terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

Um questão de conectividade em Santos (SP)

O Porto de Santos iniciou, na semana passada, a instalação de uma rede privativa 5G, infraestrutura de conectividade de baixíssima latência e alta capacidade que é, hoje, o pré-requisito técnico para automação industrial em escala, operação remota de equipamentos e monitoramento em tempo real de fluxos de carga, embarcações e infraestrutura física. O projeto Porto de Santos Conecta, viabilizado por convênio com a Fundação Parque Tecnológico Itaipu, prevê R$ 31 milhões em três anos para cobrir áreas sob responsabilidade da Autoridade Portuária de Santos. É um investimento modesto para a escala do maior complexo portuário da América Latina, e pode ser transformador, dependendo do que a APS e os operadores do porto decidirem fazer com a capacidade que a rede vai oferecer.

O contexto que torna esse investimento estratégico vai além da conectividade em si. O 5G é a camada de conectividade que habilita essas tecnologias: guindastes operados remotamente a partir de centros de controle, câmeras de alta resolução monitorando berços e pátios em tempo real, sensores que reportam a condição estrutural de cais e equipamentos antes que a falha ocorra, e sistemas de gestão de tráfego aquaviário integrados com as operações terrestres dos terminais. Sem rede com capacidade, latência e confiabilidade adequadas, essas aplicações ou não funcionam ou funcionam de forma degradada. O 5G resolve o gargalo de conectividade que impedia o avanço dessas soluções nas áreas sob gestão da APS.

O modelo de convênio com a Fundação Parque Tecnológico Itaipu é relevante porque introduz no projeto uma parceria com instituição especializada em inovação tecnológica aplicada, o que eleva as chances de que a rede seja usada para desenvolvimento de soluções além das aplicações imediatas de conectividade. O Parque Tecnológico Itaipu tem histórico de projetos de cidades inteligentes, gestão de energia e mobilidade que, traduzidos para o ambiente portuário, podem produzir aplicações que os terminais privados individualmente não teriam incentivo de desenvolver, como sistemas de otimização de fluxo do complexo como um todo, coordenação entre terminais para reduzir o tempo de espera de navios e integração dos dados de operação portuária com os sistemas de controle aduaneiro e de segurança.

O valor do 5G no Porto de Santos dependerá de decisões que a APS precisa tomar antes que a rede esteja totalmente instalada: quais aplicações serão priorizadas, quais terminais arrendatários terão acesso à infraestrutura e em que condições, como os dados gerados pela rede serão compartilhados com os órgãos de fiscalização e segurança que operam no complexo, e como pequenos operadores e prestadores de serviço que não têm capacidade de desenvolver soluções proprietárias poderão acessar a conectividade de forma competitiva. Rede privativa 5G que funciona apenas para os grandes arrendatários amplia a vantagem competitiva de quem já é grande; rede que se torna plataforma aberta de inovação portuária distribui o benefício por toda a cadeia que opera em Santos.

O Porto de Santos recebeu, nas últimas semanas, um conjunto de investimentos e anúncios que, lidos em conjunto, descrevem um complexo em aceleração: o contrato de dragagem de aprofundamento do canal, o sistema VTMIS de monitoramento de tráfego aquaviário, o programa Porto + Seguro com câmeras e inteligência artificial, a eletrificação progressiva do Tecon Santos e, agora, a rede 5G. Cada um desses projetos é correto individualmente. O que o Porto de Santos ainda não tem é a arquitetura digital que integre todos esses sistemas numa plataforma de gestão unificada, onde o dado do VTMIS conversa com o dado das câmeras de segurança, que conversa com o dado dos sensores dos guindastes, que alimenta o sistema de agendamento de atracação, que informa o fluxo de caminhões no acesso rodoviário. O 5G é a infraestrutura que torna essa integração tecnicamente possível. Fazer com que ela aconteça de fato é a decisão de gestão que nenhum cabo de fibra óptica toma sozinho.

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