Tudo passa. A forma como tratamos as pessoas permanece
Nem toda urgência é definitiva. Nem todo problema precisa ser carregado sozinho. Nem um momento difícil resume uma trajetória inteira.
Minha avó costumava dizer uma frase simples, que atravessou gerações na minha família. Minha mãe repetiu para mim inúmeras vezes, nos mais diferentes momentos da vida: “Tudo passa”.
Quando somos mais jovens, talvez seja difícil compreender a dimensão dessas duas palavras. Com o tempo, elas ganham outro significado. Percebemos que os momentos bons passam, mas os difíceis também. Aquilo que hoje parece enorme, amanhã, pode encontrar seu devido lugar. Crises terminam, caminhos se abrem e nós também mudamos.
Tenho pensado muito nessa frase diante de um tema que ganhou ainda mais espaço no mundo corporativo: a saúde mental no trabalho.
A discussão em torno da NR-1 e da inclusão dos fatores de riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais trouxe para o centro da agenda questões que, durante muito tempo, foram tratadas como individuais. Sobrecarga, pressão excessiva, conflitos, assédio, falta de autonomia e ambientes pouco saudáveis também dizem respeito à forma como as organizações trabalham e se relacionam com as pessoas.
É um avanço necessário. Mas nenhuma norma, sozinha, será capaz de construir um ambiente de trabalho emocionalmente saudável.
Esse é um desafio de cultura e, sobretudo, de liderança.
Vivemos sob o imperativo da urgência. Precisamos entregar mais, responder mais rápido, acompanhar tudo, estar disponíveis e tomar decisões em um cenário de transformações permanentes. A tecnologia facilitou enormemente nossa vida, mas também tornou cada vez mais tênue a fronteira entre estar conectado e estar disponível o tempo todo.
O desafio não é construir empresas sem pressão. Metas, prazos, responsabilidades e cobrança por resultados fazem parte do trabalho. O verdadeiro desafio é construir organizações capazes de gerar resultados sem transformar a pressão permanente em cultura.
É curioso que, diante de uma questão tão contemporânea, eu encontre sentido em uma frase que escuto desde a infância.
Tudo passa.
Isso não significa minimizar um problema, ignorar um sofrimento ou esperar passivamente que as coisas se resolvam. Significa entender que nem tudo precisa ser resolvido no mesmo minuto. Que um momento difícil não determina necessariamente o que virá depois. E que reconhecer limites e compartilhar uma preocupação também são formas de seguir em frente.
Essa perspectiva vale também para as relações profissionais.
A questão não é eliminar desafios ou cobranças, mas perceber quando a pressão que impulsiona começa a se transformar em sobrecarga. Cobrar resultados e cuidar das pessoas não são objetivos opostos. O que muda é a forma como a liderança estabelece prioridades, dá clareza, oferece suporte e constrói um ambiente em que as pessoas possam desempenhar bem sem precisar adoecer para entregar.
Um bom líder não precisa ter todas as respostas. Precisa saber ouvir, estabelecer prioridades, dar clareza, construir relações de confiança e perceber que, por trás de cada cargo, existe uma pessoa.
Alguém que também vive dúvidas, mudanças, perdas, alegrias e preocupações que não aparecem em uma planilha ou em uma reunião de resultados.
Da mesma forma, saúde mental não pode ser uma pauta restrita a campanhas, palestras ou programas de bem-estar. Essas iniciativas têm valor, mas perdem força quando não encontram coerência na rotina.
Não adianta defender equilíbrio e, ao mesmo tempo, normalizar uma cultura de urgência permanente. Não adianta falar em ambiente seguro e tolerar comportamentos abusivos. Incentivar o diálogo e, ao mesmo tempo, construir uma cultura em que demonstrar vulnerabilidade seja interpretado como falta de competência.
É nesse aspecto que a discussão sobre a NR-1 pode deixar um legado importante. Ela nos convida a olhar para a saúde mental não apenas como uma questão do indivíduo, mas também como uma responsabilidade das organizações.
Isso envolve prevenção, escuta, indicadores, processos e políticas. Mas envolve algo que nenhuma norma consegue determinar por completo: humanidade nas relações.
Ao longo de uma carreira, todos nós atravessamos períodos difíceis. Uma mudança de liderança, uma reestruturação, um projeto que não deu certo, uma pressão inesperada por resultados ou simplesmente uma questão pessoal que, inevitavelmente, entrou conosco pela porta do escritório.
Nessas horas, faz diferença encontrar um ambiente em que seja possível conversar, ser ouvido e colocar as coisas em perspectiva.
E é justamente aí que volto à minha avó.
Tudo passa.
Minha avó dizia para minha mãe. Minha mãe sempre disse para mim. Hoje percebo que essas duas palavras carregam uma sabedoria que também pode ser levada para o mundo do trabalho. Não como conformismo, mas como perspectiva. Nem toda urgência é definitiva. Nem todo problema precisa ser carregado sozinho. Nem um momento difícil resume uma trajetória inteira.
Em um mundo que nos cobra velocidade, produtividade e disponibilidade quase permanentes, talvez uma das formas mais importantes de cuidar das pessoas seja justamente lembrar que elas são pessoas.
Empresas precisam entregar resultados. Metas precisam ser cumpridas. Transformações precisam acontecer. Mas a maneira como percorremos esse caminho importa tanto quanto o destino. Porque metas mudam, ciclos terminam e crises passam. A forma como tratamos as pessoas enquanto tudo isso acontece, permanece.
Béatrice de Toledo Dupuy e demais integrantes do Conselho ESG dos fóruns Brasil Export escrevem semanalmente, sempre às sextas-feiras, para o BE News.