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Luiz Dias Guimarães

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Texturas borrachosas

“A memória gastronômica é parte da nossa história. Viajar é também se aventurar em novas experiências que incluem o que se prova à mesa. E as surpresas vêm muitas vezes com molho no prato”

Divirto-me com certas expressões que distanciam tanto o mesmo idioma. Na costumeira ronda que faço a jornais portugueses me deparo com artigo a respeito de moelas, que muitos, como eu, não suportam deglutir. Odeio mesmo ‘texturas borrachosas’, como de fato todo e qualquer tipo de miúdos e órgãos animais. Cada um tem suas restrições. Cada um segue seu cardápio, e somos, sim, aquilo que comemos.

A memória gastronômica é parte da nossa história. Viajar é também se aventurar em novas experiências que incluem o que se prova à mesa. E as surpresas vêm muitas vezes com molho no prato.

Trago em mim ótimas e péssimas lembranças. Não sou como um amigo, político de reconhecimento nacional, que um dia, ao me contar sua experiência de consumir cobra em passagem pela China, sentenciou: “Eu sou assim, pôs no meu prato eu como”.

Para mim serpentes nem mortas. Mas não só elas. Às vezes o problema é apenas a maneira como me deparo com a iguaria. Gostava de comer rã, até o dia em que me serviram inteira, não à passarinho, para nunca mais. A imagem daquele prato me lembrava um feto.

Porco eu até consegui superar. Em Portugal e na Espanha lambi os beiços com tenros leitões, menos na noite em que, curioso, entrei na cozinha do afamado restaurante de Barcelona e me deparei com um leitãozinho preparado por inteiro, prestes a derreter no fogo.

Disse das memórias gastronômicas em viagens porque, de fato, são imorredouras. Sinto até hoje o sabor de um filé a roquefor que devorei no Cais de Alcântara. E um bacalhau que se desfazia na minha boca à beira do Ribeira, no Porto.

Mas nem sempre foi assim. Na Cidade do México, confraternizava com amigos numa mesa onde aplacávamos o calor com cerveja, fomos brindados com alguns acepipes cujo aspecto me fez rejeitar. Especialmente depois que o garçom apresentou as iguarias. Eram ovas de formiga, gafanhotos esturricados e larvas de tequila. Só consegui provar aqueles miúdos gafanhotos, que me parecia estar mastigando baratas.

No Japão constatei que a culinária não era exatamente igual e frequente à que me acostumara a consumir no Brasil. Nunca comi tanto macarrão, uma espécie de yaksoba mais aguado. Sushi e sashimi só em ceias especiais, como a de uma noite em Nagasaki quando devorei várias peças até que perguntei que peixes eram aqueles e me responderam: carne de baleia e de tubarão, a primeira esponjosa e a outra ranhosa, como me parecem de fato esses animais.

A experiência gastronômica faz parte sim do turismo. Mas verdadeiramente muitas vezes prefiro uma simples pizza ou até mesmo um misto quente. Certa vez em Paris, fui recebido por um maitre carrancudo que me levou à mesa do fundo e postou-se ao meu lado oferecendo o cardápio que, não bastando estar escrito em francês, continha prato de nomes inventados.

Sem perder tempo e livrar-me do maitre, apontei para uma entrada, rezando que viesse a me agradar. Quando chegou à mesa, eram finas lâminas do que me pareceu ser rim. O maitre aguardava minha reação e pensei que teria de mastigar um pedaço, reservar na bochecha e, assim, que meu guardião se afastasse, discretamente cuspir no guardanapo. Para meu alívio, era simplesmente um carpaccio de berinjela. Ufa!, nada de ‘textura borrachosa’.

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