terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

Terras raras: a nova postura das autoridades brasileiras

A convergência entre os poderes Legislativo e Executivo em torno da exploração das terras raras mostra uma mudança de postura do Estado brasileiro frente à nova economia global. Com a posse de 23% das reservas mundiais desses 17 elementos químicos estratégicos, o País ocupa uma posição de privilégio geológico que, no entanto, contrasta com a sua irrelevância no processamento industrial. A mobilização da Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras, liderada pelo senador Nelsinho Trad, e o respaldo do Ministério da Fazenda indicam que a superação da condição de mero exportador de minério bruto tornou-se uma prioridade da agenda de desenvolvimento nacional.

O desafio reside em converter esse potencial em soberania tecnológica. Atualmente, o Brasil exporta commodities minerais e reimporta componentes de alto valor agregado, como ímãs permanentes e semicondutores, cuja produção é dominada pela China. A criação de um marco regulatório específico é a peça fundamental para oferecer a segurança jurídica necessária ao atrair investimentos estimados em bilhões de dólares, permitindo que o País integre a cadeia de valor desde a extração até o beneficiamento final.

É imperativo que o Congresso Nacional e o Governo Federal acelerem a estruturação de uma política industrial dedicada às terras raras. Não basta deter a reserva mineral; é necessário fomentar a instalação de parques de processamento químico e refino, que hoje representam o maior gargalo tecnológico do setor. A proposta de formulação do Plano Nacional de Terras Raras deve contemplar mecanismos de financiamento para empresas que se disponham a processar o material em solo brasileiro, garantindo que o valor gerado permaneça no País sob a forma de empregos qualificados e inovação.

A transição para uma economia de baixo carbono, que depende de motores para carros elétricos e turbinas eólicas, que utilizam esses elementos químicos estratégicos em sua produção, coloca o Brasil em uma janela de oportunidade histórica. A matriz energética limpa do País funciona como um diferencial competitivo, permitindo a produção de minerais críticos com uma pegada de carbono reduzida, atendendo às exigências de sustentabilidade dos mercados europeu e norte-americano.

O avanço deste setor exige, simultaneamente, um rigoroso controle sobre o licenciamento ambiental. Dado que o processamento desses minerais pode envolver rejeitos radioativos, a legislação precisa estabelecer normas de segurança incontestáveis. O desenvolvimento da indústria de terras raras deve ocorrer em parceria com universidades e centros de pesquisa nacionais, garantindo que o domínio tecnológico sobre a separação desses elementos seja internalizado.

Nesse cenário, a diversificação das cadeias de suprimento globais, que hoje buscam alternativas à hegemonia asiática, coloca o Brasil como o parceiro ideal. A união entre a capacidade de mineração, o financiamento estratégico e o compromisso ambiental transformará as terras raras brasileiras no motor de uma nova fase da indústria nacional. O protagonismo internacional não virá da exportação de pedras, mas da capacidade de fabricar e vender o futuro.

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