Transações, capital e financiamento em portos, óleo e gás e navegação
O Tecon Santos 10 mostra como o Brasil reduz o valor de seus próprios ativos. Em discussão desde 2022, o maior projeto de expansão de contêineres de Santos continua preso a mudanças nas regras, disputas entre órgãos públicos e revisões concorrenciais. Esse atraso tem preço: adia capacidade, encarece o financiamento e obriga investidores a incluir o risco institucional em suas propostas. A burocracia brasileira, fonte de infindáveis regulações, tornou-se um fator de imprevisibilidade e reduz a eficiência do país na atração de capital. Enquanto o processo se prolonga, os grandes armadores europeus ampliam sua presença em rotas e terminais. Correndo por fora, a ICTSI amplia sua presença no mercado brasileiro. Depois de avançar sobre Aratu, integra logística e operação portuária no Rio de Janeiro e tem capital e experiência para disputar o STS 10. A Petrobras oferece outro sinal: após bilhões destinados à política de conteúdo local, negocia uma nova plataforma com um grupo malaio enquanto estaleiros brasileiros permanecem ociosos. Ao sul, a Argentina transforma Vaca Muerta em plataforma de expansão regional. O Brasil tem mercado, carga, petróleo e gás, mas converte mal essas vantagens em investimento. Sem decisões rápidas, coordenação pública e regras estáveis, o capital será aplicado onde o retorno dependa menos da burocracia.
COMPRARAM
- Cade mantém sob exame a configuração do maior leilão portuário do Brasil
O Tribunal do Cade manteve em 23 de setembro prazo determinado para as operações alternativas que reorganizariam o controle da Brasil Terminal Portuário, no Porto de Santos. A APM Terminals, do grupo Maersk, e a Terminal Investment Limited, ligada à MSC, detêm 50% cada. Se um dos grupos vencer o Tecon Santos 10, o desenho prevê a venda de sua metade na BTP ao outro sócio. O Cade determinou nova instrução depois do leilão para examinar os vínculos remanescentes e a concentração resultante. Com R$ 6,45 bilhões de investimento previsto, o certame definirá capacidade e concorrência no principal porto brasileiro.
- ICTSI assume 100% da iTracker e amplia posição no Rio
A ICTSI, operadora portuária filipina controlada pela família Razon, comprou os 30% restantes da iTracker Logística Inteligente e passou a deter 100% da empresa. A vendedora foi a Tracker Logística, sócia brasileira desde a formação da sociedade, em 2020. O preço não foi divulgado; a ICTSI informou apenas que o pagamento em dinheiro é inferior a 10% de seu patrimônio líquido consolidado. A iTracker opera depósito de contêineres vazios, armazenagem e transporte rodoviário e ferroviário no Rio de Janeiro. A aquisição integra a expansão do grupo no país, que inclui R$ 948 milhões no Rio Brasil Terminal até 2029.
- Revisão da compra da ZIM importa para a concorrência no Brasil
A autoridade israelense responsável pela ação especial da ZIM encerrou em 29 de setembro a análise da estrutura original para a compra da armadora pela Hapag-Lloyd por US$ 35 por ação, ou cerca de US$ 4,2 bilhões. Qualquer desenho revisto terá de reiniciar a análise e receber antes a aprovação dos conselhos da ZIM, da Hapag-Lloyd e da FIMI. O prazo para novo pedido termina em 6 de outubro. Para o Brasil, onde o transporte marítimo de longo curso depende de poucos grandes grupos, uma eventual combinação interessa pelo possível efeito sobre oferta de capacidade, frequência de serviços e poder de negociação dos embarcadores.
INVESTIRAM
- Petrobras negocia P-88 de US$ 2,297 bilhões sem estaleiro brasileiro
A Petrobras abriu negociação comercial com a Yinson Production depois de considerar tecnicamente válida a proposta de US$ 2,297 bilhões para a P-88, destinada ao campo de Albacora, na Bacia de Campos. A contratação ainda não foi concluída. A unidade processará 120 mil barris de petróleo e 4,3 milhões de metros cúbicos de gás por dia, com primeiro óleo previsto para depois de 2031. O fornecedor projetará, construirá e operará a plataforma antes de transferi-la à Petrobras. Nenhum estaleiro brasileiro apresentou proposta. O investimento amplia a produção nacional, mas expõe a perda de capacidade local para disputar grandes encomendas offshore.
