação de familiar. Não farei uma apologia à tristeza ou à autopiedade. Você entenderá o meu propósito. Ao contrário, tendo chamado sua atenção, quero levá-lo a uma reflexão sobre superação.
Pensar, junto com você, como nos tornamos maiores do que os problemas que se (ou que nos) colocam sobre os ombros. Dificuldades são fatos da vida e, usando toda a extensão do termo, incluo a parte importantíssima, que são as carreiras.
A necessidade de superar nossos próprios limites, óbvio, fica mais clara quando tanta coisa acontece em tão pouco tempo. Ainda bem, nem sempre é com tal coincidência que os problemas aparecem em nossas vidas. Na prática, o que mais frequentemente acontece é que a sucessão de situações difíceis intercala-se com suas respectivas soluções, ou, quando não é possível resolver completamente, adaptar-se continuamente, até que a oportunidade da solução definitiva apareça. Como diz Mario Sergio Cortella: “Faça o teu melhor na condição que você tem, enquanto você não tem condições melhores para fazer melhor ainda!”.
Acrescento dois pontos ao filósofo. Primeiro, não espere para começar a fazer. Além disso, compartilhe as dificuldades com quem se importa, de verdade, com você, com seu bem estar e com seu sucesso. Família e amigos próximos, como está acontecendo comigo neste momento, fazem toda a diferença. Mais uma? Não faça das Redes Sociais um muro de lamentações.
Quero voltar à questão das carreiras ilustrando com os casos de dois jovens profissionais a quem mentoro, enquanto vivo a “tal” semana. Um brilhante, bem preparado intelectual e psicologicamente, normalmente equilibrado, mas enfrentando período intenso de trabalho que o levou a um sério burnout. Procura todos os dias, literalmente, motivos para sair da cama. E sai. Encontra forças dentro de si, busca forças e ajuda no seu entorno. Me impressiona a sua capacidade de seguir trabalhando e vivendo, como se estivesse bem, plenamente. Fora do pequeno círculo de pessoas de suas relações, quase não se percebe o que vem passando.
O outro, também inteligente, dono de boas ideias, já ocupando posição de liderança, prefere centrar-se em si mesmo. Autossuficiente, ignora, olimpicamente, a clara necessidade de ser ajudado. Segue repetindo comportamentos ruins que desagregam a equipe ao seu redor, a qual, por sua vez, performa muito abaixo do que poderia, se tivesse uma liderança madura. Há um longo caminho a ser percorrido até o equilíbrio e depois o início do efetivo processo de melhora.
O que une esses dois casos? A necessidade que cada um tem de superar-se. De formas diferentes. Um deles precisa resolver sua incapacidade de dizer não e continuar colocando mais e mais carga em seus próprios ombros, enquanto o outro, a incapacidade de enxergar suas limitações.
Perceba que os dois estão em pontos absolutamente diferentes de sua caminhada para corrigir seus comportamentos, por uma razão primária: o autoconhecimento. Positivo para um, nem tanto para o outro.
Quando a pessoa tem consciência de suas limitações e disposição para trabalhar sobre elas, metade da questão está resolvida. Ao contrário, sem a percepção dos erros que comete e da extensão das consequências, o remédio tem que ser mais forte.
No segundo caso, mais trabalhoso, como já se viu, eu uso uma abordagem simples e clara, apresento fatos e dados que demonstrem o efeito das decisões ruins e seus desdobramentos. Ao mesmo tempo, proponho uma simulação que inclui imaginar o que aconteceria se a pessoa tivesse agido diferente. Na verdade, peço a ela que crie sua própria situação alternativa e imagine-se vivendo uma situação diferente e boa. Proponho também que avalie como e de que forma outras pessoas foram afetadas, na esperança de que essa consciência acelere o processo de reorganização mental que leva a melhora.
Você deve estar pensando: “É, mas tem gente que nunca vai conseguir enxergar seus próprios erros, mesmo mediante as mais sérias consequências”. Eu digo: há pessoas que só enxergam a necessidade de mudar comportamentos quando colocadas frente às tais “sérias consequências”. É uma pena.
As grandes mudanças que vi, em pessoas próximas ou profissionais os quais ajudei nessa transição, ocorreram depois dos fatos dessa magnitude, como a perda do emprego, de um ente querido ou da própria saúde. Não deixe a situação chegar a esse ponto. Não é inteligente, nem necessário.
Você deve ter percebido a quantidade de vezes que usei a palavra “consequência” neste texto. De propósito, foram cinco vezes. Quero deixá-la muito evidente. Cada passo, certo ou errado, carrega uma delas. Podemos senti-las de imediato ou após muito tempo, mas – boas ou ruins – elas sempre virão.
É o que eu quero que considere: o poder das consequências. E … boa semana.