Talento não falta. Espaço, sim: o desafio estrutural do Mês das Mulheres
O Mês Internacional das Mulheres costuma ser marcado por homenagens, campanhas e discursos inspiradores. No entanto, para além das celebrações simbólicas, há uma pergunta que precisa ser feita com objetividade: quem está, de fato, ocupando as instâncias de decisão no Brasil?
Ao longo da minha trajetória no setor portuário e logístico, aprendi algo que os dados apenas confirmam: talento feminino nunca foi escasso. O que historicamente faltou foi acesso deliberado aos ambientes decisórios.
As mulheres brasileiras estudam mais. Segundo o IBGE, possuem, em média, maior nível e escolaridade do que os homens e representam a maioria dos concluintes do ensino superior no país. Ainda assim, ao observarmos conselhos de administração, diretorias executivas e órgãos de controle, a presença feminina diminui à medida que o poder institucional se amplia.
Esse descompasso não é casual. É estrutural.
A reflexão recente trazida pelo ministro Bruno Dantas, ao defender a indicação de uma mulher para a vaga aberta no Tribunal de Contas da União, evidencia esse ponto com clareza. Não se trata de qualificação. Trata-se de intencionalidade institucional. E estruturas não se transformam por inércia. Transformam-se por escolha.
Nos setores portuário e aquaviário, essa realidade também se manifesta. Dados da Agência Nacional de Transporte Aquaviários (Antaq) mostram que, embora a participação feminina venha crescendo, especialmente em funções administrativas e regulatórias, as mulheres ainda são minoria nas posições técnicas operacionais e nos níveis mais elevados de liderança. O avanço é relevante, mas permanece distante da proporcionalidade que a formação educacional já revela. Estamos diante de um paradoxo evidente: mulheres mais qualificadas, mas menos presentes nas decisões estratégicas.
Ignorar esse cenário não é apenas injusto. É economicamente ineficiente.
O setor portuário e logístico conecta cadeias globais, sustenta o comércio exterior brasileiro e opera sob crescente complexidade ambiental, regulatória e tecnológica. Transição energética, governança, gestão de riscos climáticos e segurança operacional exigem deliberações cada vez mais sofisticadas. Quanto maior for a diversidade de perspectivas, maior a qualidade e a consistência dessas escolhas.
Diversidade não é discurso. É vantagem competitiva.
Ao longo dos anos, observo que ambientes com maior presença feminina nas instâncias decisórias revelam atenção ampliada a riscos reputacionais, consistência na agenda ESG e interlocução mais qualificada com stakeholders.
Nesse contexto, a sororidade deixa de ser conceito abstrato e assume dimensão estratégica. Sororidade é articulação, construção de rede e abertura consciente de caminhos. Em setores historicamente masculinos, essa conexão reduz o isolamento profissional e fortalece lideranças preparadas para decisões complexas.
Foi com essa convicção que ações como o Porto é Delas uma iniciativa da Santos Brasil foi estruturada. Mais do que um encontro, trata-se de criar espaço intencional, ampliar visibilidade e consolidar redes femininas em um setor que molda o comércio exterior do país.
Espaço não é concessão. É desenho institucional.
Quando uma mulher ocupa um conselho, uma diretoria ou um órgão regulador, amplia a legitimidade da governança e qualifica a tomada de decisão. Competência feminina não é exceção. É parte da arquitetura necessária para sustentar crescimento, inovação e responsabilidade.
O Mês das Mulheres, portanto, precisa ir além da celebração. Exige revisão de critérios de sucessão, composição de conselhos, processos de promoção e métricas de avaliação.
Exige acompanhamento, metas claras e responsabilidade institucional.
No contexto ESG, essa agenda é ainda mais central. Sustentabilidade não se limita à dimensão ambiental. Envolve maturidade para reconhecer assimetrias estruturais e corrigi-las. Organizações que não promovem diversidade nas instâncias decisórias fragilizam a própria governança.
A pergunta não é se devemos ampliar a presença feminina.
A pergunta é se podemos nos dar ao luxo de não fazê-lo.
Em um país onde as mulheres são maioria nas universidades e ampliam sua participação no mercado de trabalho qualificado, restringir seu acesso às decisões estratégicas significa desperdiçar capital intelectual.
No fim, o debate não é apenas sobre representatividade. É sobre eficiência, competitividade e futuro.
Talento nunca faltou.
O que precisamos garantir é estrutura, decisão e compromisso para que ele se traduza em liderança efetiva.
Porque liderança não é símbolo.
É decisão.
E decisões definem o futuro que escolhemos ou deixamos construir.