terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

Um porto à frente da rede

A inauguração da nova instalação da APM Terminals no Porto de Suape (PE), nesta sexta-feira, é mais do que a entrada em operação de um investimento de R$ 1,6 bilhão. É a apresentação, em escala real, de um modelo operacional que até recentemente parecia distante da realidade portuária brasileira: o primeiro terminal de contêineres totalmente eletrificado da América Latina, com pátio e cais operados por equipamentos de última geração movidos a energia limpa. O simbolismo é forte. Mas a celebração não deve obscurecer a pergunta que o próprio empreendimento coloca ao País: de onde virá a energia que sustentará terminais como este e os muitos outros que precisarão segui-lo, em todas as regiões do Brasil?

A resposta não é trivial. O Brasil tem uma das matrizes de geração de energia mais limpas do mundo, com forte presença hidrelétrica, eólica e solar. O problema não está, majoritariamente, na geração. Está na transmissão. A energia limpa gerada no Nordeste, região com os melhores ventos e radiação solar do País, frequentemente não consegue chegar com eficiência aos centros de consumo. Operações industriais e portuárias de alta demanda enfrentam restrições devido à capacidade da rede local, justamente onde mais precisam de fornecimento estável e de qualidade. Eletrificar um terminal portuário não é apenas trocar guindastes a diesel por guindastes elétricos. É garantir que a subestação próxima, as linhas de transmissão e o sistema de distribuição regional suportem picos de demanda compatíveis com a operação de pátio e cais em tempo integral.

Suape tem vantagens que nem todo porto brasileiro compartilha: Pernambuco está inserido numa região com forte geração eólica e solar e conta com infraestrutura de transmissão relativamente mais desenvolvida do que em áreas mais remotas da Amazônia ou do interior do Centro-Oeste. Mas o exemplo de Suape cria um padrão que o setor portuário brasileiro, e o Governo Federal, precisarão replicar. E a replicabilidade é exatamente onde a fragilidade da rede nacional de transmissão se torna um obstáculo concreto. Não basta um porto decidir eletrificar suas operações; é preciso que o sistema elétrico ao seu redor tenha capacidade de transmissão e distribuição compatível com essa decisão, sob pena de o investimento em equipamentos elétricos resultar em geradores a diesel operando como backup, o que anularia o ganho ambiental que a iniciativa pretende representar.

O BE News destaca que o caso de Suape deveria funcionar como um gatilho para uma discussão que o Brasil tem postergado: o planejamento da expansão da rede de transmissão como parte integrante do planejamento de infraestrutura logística, não como agenda paralela e isolada do setor energético. Os leilões de transmissão conduzidos pela Aneel têm avançado, mas o ritmo de expansão da malha de linhas de alta tensão ainda não acompanha a velocidade com que portos, ferrovias e polos industriais vêm anunciando planos de eletrificação. Um país que pretende ser protagonista na transição energética global precisa de uma rede que sustente essa transição onde a atividade econômica de fato acontece: nos portos, nos terminais intermodais, nos polos industriais do interior.

A iniciativa da APM Terminals merece o reconhecimento que recebe nesta sexta-feira. Mas o verdadeiro teste não está em Suape. Está em saber se o Brasil conseguirá, nos próximos anos, levar uma capacidade de transmissão equivalente para os portos do Norte, para os terminais ferroviários do Centro-Oeste e para os polos logísticos que ainda dependem de matrizes energéticas mais sujas e instáveis. A descarbonização da infraestrutura de transportes brasileira não será definida pelo melhor terminal do País, mas pela capacidade da rede elétrica de sustentar o pior. É essa lacuna que precisa entrar, com urgência, na agenda de planejamento energético nacional.

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