terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Luiz Dias Guimarães

Clique para ver mais

Articulista

Um ser doente

“Sou contaminado por falsas versões dos que me lideram e questionáveis conselhos dos que, ao me venderem conforto, sacam-me likes como quem toma dinheiro. E sem perceber, dou as costas aos que, de fato, precisariam de um like em forma de sorriso ou ajuda na verdadeira rua, não na encantadora avenida onde circula o zumbi que hoje sou”

Vivo hoje a mitologia digital. Sempre soube que eu não me bastava e busquei o que transcendesse minha dimensão na religião e no governo da vida coletiva. Com fé no que minha razão não alcançava e crença no que poderia transformar os meus dias.

Os meios de comunicação, especialmente rádio e tevê, criaram figuras olimpianas. Notáveis líderes, artistas de talento e mentes dotadas de particular conhecimento se destacaram nesse universo. E como o real não me basta, flutuei feito uma folha na ficção da literatura e do cinema como cânfora a alimentar meu imaginário e meus sonhos.

Era bom sentir-me Tarzan, Batman e toda a família de super heróis capazes do que me era impossível. Sabia que tudo era irreal, ainda que desse prazer. Mas eu precisava extravasar a volúpia do meu desejo de ser maior. Com a fantasia liberava gases da minha panela de pressão. E então absorvia a anomia dos dias. 

Vivia com um pé no real e outro no mitológico. Até que surgiu a internet, que me conectou devassadamente com o mundo. E me fez acreditar em heróis com pés de barro, em falsos profetas, em pregadores de ilusões. Também em influenciadores da minha vida que, sem atributos quaisquer, tanto detêm minha atenção.

A mitologia grega era mais rica, havia um sincretismo entre o sobrenatural e profundos valores que me faziam refletir. A internet hoje preenche o vazio existencial. Preenche o espaço com o supérfluo, o superficial, o ilusório, a mentira. Já não sei o que é real.  Mergulho no espaço que ironicamente parece ligar-me com o mundo, mas me isola do real.

O universo que hoje frequento são quimeras da vida que um dia vivi. A falsa e a fugaz beleza me iludem. Sem me dar conta, sou formado convictamente com retalhos de ‘verdades’ que me dão um poder que não tenho. 

Viciado nesse carrossel, perco-me e me distancio de mim mesmo. Meus ídolos só possuem duas dimensões, são belos, simpáticos e convincentes. Meus amigos são aqueles que compartilham os posts dos que admiro, medíocres influenciadores, toscos arautos do desfazimento humano. Torno-me um smart ser, ao trocar meus olhos de enxergar o real por uma janela que cabe na palma da minha mão. 

Sou contaminado por falsas versões dos que me lideram e questionáveis conselhos dos que, ao me venderem conforto, sacam-me likes como quem toma dinheiro. E sem perceber, dou as costas aos que, de fato, precisariam de um like em forma de sorriso ou ajuda na verdadeira rua, não na encantadora avenida onde circula o zumbi que hoje sou.

E então, querendo me encontrar nessa frágil existência, sem perceber que vivo um ‘brainrot’, pois apodreci o meu cérebro, vejo que não sei mais sair e festejar na praça, no bar ou na escola, com outros seres, estes sim, de três dimensões.

Por isso, me transformo num ‘therian’, identificado com os animais, e viro um cachorro, escondo minha face com orelhas e focinho, e passo a andar de quatro. Em casa, compartilho meu prazer com uma androide de borracha importada da China, e satisfaço a necessidade de exercitar o afeto e a proteção com um bebê reborn.

Ah, em que triste ser eu me transformei.

Compartilhe:
TAGS

Leia também