Um delicado equilíbrio aeroportuário
A gestão do sistema aeroportuário do Rio de Janeiro (RJ) retorna ao centro do debate federativo com o anúncio de que o Ministério de Portos e Aeroportos discutirá, até o dia 30 deste mês, o reajuste do teto operacional do Aeroporto Santos Dumont. O equilíbrio de forças entre o terminal central e o Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão) tem sido o pilar de uma política de recuperação da conectividade da capital fluminense, baseada em um teto de 6,5 milhões de passageiros anuais para o Santos Dumont, que agora se pretende elevar para cerca de 8 milhões. A discussão com a prefeitura carioca, em meio a resistências locais e pressões regulatórias, exige cautela técnica para que o sucesso do modelo de reequilíbrio não seja precocemente comprometido.
Os indicadores de 2025 demonstram a eficácia da estratégia de concentração de voos. Sob a vigência das restrições, o Galeão mais que dobrou sua movimentação, saltando de 6,8 milhões para 16,1 milhões de passageiros, enquanto a movimentação total nos aeroportos do Rio de Janeiro experimentou um robusto crescimento de 23%. Esse cenário permitiu que o principal hub internacional do estado recuperasse sua viabilidade operacional, fortalecendo a malha aérea de longo curso e a integração logística da região.
É imperativo defender a manutenção de uma governança aeroportuária que priorize o papel estratégico do Galeão como porta de entrada internacional e hub de conexões. O sistema de restrição às operações no Santos Dumont não deve ser encarado como uma medida punitiva a um terminal, mas como um instrumento de planejamento urbano e logístico necessário para evitar a canibalização de ativos. O sucesso da política bem-sucedida implementada desde 2024 reside, justamente, na capacidade de direcionar o fluxo de passageiros de forma a maximizar o uso da infraestrutura de grande porte disponível na Ilha do Governador.
Qualquer alteração no limite anual de passageiros do Santos Dumont, mesmo o incremento proposto de 1,5 milhão de usuários, deve ser precedido por estudos rigorosos de impacto. A ampliação do teto para 8 milhões de passageiros só se justifica se houver a garantia absoluta de que não haverá retrocesso na recuperação do Galeão. O diálogo com a Prefeitura do Rio de Janeiro é o ambiente adequado para alinhar as expectativas de mobilidade urbana com as necessidades de desenvolvimento econômico e turístico do estado, evitando que rumores de mudanças regulatórias gerem insegurança ao mercado aéreo.
As autoridades devem levar em conta que o Rio de Janeiro é um destino global cujas portas de entrada precisam operar em sinergia. O fortalecimento do Galeão é, em última análise, o fortalecimento da economia do Rio. Garantir que o aeroporto internacional continue sua trajetória de crescimento é o passo fundamental para consolidar a cidade como o principal centro de conexões do Atlântico Sul, respeitando a vocação regional do Santos Dumont sem permitir que a saturação deste último prejudique o potencial sistêmico do primeiro.