Ter valor não basta. Ele precisa chegar ao mercado
Um porto de primeiro mundo não salva, sozinho, uma logística capenga. Da mesma forma, não basta suar a camisa a vida inteira construindo o seu valor e esperar que o universo o leve até as oportunidades.
Uma das pílulas mais amargas da vida profissional é perceber que fazer um ótimo trabalho, por si só, não garante reconhecimento. Você acumula experiência, bate as metas e constrói uma trajetória super sólida. Faz tudo exatamente como mandava a cartilha. Até que, do nada, vê gente com muito menos bagagem ocupando as cadeiras que pareciam ser o próximo passo natural da sua própria carreira.
A nossa primeira reação é quase sempre procurar o defeito em nós mesmos. Será que falta mais um curso? Uma pós-graduação? Pegar um projeto extra ou simplesmente virar mais algumas noites no escritório? A verdade é que, na maioria das vezes, não falta nada. O que acontece é que você já acumulou um valor imenso, só que ele não está conseguindo atravessar a ponte e chegar aonde deveria.
Outro dia, acompanhando uma discussão sobre a infraestrutura brasileira, fiz uma conexão imediata com isso. O CEO da DP World no Brasil, Fábio Siccherino, comentou que o país precisaria quase dobrar os investimentos no setor para criar corredores comerciais eficientes. O dinheiro até está chegando aos portos, mas a eficiência bate no teto porque as rodovias, ferrovias e os acessos terrestres simplesmente não acompanham o ritmo.
Pense num porto supermoderno, pronto para escoar volumes gigantescos e conectado às grandes rotas globais. Do outro lado, tem um mercado àvido para comprar. Mas, no meio do caminho, existem lacunas e gargalos que travam tudo. A capacidade está toda lá, mas o potencial morre na praia.
É exatamente isso que acontece com muita gente no mercado de trabalho. Vemos profissionais brilhantes e superpreparados vivendo muito abaixo do próprio potencial. São pessoas que viraram referência absoluta para quem se senta ao lado delas, mas que são ilustres desconhecidas da porta do escritório para fora. Executivos que carregaram empresas nas costas, lideraram viradas de chave, superaram crises, mas nunca construíram para os seus próprios nomes a mesma força que deram de presente aos CNPJs por onde passaram.
Vamos ser francos: quando surge uma vaga estratégica, o mercado não banca o detetive para investigar quem é o melhor profissional escondido por aí. Ele trabalha com quem ele conhece, lembra e recebe por indicação. E é aí que muita gente descobre, às vezes tarde demais, que competência e reconhecimento não andam, necessariamente, de mãos dadas.
Entenda, isso não diminui em nada a importância de ser bom no que você faz. O erro fatal é achar que o talento, por gravidade, vai encontrar o seu caminho até o topo. Não vai. Assim como uma carga de soja não chega ao navio só porque a safra foi boa, uma trajetória não vira reputação de mercado só porque você trabalhou direito.
Entre ser bom e ser reconhecido, existe uma infraestrutura. Falando de carreira, essa “rodovia” é pavimentada pelas relações que você nutre, pelas pessoas que conhecem seu trabalho de perto, pelas mesas onde você se senta, pelas ideias que têm a sua assinatura e pela sua habilidade de explicar, com todas as letras, a dor que você resolve e o valor que entrega.
Com as marcas acontece o mesmo. Tem empresa que passa anos aperfeiçoando um produto, só para descobrir que o cliente não vê diferença nenhuma entre ela e o concorrente. Outras gastam rios de dinheiro em marketing, mas entregam uma experiência que é o oposto do que prometeram. O valor até existe ali dentro, mas evapora no trajeto até o consumidor.
Se você é profissional e quer mudar esse jogo, o primeiro passo é parar de se perguntar obsessivamente “o que mais eu preciso aprender?”. Troque por outra pergunta: quanto do que eu já construí é enxergado fora da bolha de quem convive comigo? A resposta costuma doer, mas liberta. Especialmente para quem passou a vida inteira jurando que o trabalho falaria por si só.
Feito isso, é hora de mapear os gargalos. Será falta de visibilidade? Ou talvez você até seja conhecido, mas ninguém sabe muito bem em qual caixinha te colocar? Quem sabe as pessoas saibam o que você faz, mas faltam provas concretas do seu resultado? Ou ainda, sua reputação é impecável, mas restrita a uma turminha pequena demais para o salto que você quer dar agora.
A manutenção muda de acordo com o problema. Para uns, é preciso fazer mais networking. Para outros, é empacotar melhor os resultados que já alcançaram e colocá-los na vitrine. Tem gente que só precisa começar a frequentar novos ambientes. E tem quem precise, urgentemente, aprender a contar a própria história de um jeito atrativo, sem cruzar a linha chata da arrogância.
Para as empresas, a lição de casa é muito parecida. Antes de dobrar a verba de anúncios, vá procurar onde o encanto está quebrando. A promessa do marketing reflete o que o cliente vive na ponta? O atendimento tem o mesmo tom de voz da campanha? A liderança respira os valores da marca? Não adianta pintar a fachada se a estrutura de dentro não se conversa. Precisamos criar rotas desimpedidas para o valor que já temos dentro de casa.
É duro demais olhar para trás, depois de vinte ou trinta anos de trabalho árduo, e perceber que a maior parte da sua genialidade ficou escondida em salas de reunião, restrita a meia dúzia de pessoas que tiveram a sorte de te ver em ação. Competência é o seu maior patrimônio profissional. Mas dinheiro debaixo do colchão não rende; patrimônio que não circula, não trabalha a seu favor.
Um porto de primeiro mundo não salva, sozinho, uma logística capenga. Da mesma forma, não basta suar a camisa a vida inteira construindo o seu valor e esperar que o universo o leve até as oportunidades.
E então, me responda: os caminhos que levam o seu valor até o mercado estão fluindo ou precisam de reforma? Como você enxerga que o seu próprio “gargalo logístico” profissional está impactando os seus próximos passos na carreira?
Clara Laface escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às terças-feiras.