Ted Lasso para elas
No mundo portuário e logístico, ainda temos um enorme caminho a percorrer. Sabemos que faltam mulheres em muitas posições, especialmente nas áreas operacionais e de liderança. Mas também sabemos que não basta abrir portas. É preciso preparar pessoas para atravessá-las.
Quando soube que a nova temporada de Ted Lasso colocaria o treinador à frente de uma equipe feminina do AFC Richmond, imaginei que a história seguiria o caminho mais óbvio: falar sobre futebol feminino como pauta, como reivindicação, como um espaço ainda a ser conquistado.
Assisti aos dois primeiros episódios e uma coisa ficou na minha cabeça: o que acontece quando um líder precisa aprender a liderar de novo?
Não estou falando de futebol, disso, Ted Lasso já provou que entende pouco e aprende rápido. Estou falando de pessoas.
Ted construiu sua reputação liderando um vestiário masculino. Agora, pela primeira vez, terá diante de si um grupo de mulheres. E o interessante não é descobrir se ele será capaz de treiná-las. É descobrir se terá a humildade de perceber que não pode simplesmente repetir a fórmula que já conhece.
Porque liderar pessoas talvez seja justamente isso: saber o que funciona, mas ter inteligência para entender quando aquilo já não basta. A série ainda está começando a responder a essa pergunta e talvez seja justamente aí que esteja a graça.
Rebecca Welton, proprietária do clube inglês, não escolheu um homem para comandar mulheres. Escolheu Ted. Escolheu alguém em quem confia. Alguém que sabe construir equipes, desenvolver talentos e criar um ambiente no qual as pessoas possam entregar sua melhor versão.
E há algo poderoso nessa escolha.
Uma mulher em posição de poder não precisa provar sua força escolhendo necessariamente outra mulher. Ela pode escolher a pessoa que considera certa para o desafio.
A diversidade, nesse caso, não está na substituição de um gênero pelo outro. Está na liberdade de escolher sem que o gênero seja o principal critério.
E aqui vale uma reflexão. Em algumas frentes específicas, como o futebol nos Estados Unidos, as mulheres já construíram um protagonismo extraordinário. A seleção feminina americana é a mais vitoriosa da história das Copas do Mundo, com quatro títulos, e também soma cinco medalhas de ouro olímpicas, um recorde que a seleção masculina do país nunca chegou perto de igualar. A liga profissional feminina americana, a NWSL, também vive um momento de forte valorização e crescimento.
Mas seria ingênuo olhar para esses exemplos e concluir que o problema da diversidade está resolvido, pois não está.
O abismo entre onde estamos e onde deveríamos estar continua enorme: no esporte, nas empresas e, especialmente, em setores como o portuário e o logístico. Mas talvez a resposta para esse abismo não seja simplesmente colocar mulheres nos espaços antes ocupados por homens. É preciso ir além.
Diversidade não é trocar quem manda. É garantir que talento e esforço possam definir quem lidera. É investir em educação, capacitação e desenvolvimento. É criar oportunidades reais para que homens e mulheres possam construir suas trajetórias e chegar preparados aos espaços de decisão.
É por isso que a virada de Ted Lasso me parece tão interessante.
A série não está dizendo que um time feminino precisa superar um time masculino. Tampouco que homens precisam abrir mão de seus espaços para que mulheres possam ocupá-los.
Ela está mostrando algo muito mais difícil: Ted leva para o novo vestiário tudo o que aprendeu liderando homens, mas precisa aprender novamente.
Porque liderar não é aplicar uma fórmula pronta. É conhecer as pessoas que estão à sua frente. Entender suas diferenças, reconhecer seus talentos, construir confiança e adaptar-se sem perder aquilo que dá identidade ao líder.
Talvez seja essa a diversidade que realmente transforma equipes. Não aquela que troca um grupo dominante por outro, mas aquela que amplia o repertório de todos.
Homens e mulheres trabalhando juntos, formados e capacitados com a mesma seriedade, ocupando posições de liderança porque estão preparados para elas e não porque pertencem a determinado gênero.
É impossível não pensar no nosso setor ao assistir à série.
No mundo portuário e logístico, ainda temos um enorme caminho a percorrer. Sabemos que faltam mulheres em muitas posições, especialmente nas áreas operacionais e de liderança. Mas também sabemos que não basta abrir portas.
É preciso preparar pessoas para atravessá-las.
E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades que temos como setor: construir trajetórias de desenvolvimento para que a competência possa aparecer onde antes havia apenas barreiras.
Nos últimos anos, essa também foi uma transformação importante na minha própria trajetória à frente do Instituto PORTa. A discussão começou com a necessidade de ampliar a presença feminina no setor e foi amadurecendo para algo maior: formar pessoas, desenvolver lideranças e preparar homens e mulheres para os desafios de uma logística cada vez mais complexa.
No fim, é disso que Ted Lasso fala.
De pessoas. De confiança. De desenvolvimento. De liderança.
E talvez seja justamente por isso que a série continue conquistando tanta gente. Porque liderança nunca foi sobre gênero.
Sempre foi sobre a capacidade de formar pessoas, inspirar confiança, somar diferenças e construir algo maior do que cada indivíduo conseguiria construir sozinho.
Todos os líderes deveriam assistir a Ted Lasso.
E talvez alguns de nós precisemos assistir novamente, desta vez prestando mais atenção à liderança do que ao futebol.
Patrícia Lia Brentano escreve quinzenalmente para o BE News.