Viva por uma razão!
“Cada vez mais, as pessoas têm os meios para viver, mas não tem uma razão pela qual viver.”
Viktor Frankl, psiquiatra austríaco, fundador da Escola da Logoterapia
Viktor Frankl viveu uma das mais duras experiências pela qual pode passar um ser humano.
Seria mais preciso usar a palavra sobreviveu (até os 92 anos) à prisão entre 1942 e 1945, nos campos de concentração de Auschwitz e Dachau. Lá, o ser humano que era foi reduzido a tornar-se apenas o prisioneiro No. 119.104. Saiu de lá sem saber que sua esposa e toda a sua família não tiveram a mesma sorte.
Estive pessoalmente nesse segundo campo e posso testemunhar que, até hoje, existe uma tremenda energia negativa naquele lugar. Apesar disso, é um lugar para ser visitado, para que lembremos o que ocorreu e nunca, jamais, permitamos que a humanidade repita esse episódio triste de sua história.
Nos anos seguintes à sua prisão, Frankl criou a escola de pensamento psiquiátrico conhecida como Logoterapia, que prega que a principal força motivacional de um indivíduo é encontrar sentido para a vida. Essa história está contada em seu livro Em Busca de Sentido, escrito em 1946. O próprio Viktor diferenciava sua linha de raciocínio da Psicanálise, de seu contemporâneo Freud, da seguinte maneira: “Na psicanálise, o paciente tem de deitar-se num divã e contar coisas que, às vezes, são muito desagradáveis de serem contadas. Pois na logoterapia, o paciente pode ficar sentado normalmente, mas tem de ouvir coisas que, às vezes, são muito desagradáveis de serem ouvidas.”
Esse é o ponto que quero resgatar: nossa capacidade de ouvir coisas desagradáveis parece andar baixa demais.
Num dos capítulos anteriores, falamos sobre a dificuldade que os líderes das organizações têm de conviver e produzir resultados com equipes formadas por profissionais da Geração “Z”. Não vou voltar ao tema (convenhamos, conflitos de geração sempre existiram), mas para mim ele ainda não está esgotado.
Talvez você lembre que uma das principais queixas é de que eles, os GenZ, são desmotivados e que sugeri um encontro no meio do caminho, onde cada lado abre mão de algo que pratica ou acredita, em prol de acharmos um ponto ideal de convivência. Continua me parecendo uma boa ideia, mas podemos esperar muito de “logoterapia” pelo caminho, afinal haverá vários assuntos desagradáveis a serem tratados.
Para ser bem prático, como é o espírito de nossas conversas por aqui, mas tratando do primeiro dos pontos difíceis, sugiro que você passe menos tempo nas redes sociais e mais tempo fazendo contato pessoal, aquele antigo (e insubstituível) olho no olho. Nos últimos dias, tive um exemplo muito claro dessa falta de traquejo social, ao participar de um evento de grande porte.
Ao aproximar-me de um conhecido mais íntimo, naquele momento numa roda de conversa com outras pessoas para mim desconhecidas ou menos conhecidas, percebi a dificuldade de estabelecer contato. Essas pessoas não sabiam se apertavam a mão ou não. Contato visual, nem pensar. O olhar está por demais atraído pela tela do smartphone, que eu também uso muito, mas que não troco por um bom aperto de mão e uma boa conversa.
Acredite: as pessoas não fazem negócios com você porque seu preço é menor, ou porque sua qualidade é maior. Elas o fazem porque acreditam em você. E não vão confiar em quem não conhecem. Simples assim.
OK, mas se eu ficar menos tempo nas redes sociais, vou usar meu tempo extra fazendo o quê? Sugestão: passe mais tempo com você mesmo. Autoconhecimento, se bem aproveitado, leva à autoconfiança, que é um sentimento que transforma a sua vida, na medida em que o torna capaz de escolher a sua atitude em qualquer circunstância. É libertador.
E se você resolver aproveitar ainda mais esse momento de silêncio, que estar consigo mesmo proporciona, eu recomendo que pense na sua espiritualidade. Não estou pedindo que adote uma religião. Espiritualidade leva o homem a reconhecer que há algo maior que ele mesmo. Crer nessa condição muda a perspectiva de vida e a forma como tratamos os assuntos que nos cercam. De novo, é libertador usar o tempo para aquilo ou aqueles que realmente valem a pena.
Viktor Frankl foi aprisionado por um tempo, mas seu espírito nunca ficou atrás das grades. Nós, que vivemos num mundo livre, não podemos nos limitar criando prisões que só existem em nossas mentes.