Uma importante lição da Codeba
A Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba) cedeu uma área de 710 metros quadrados no Porto de Salvador (BA), para que o Senai Cimatec, um dos principais polos de educação e tecnologia do Nordeste, implante um laboratório e o Centro de Controle do Parque de Testes Subaquático da Baía de Todos-os-Santos. O espaço receberá pesquisas em robótica submarina, projetos para a indústria offshore e o curso de pós-graduação em Engenharia Portuária e Economia Azul. O acordo foi assinado durante o Fórum Náutico Internacional da Associação Náutica da Bahia (ANB), na semana passada, e envolve também programas de engenharia naval e náutica e ações de cooperação com a Marinha do Brasil. A afirmação do presidente da Codeba, Antonio Gobbo, de que “poucos países dispõem deste tipo de infraestrutura” não é exagero diplomático. Parques de testes subaquáticos dedicados à robótica offshore existem em número limitado no mundo, e nenhum no Brasil antes desta iniciativa. O que está sendo construído em Salvador tem ambição real.
O contexto que torna essa parceria estratégica vai além da robótica como tecnologia. O Brasil opera uma das maiores e mais sofisticadas indústrias de exploração de petróleo em águas profundas do mundo. O pré-sal, que responde por cerca de 80% da produção da Petrobras, está em lâminas d’água que chegam a 3.000 metros. A operação e a manutenção de equipamentos a essas profundidades dependem de veículos operados remotamente, de sistemas de inspeção subaquática e de robótica de precisão que o Brasil importa em sua maior parte. Cada ROV, o Remote Operated Vehicle, que a Petrobras usa para inspecionar um duto submarino no pré-sal, cada sistema de manifold que precisa de manutenção a 2.000 metros, cada umbilical que conecta a plataforma ao fundo do mar são uma oportunidade de conteúdo nacional que o País não capturou de forma sistemática por falta exatamente do que o Cimatec se propõe a construir: infraestrutura de teste e desenvolvimento de tecnologia submarina em ambiente real.
A descoberta de petróleo no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, anunciada em agosto, adiciona urgência à agenda. A Margem Equatorial, que a Petrobras agora explora com entusiasmo renovado após a confirmação de hidrocarbonetos, está em lâminas d’água comparáveis às do pré-sal e em ambiente marinho com características distintas, com corais de profundidade, sedimentação diferente, correntes específicas da foz do Amazonas. Desenvolver a tecnologia submarina necessária para operar nesse ambiente com segurança e eficiência exige pesquisa aplicada em condições reais que um parque de testes subaquático pode oferecer. O Brasil que quer explorar a Margem Equatorial com protagonismo industrial, não apenas como exportador de petróleo bruto, precisa de centros como o do Cimatec.
O valor da parceria Codeba-Cimatec vai além da área cedida e dos projetos iniciais previstos. Ele está na lógica que a parceria institui: porto como espaço de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, e não apenas de movimentação de carga. Essa lógica, que os portos de Roterdã, Singapura e Hamburg aplicam há décadas com clusters de inovação marítima que combinam operadores portuários, universidades, startups e indústria naval, ainda é exceção no Brasil, onde portos são tradicionalmente concebidos como infraestrutura operacional sem função de ecossistema de inovação. O Centro Nacional de Excelência Portuária previsto no acordo, com foco em formação técnica e conhecimento especializado, e a pós-graduação em Engenharia Portuária e Economia Azul são os elementos que transformam o acordo de cessão de área em projeto de longo prazo com capacidade de reter e formar talentos, condição necessária para que qualquer ecossistema de inovação produza resultado além dos projetos iniciais.
A Economia Azul, conceito que reúne pesca, aquicultura, turismo costeiro, energia offshore, mineração submarina, biotecnologia marinha e transporte marítimo, é uma das fronteiras econômicas mais promissoras das próximas décadas para um país com 8.500 quilômetros de costa, a maior zona econômica exclusiva da América Latina e recursos marinhos ainda largamente subexplorados. O Brasil tem debatido essa agenda em documentos e conferências há anos. Esse projeto do Cimatec é a primeira iniciativa que converte o debate em infraestrutura física com endereço, equipamento e curso de pós-graduação. Que a Codeba, a Petrobras, o Ministério de Ciência e Tecnologia e os demais atores que precisarão financiar as etapas seguintes tratem o que foi assinado em Salvador esta semana como ponto de partida, não como resultado final.