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Luiz Dias Guimarães

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Tempo dos imbecis

Saudade do tempo em que o lixo dos nossos pensamentos era depositado aos goles de cerveja nos balcões de padaria. O que fosse de sério, grave e importante, reverberava na Imprensa e nos órgãos de defesa da sociedade. O resto seguia o rumo das garrafas vazias, o que restringia o poder dos idiotas.

Kafka disse que um idiota é só um idiota, muitos idiotas juntos formam um partido. Não acho que tudo se restrinja a grupos políticos hoje em dia, mas é fato que as redes sociais alimentam as massas num processo crescente de idiotização. O filósofo Umberto Eco ponderou que as redes sociais deram voz aos imbecis. E quem não se contenta em ouvir, ganha poder e galga a liderança dos bandos.

Há méritos sim na existência das redes. A revisão da História é um deles. Mas pouco vejo conteúdos de engrandecimento dos indivíduos. Ao contrário, a banalidade domina esse campo em que se formam os exércitos  que seguem os idiotas maiores, os influencers, mecenas na nova profissão, homens e mulheres, alguns vestidos de coaches ou mentores.

A maioria dos influencers sequer se dá ao luxo de estudar algo útil e passa a encantar as massas com danças, corpos, estilos de vida e sugestões nada subliminares de marcas que, cada vez mais, jorram verbas publicitárias, tal o poder dessa gente.

Importante hoje não é o conteúdo, é o que consegue encantar e inebriar com a falsa sensação de felicidade cada vez mais supérflua. Geram seres frágeis, sem convicções fundamentadas, onde o verniz encobre o potencial de cada um. Desastroso é o resultado da vida em sociedade.

Queixamo-nos frequentemente de governantes, políticos em geral e até membros da Justiça. Pudera, até ministros de altas cortes viraram influencers no formato de palestrantes e coaches.

Sou do tempo em que juiz não se via nos bares, delegados não frequentavam colunas sociais, médicos só íam a consultórios, hospitais e o sagrado reduto do lar. Hoje não há médico que bata à porta para debelar uma febre.

Havia uma sacralização dessas profissões que nos despertavam profundo respeito e admiração. Eram profissionais que se realizavam no que faziam em seus recantos, e não me consta que fossem infelizes. Os políticos, particularmente, esses sim andavam nas ruas, mas concentrados em vistoriar obras e acolher problemas que cidadãos lhes apresentavam. O exibicionismo era restrito às inaugurações.

Hoje, ser governante é ser influencer. Mais importante que a qualidade de seus projetos e de suas opiniões é a performance diante de câmeras, para posts que se veem obrigados a fazer, gerando às vezes a dúvida de quanto tempo lhes sobra para governar.

Até graças fazem para engajamento cada vez maior e o resultado é que acabam sendo votados muitas vezes sem real mérito. Esse processo começou com as crianças nas dancinhas do TikTok, agora se espalhou pelos gabinetes.

É importante a presença de líderes nas ruas, no contato mais frequente com os cidadãos. Mas a linguagem acaba determinando um padrão que transforma a todos em meros personagens.

Kafka tinha razão. Um imbecil é só um imbecil. Todos juntos formam uma multidão, mas se há um discurso que os una, viram massa facilmente manipulável.

O discurso sempre foi poderosa arma social. A História registra alguns magistrais. Como o de Martin Luther King, para ficar num exemplo. Mas o valor real do discurso está no seu conteúdo. Afinal, Hitler também falou às multidões, e deu no que deu.

Os meios de comunicação de massa como rádio e tevê, dizia-se nos primórdios tempos, teriam o efeito da agulha hipodérmica, injetando diretamente sua mensagem no receptor, até que se chegou à conclusão que formou a Two-Step Flow, teoria do fluxo de comunicação em duas etapas. A mensagem, diziam os teóricos, é filtrada através dos formadores de opinião, pessoas em quem creditamos cabedal sobre determinado assunto.

Formadores dessa natureza hoje ficaram nas padarias, salvo exceções, e influencers, com ilusório valor, são hoje a própria agulha hipodérmica, e o que injetam é no mínimo placebo, quando não vírus mortais da desinformação e mentira. E nós, idiotas que somos, nos engajamos neste mundo cada vez mais imbecil também.

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