terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

Uma verdade drástica

A projeção de que as emissões globais de dióxido de carbono (CO2) provenientes de combustíveis fósseis aumentarão 1,1% em 2025 e, também, atingirão um novo recorde de 38,1 bilhões de toneladas, é um sinal alarmante que a comunidade internacional não pode mais ignorar. Os dados, detalhados pelo relatório do Global Carbon Project, confirmam um cenário em que o cumprimento da meta mais ambiciosa do Acordo de Paris — evitar que o aquecimento global supere 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais — “já não é mais plausível”.

O esgotamento iminente do orçamento de carbono, que deixava apenas 170 bilhões de toneladas de CO2 de margem e será consumido antes de 2030 no ritmo atual, exige uma reavaliação radical das políticas climáticas globais. A inércia está levando o planeta a um ponto de não retorno, com a perspectiva de um aquecimento de 1,7 grau Celsius sendo considerada um objetivo mais realista, mas com consequências severas e permanentes.

A defesa da urgência de os países e as corporações reduzirem drasticamente suas emissões de CO2 é a única resposta cabível diante do relatório do Global Carbon Project. O aumento projetado nas emissões, impulsionado por todos os combustíveis fósseis (carvão em +0,8%, petróleo em +1% e gás natural em +1,3%), demonstra que a transição energética não está ocorrendo na velocidade necessária.

O fato de as emissões na aviação internacional superarem os níveis pré-Covid (+6,8%) e de o desmatamento continuar liberando cerca de 4 bilhões de toneladas de CO2 anualmente, apesar dos esforços de reflorestamento, indica que as políticas de mitigação são insuficientes e fragmentadas. Mesmo em nações desenvolvidas, como os EUA (+1,9%) e a União Europeia (+0,4%), o movimento de queda dos últimos anos foi revertido, mostrando a fragilidade dos compromissos.

O estudo lança luz sobre outro fator agravante: o enfraquecimento dos sumidouros de carbono terrestres e oceânicos. O planeta está enviando um “sinal claro”, como observou o professor Pierre Friedlingstein, de que a capacidade natural de absorver CO2 está diminuindo, tornando a tarefa de redução de emissões ainda mais crítica.

Esse drástico cenário exige que as corporações, em especial as grandes emissoras de carbono, internalizem o risco sistêmico e acelerem seus planos de descarbonização, investindo em tecnologias de baixo carbono e abandonando a dependência de combustíveis fósseis. Para os governos, a ambição dos compromissos nacionais (NDCs) precisa ser elevada dramaticamente. Não se pode mais adiar a implementação de políticas que tributem o carbono, incentivem massivamente as energias renováveis e protejam os biomas vitais, como a Amazônia, que são cruciais para a resiliência climática global. A janela de oportunidade para evitar as consequências mais catastróficas está se fechando, e a inação será um fardo histórico.

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