Uma solução para a Venezuela
A recente ascensão da vice-presidente Delcy Rodríguez à presidência interina da Venezuela, por determinação do Tribunal Supremo de Justiça após a captura de Nicolás Maduro, coloca a diplomacia de Washington diante de uma encruzilhada de contornos dramáticos e oportunidades pragmáticas. As declarações do presidente Donald Trump, ao advertir que a nova liderança pagará “um preço alto” caso não siga a cartilha da Casa Branca, estabelecem um tom de urgência que, embora carregado da retórica habitual de força, abre uma fresta para o entendimento direto. O secretário de Estado, Marco Rubio, ao sinalizar a disposição de colaborar com as lideranças atuais caso tomem “as decisões certas”, aponta para a realpolitik necessária para estancar a hemorragia institucional e econômica que aflige a nação vizinha.
A manutenção de uma “quarentena” militar e o cerco aos petroleiros sancionados constituem ferramentas de pressão que, se por um lado asfixiam o regime, por outro oferecem a moeda de troca ideal para uma transição ordenada. Washington busca, legitimamente, o fim do narcotráfico, a contenção de gangues transnacionais e uma indústria petrolífera que beneficie o povo e não adversários estratégicos. Contudo, o sucesso desses objetivos depende menos do uso de tropas e mais da capacidade de converter a pressão em um canal de diálogo funcional com o governo interino de Rodríguez.
O reconhecimento de que o interlocutor anterior, Nicolás Maduro, era uma figura com quem não se podia negociar devido ao sistemático descumprimento de acordos, não deve ser transferido automaticamente para a nova liderança. A presidência interina de Rodríguez, embora nascida sob a égide do sistema chavista, possui agora o peso da responsabilidade de evitar o colapso total e a irrelevância internacional.
O interesse nacional dos Estados Unidos, prioridade número um da administração republicana, será mais bem servido se houver uma Venezuela estável e integrada ao mercado global de energia sob regras transparentes. A retomada da produção petrolífera em bases legítimas e o controle das fronteiras contra o crime organizado são metas que exigem um governo local funcional. Se Washington optar pelo isolamento total ou pela intervenção direta, corre-se o risco de criar um vácuo de poder que apenas aprofundará a crise migratória e a influência de atores externos hostis no hemisfério.
A “quarentena” militar deve servir como o balizador de uma negociação que leve a reformas graduais e ao restabelecimento da ordem democrática. O julgamento por ações, mencionado por Rubio, deve ser pautado por metas claras e prazos factíveis. Delcy Rodríguez tem diante de si a oportunidade de ser a arquiteta de uma saída negociada, preservando a soberania venezuelana enquanto atende às demandas de segurança e estabilidade da região.
Trabalhar em conjunto com o governo interino não significa endosso incondicional por parte de Washington, mas o exercício da diplomacia de resultados. O fim do isolamento da Venezuela e a recuperação de sua economia são fundamentais para que o povo venezuelano tenha um futuro digno. Os Estados Unidos possuem as ferramentas para induzir essa mudança, e o caminho mais curto e menos custoso para ambos os lados é a construção de uma agenda comum que priorize a paz social e a segurança hemisférica.