Uma nova classe está surgindo: a dos inúteis (?!)
(Harari) afirma que o ganho crescente de eficiência trazido pelos algoritmos e máquinas, capazes desde dirigir veículos até fazer diagnósticos médicos, pode levar à substituição em massa da mão de obra, inclusive as altamente qualificadas.
Yuval Harari baseia suas obras, como Sapiens: Uma Breve História da Humanidade (de 2011, que vendeu cerca de 25 milhões de exemplares) e Homo Deus, Uma Breve História do Amanhã (de 2015) na crença de que o ser humano é guiado pelo que ele chama de “ficções coletivas”.
Nome estranho que ele usa para designar entidades que existem apenas porque a humanidade acredita, em conjunto, que elas existem, funcionam e são necessárias. Nessa definição, estão incluídos o dinheiro, as nações e as religiões, por exemplo. Percebe o tamanho?
Com esses argumentos, Harari fala sobre sociedade, política e tecnologia com líderes mundiais e CEO’s de grandes organizações. Ultimamente, porém, tem-se dedicado a falar de um tema novo: a urgência em regular globalmente a Inteligência Artificial e seus efeitos.
Afirma que o ganho crescente de eficiência trazido pelos algoritmos e máquinas, capazes desde dirigir veículos até fazer diagnósticos médicos, pode levar à substituição em massa da mão de obra, inclusive as altamente qualificadas.
Enorme desafio, não só o de compreender se isso ocorrerá de verdade, ou não, mas principalmente de nos prepararmos para dar renda e dignidade para todos que ficarem fora do mercado tradicional de trabalho, a “classe inútil” a qual ele se refere.
Mais do que tudo, será necessário dar propósito a essas pessoas. Imagine o significado e os graves efeitos de ter uma parte da população, literalmente, desocupada.
Uma leitura rápida, porém incompleta, concluiria que esse fenômeno não é uma novidade na história recente. Você deve lembrar que há poucas décadas, esse mesmo temor foi causado pelas calculadoras eletrônicas e pelo computador pessoal.
O que muda agora, com a utilização massiva da Inteligência Artificial?
A VELOCIDADE! A automação chegará mais rápido do que a qualificação.
Haverá tempo para reacomodar em novas atribuições aqueles cujas atividades forem substituídas?
Usando uma frase de Yuval: “No Século XXI, o grande desafio não será evitar a exploração, mas evitar a (própria) irrelevância”.
É algo que se vê em terminais chineses em Xangai (Yangshan – Fase IV), Guangzhou (Nansha) e Tianjin (Tianjin Port), bons exemplos do nível de automação já presente nas operações portuárias. No Ocidente? Los Angeles, Roterdã, Hamburgo. Mesmo em nosso Brasil, em Santos, alguns terminais já começam a trilhar esse caminho.
Mais engenheiros de dados e menos caminhoneiros.
No setor de Logística, como um todo, a eficiência no controle de estoques, na roteirização de entregas e na manutenção preditiva de frotas e equipamentos é um exemplo de que algo está mudando para melhor, com força e rapidez. Ou você ainda dúvida da expressão “chegará amanhã”, que aparece como opção ao final de suas compras no mercado virtual?
Setores como o da Aviação e o aeroportuário, com ambientes controlados e altamente padronizados, são campo ainda mais fértil para ações de automatização sobre os processos de trabalho. Tarefas repetitivas e de baixa complexidade são cada vez mais realizadas por totens, scanners e sensores.
Mais analistas de T.I. e menos agentes de balcão.
Mineração, Agronegócio e Energia são setores econômicos que usam mão de obra de forma intensiva, o que fará com que os efeitos mais profundos da I.A./automação sejam sentidos um pouco mais tarde. Mas não estão imunes. Caminhões autônomos, drones e satélites/geoprocessamento já deslocam mão de obra tradicional para funções digitais. O “homem do campo” trabalhará em outro ambiente.
Em todos os setores será necessário – em maior ou menor proporção – investir de forma intensa e rápida em requalificação da mão de obra operacional. Mas não só dela.
As relações de trabalho entre líderes e liderados serão profundamente alteradas, afinal trataremos com um contingente menor de pessoas, mais qualificadas, provavelmente trabalhando em locais remotos. O novo líder tem que ser capaz de atuar à distância e aliar propósito humano com eficiência digital.
Como manteremos aquecido e funcionando o bom e velho espírito de Equipe? Como reagirão os sindicatos?
Como sociedade, não escaparemos de discutir, planejar e implantar políticas públicas que integrem tecnologia com dignidade social.
Tempos de mudanças rápidas e intensas costumam confrontar as novas realidades que teimam em existir, com a legislação e jurisprudência existentes. Essas habitualmente levam mais tempo para adaptar-se a novos tempos. É da sua natureza aguardar a acomodação final de cada tema para criar, rever e utilizar novas leis. Fica no ar – nesse hiato de tempo – uma certa sensação de insegurança jurídica. E o risco que isso traz. Os setores em que atuamos possuem regras de concessão, marcos regulatórios e processos de licenciamento que precisam de segurança jurídica para funcionar bem. Sem ela, o investimento, arredio, migra para outras regiões do mundo.
Felizmente não temos tempo! Uai… felizmente? Sim. Torço que a urgência nos obrigue a termos tempo, coragem, competência e disciplina para agir rápido.
A análise que estamos fazendo não é uma sentença, mas um alerta. Alerta que pode nos livrar de sermos uma “classe de inúteis” para nos tornarmos uma nova classe de imprescindíveis.
Você escolhe qual delas?
Hudson Carvalho é Consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, Diretor Regional da WISDOM – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista e Diretor Executivo da ELABORE-ONLINE – Pessoas e Resultados.
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