- Encomendas equivalem a 45% da frota e podem alterar fretes no Brasil
A carteira mundial de encomendas de porta-contêineres alcançou 1.925 navios e 15,6 milhões de TEU em 22 de setembro, o equivalente a 45% da frota em operação e a maior proporção desde 2009. Um ano antes, estava em 31,7%. A Maersk confirmou 26 novos navios de 18.600 TEU, cerca de 484 mil TEU, para 2029 e 2030. Para o Brasil, a expansão pode liberar capacidade e aliviar fretes no médio prazo, mas o efeito não será automático: os maiores navios se concentram nas rotas principais, e a oferta à costa brasileira dependerá da realocação da frota, da demanda e da capacidade dos terminais nacionais.
- CMA CGM e MSC reforçam a concentração da construção naval na China
Fontes de corretagem atribuem à CMA CGM 12 porta-contêineres de 24.000 TEU no estaleiro chinês Yangzijiang, com preços estimados entre US$ 245 milhões e US$ 250 milhões por navio. A armadora ainda não confirmou publicamente a encomenda. A MSC, segundo fontes do mercado, contratou seis unidades de 21.700 TEU na Zhoushan Changhong por cerca de US$ 225 milhões cada, ou US$ 1,35 bilhão. Para o Brasil, os contratos reforçam duas tendências: a concentração da construção de grandes navios na Ásia e a dependência de decisões de frota tomadas fora do país. Recuperar escala industrial exigirá encomenda recorrente, financiamento e previsibilidade.
FINANCIARAM
- Argentina LNG amplia a pressão competitiva sobre o gás no Brasil
O Exim Bank dos Estados Unidos e a YPF assinaram um term sheet para avaliar até US$ 6 bilhões no Argentina LNG. A proposta, sujeita à aprovação do conselho do banco, cobre bens e serviços americanos. YPF, Eni e XRG projetam duas unidades flutuantes de liquefação, com 12 milhões de toneladas anuais a partir de 2031. Para o Brasil, o movimento importa antes mesmo das exportações de GNL: o gás de Vaca Muerta já chegou em pequeno volume pelo gasoduto boliviano. O avanço argentino aumenta a pressão por preço sobre o gás nacional, o gás da União e o biometano. O leilão estruturante previsto para 2027 deverá medir essa disputa.
CONTRATARAM
- ANP contrata a B3 para modernizar os leilões brasileiros
A Agência Nacional do Petróleo contratou a B3 por cinco anos e R$ 32,9 milhões para prestar assessoria técnica e apoio operacional às licitações de exploração e produção no Brasil. A ANP continuará responsável pelas áreas ofertadas, pelos editais, pela habilitação, pelo julgamento e pela homologação. A participação da B3 não começa de imediato: será preciso desenvolver a plataforma digital e adaptar os editais. O contrato alcança as ofertas permanentes de concessão e de partilha. A aposta é reduzir fricção operacional e ampliar a capacidade do país de atrair capital para novas áreas.
- Acordo pode liberar R$ 416,9 milhões ao Porto de Santos
A Autoridade Portuária de Santos e o Centronave, que representa armadores de contêineres, aprovaram acordo para encerrar o litígio sobre a tarifa de acesso aquaviário iniciado em 2022. Os depósitos judiciais somavam R$ 416,9 milhões em 30 de junho de 2026, ante R$ 103 milhões em 2022. O ajuste estabelece descontos por frequência e modalidade de navegação, aplicáveis a todos os usuários nas mesmas condições. O dinheiro permanece bloqueado e depende de homologação judicial. Para o maior porto do Brasil, o acordo reduz incerteza tarifária e pode devolver recursos relevantes à infraestrutura.
ENTRARAM E SAÍRAM
- Compra da Euroports oferece referência ao capital portuário no Brasil
A A.P. Moller Capital assinou a compra de 53,35% da controladora da Euroports, rede de 50 terminais na Europa e na China. O preço depende do Ebitda de 2026 e o fechamento, de aprovações. Sem ativos brasileiros, o negócio confirma a procura por plataformas portuárias com escala e potencial de consolidação.